Iluminado, decisivo, jogador que chama a responsabilidade e não se esconde, seja dentro ou fora de campo. Thiago Neves, dono de uma personalidade forte e de declarações polêmicas, foi um jovem rebelde, mas que ao longo da carreira descobriu o melhor caminho a trilhar em busca do sucesso.

Da rebeldia aos dias de hoje, o camisa 30 do Cruzeiro é uma das grandes referências na Toca II, tem o sonho de vencer à Copa Libertadores com a camisa azul e ainda vive expectativa de voltar à Seleção Brasileira.

Você foi revelado no Paraná e em 2018 vai enfrentá-lo no Brasileirão. Como encara este reencontro?

Para mim é um momento especial, porque minha família toda é paranista, eu sou... Fui criado no Paraná, joguei lá por dez anos e tenho um carinho muito grande. Sai em 2006, em 2007 o time caiu para a Série B e foram dez anos de sofrimento. Todo mundo torcendo para que voltasse o quanto antes. Já já foi reencontrar a Vila Capanema, o Paraná Clube, e vai ser muito marcante. Meu avô é tricolor doente!

Lá, você chegou a ser afastado pela comissão técnica. O Thiago Neves era um fio desencapado no começo de carreira?

Não era. Eu tive em 2005, quando subi para jogar, o Paraná estava num momento ruim e a gente tinha feito uma Taça São Paulo boa. Ganhei a posição de titular, com a camisa 10. As coisas aconteceram muito rápido.  Eu virei profissional com 19 anos e com 20 já era titular. Acabou subindo um pouco na minha cabeça.  O Paraná teve uma troca de técnico. Era o Lori Sandri, depois saiu, e entrou o Barbieri. Aí que começaram os problemas. Ele me tirou do time e eu comecei a ficar um pouco rebelde. Mas nunca fui problemático; tive uns dois meses que eu fiquei rebelde e que tudo aconteceu até a minha saída. 

O trabalho deles (diretoria) é praticamente perfeito. A amizade que fizeram com todos os jogadores e a confiança que passam para todo mundo era o que a gente precisa
 

O que mudou do Thiago "rebelde" para o que se tornou ídolo no Cruzeiro?
Me arrependo da forma que saí (do Paraná). Saí muito mal. Queria ter ficado um pouco mais. Queria ter sido campeão paranaense em 2006. Do resto não me arrependo de nada. Se eu não tivesse feito algumas coisas, eu não estaria aonde estou e ganho o que ganhei. De tudo o que eu fiz no Paraná, eu aprendi. Você só aprende tomando porrada e foi desta forma que me fez crescer.

O ex-vice de futebol do Cruzeiro, Bruno Vicintin, lançou o livro sobre o título da Copa do Brasil e revelou que sua contratação quase falhou, temeu que você fosse o "Anelka do Cruzeiro". Num determinado momento, você realmente estava mais fora do que dentro do Cruzeiro nas negociações?

Foi um pouco complicado, porque o Klauss estava lá, a gente já estava acertado, acho que o presidente já tinha anunciado aqui na missa (de aniversário do clube), só que ainda tinha coisa para resolver. Não era questão salarial nem nada disso; era coisa do clube, de como ia ser feito, e isso que estava complicando. Seria um problemão e quase não deu certo. Para mim também seria muito ruim. Eu fiz de tudo para vim, e aí chega no momento e não dá certo? Ter que ficar no Al-Jazira eu não queria. Mas que bom que deu tudo certo e que ficou bom para as duas partes.

Você disse, em entrevista ao Globoesporte em 2016, que o Atlético Mineiro estava na sua lista de predileção caso voltasse ao Brasil. Hoje você é extremamente identificado com o Cruzeiro e, além disso, não tem muita frescura quando quer provocar o rival. Você chegou a receber proposta do Galo enquanto estava no Oriente Médio?

O negócio do Atlético foi mais porque o Fred estava lá, e é muito meu amigão. O Atlético estava passando por um momento ruim e sem um camisa 10. Eles já tinham uma conversa muito adiantada com o Otero. Aí, eu estava mais pelo Fred, até porque já tinha conversado com o Cruzeiro e já tinha alguma coisa aqui.  Estava esperando o Fred para ver o que ia resolver. Ele falou: "cara, eles estão vendo o negócio com o venezuelano e se não der certo eles vão em cima de você, já falei lá". Ainda bem que deu certo com o venezuelano, porque senão eu poderia estar lá. Coisa que eu não queria no momento.

Você vive no Cruzeiro o melhor momento da sua carreira? A idolatria é maior do que nos tempos de Fluminense, por exemplo?

É... pô... Sim. É diferente do Fluminense. Lá o torcedor também gostava muito, mas tem pavio curto e esquece muito rápido. Aqui no Cruzeiro as coisas continuam na mesma forma. Passei momentos maravilhosos no Fluminense, mas o que eu estou vivendo no Cruzeiro eu nunca vivi. Está sendo especial para mim, para o clube e minha família também. A cada competição que eu disputo, eu vou entrando mais e colocando meu nome na história do Cruzeiro. É só isso que eu quero. Brilhar cada vez mais e ser idolatrado pelo torcedor cruzeirense, assim como o Alex é.

Assim que o Fred se lesionou, o que você fez para ajudar seu grande amigo na recuperação?

Depois que ele fez a cirurgia, se não me engano ficou dez dias em casa. Teve que ficar de muleta e estava muito pra baixo. A gente estava sempre perguntando e eu ligava todos os dias perguntando, para tentar animá-lo. Combinei com os caras aqui para irmos na casa dele, jogar video game: "Ah! Vamos fazer um torneio lá na casa do Dom, pra ele animar." Fizemos um "torneinho", comemos uma pizza e fizemos uma bagunça lá. Eu fui umas duas vezes na cada dele. Uma com a galera e uma outra com uns amigos nossos do Rio. Todo mundo saiu, jantamos num Japa... Ele estava num momento ruim e não aguentava mais ficar em casa. O mínimo que a gente podia fazer era isso; levantar o astral do guerreiro. O Fred é um parceirão, meu amigo pessoal, então o que eu puder fazer por ele para botá-lo para cima eu vou fazer.

Você está marcado no livro dos recordes da Copa Libertadores, como único jogador a fazer hat-trick numa final. Apesar disso, não levantou a taça em 2008, pelo Fluminense. Dez anos depois, espera a redenção com a camisa da Raposa?

Eu quero que seja tudo diferente. Acho que já foi diferente nesta primeira fase. No Fluminense a gente foi o melhor da Libertadores, no geral. Jogamos até a final imbatíveis. Sofremos contra São Paulo e Boca, mas o time era muito bom, igual é o nosso aqui. Só que nosso time, do Cruzeiro, é mais cascudo e está crescendo no momento certo. O Fluminense, naquela época, cresceu muito rápido, mas nos momentos de decisão começou a jogar mal. Quero ser campeão e o que eu estou vendo é que temos grandes condições. O que assisto aí é que falam que é a Libertadores mais difícil. Ah! Esta que é a melhor de ganhar então. Temos todas as condições e montamos um time para isso. Na hora que precisou ganhar para classificar, a gente ganhou.

Você disse que o Cruzeiro vai "passar por cima" de qualquer adversário que enfrentar no Mineirão em 2018. Esta fala saiu com convicção na força do time ou apenas para provocar os rivais?

É o que eu vejo no meu time. Olho pro lado e vejo Robinho, Arrascaeta, Sassá, Fred, Raniel, Henrique, Lucas... O nosso time é muito bom. No Mineirão, a gente vai passar por cima de qualquer um. Tenho quase certeza. Pode ser Palmeiras, Flamengo, Corinthians. Nosso time é muito forte no Mineirão, ainda mais com a torcida que vai nestes jogos e empurra. A gente é quase imbatível sim. Para ganhar d'a gente no Mineirão este ano vai ser muito difícil, para qualquer time.
 

Você faz parte de um seleto grupo de jogadores da atualidade que não tem frescura para falar o que pensa. Não é moldado...
Tem muita gente que, não é medo a palavra, mas na hora de falar se omite, se esconde e prefere ficar quieto. Eu falo porque eu me garanto no campo. Podem falar o que for, mas, óbvio que às vezes não vai sair da forma que eu quero, mas eu me garanto. A minha parte eu vou fazer. Eu vejo na semana já como vai ser o nosso jogo. O jogo é só um detalhezinho. O que a gente faz na semana é o que importa. Estou no Cruzeiro para isso. Nos momentos de decisões, o time precisa de mim e eu tenho que estar bem. 

O nosso time é muito bom. No Mineirão, a gente vai passar por cima de qualquer um. Tenho quase certeza. A gente é quase imbatível sim. Para ganhar do Cruzeiro no Mineirão este ano vai ser muito difícil para qualquer time

Ainda sonha em ser convocado pelo Tite para a Copa da Rússia?

Sonho, sonho. Claro que sonho. Até porque ele ainda tem duas dúvidas para a Copa do Mundo, então eu estou sonhando. Vamos ver o que vai acontecer. É muito difícil, mas por que não sonhar?

O que a Seleção representa para você?

Para o jogador é o máximo onde pode chegar. Quando você vai para o jogo e bota a camisa amarela é um momento muito maravilhoso. Você não sabe se chora, se fica rindo sozinho. É muito bom. Eu quero voltar o quanto antes; voltei para cá (Brasil), para voltar para a Seleção. No Cruzeiro estou muito próximo e estou fazendo por onde. 
 

Como foi vestir a 10 da "Amarelinha"?
Foi na Argentina! A gente foi jogar em Córdoba, acabou a luz e era o jogo que eu estava com a 10. Me sacanearam e mandaram bater foto, porque ia demorar a acontecer isso de novo. (risos) Mas eu tive a sorte que remarcaram o jogo para o La Bombonera. A gente ganhou da Argentina nos pênaltis, eu e o Dom (Fred), e foi muito marcante vestir essa camisa.

Como encara a relação  dos jogadores nas redes sociais?

O torcedor é muita emoção. Às vezes sai do jogo, escreve alguma coisa, depois de arrepende. Até o jogador. Quando fui lá e falei o negócio para o Grêmio, depois me arrependi. Tem alguns torcedores que dão toques, eu leio e vejo no que posso melhorar. Outros são só escrotos mesmo, que escrevem um monte de besteiras (risos) e não vale nem a pena responder. O que me incomoda é o tal do Cartola.

Thiago tem estrela em decisões?
Eu tenho essa fama de decisivo porque eu faço por onde também. Numa semana decisiva, eu me preparo, porque sou um dos principais do time. No jogo também, eu sempre procuro chegar no lugar certo. Jogo decisivo é sempre um ou dois detalhes; não tem muita coisa. Me preparo para um cruzamento, para um chute ou uma bola parada. Quando a bola chega, estou preparado para aquilo. Ah! Então não é por acaso e nem dou sorte. Eu trabalho para isso. Eu sou iluminado nas finais porque eu faço por onde. Tem vários jogadores que a bola chega na hora da decisão e não sabem o que fazer; eu sei o que fazer. Eu sou bem competente (risos).

Na mudança de diretoria no Cruzeiro, que  gerou um certo clima de instabilidade interna, você pediu publicamente para que as pessoas que assumissem o novo mandato não atrapalhassem o clube. Como analisa esta transição hoje? O trabalho tem sido bem feito?
Montou um time bom, contratou nas posições que a gente tinha necessidade. Óbvio que tinha um receio, até porque a gente procurou saber de um, de outro... Então eu falei porque eu tinha uma amizade com o Bruno (Vicintin), com o Klauss, que foi a Abu Dhabi, ficou amigo da minha família, eu também fiquei amigo da família dele, dos filhos... Aí bateu um receio para saber se ele ficaria, assim como o Tinga  também. Mas quem entrou, o que eles estão fazendo pelo Cruzeiro é brincadeira. O trabalho deles é praticamente perfeito. A amizade que fizeram com todos os jogadores e a confiança que passam para todo mundo era o que a gente precisa. A gente tinha também da outra diretoria, mas esta é mais cascuda, com mais rodagem no futebol e sabe falar a língua do jogador. Isso foi bom para todo mundo e está dando mais estrutura ainda para um clube que já é gigantesco.