A história do goleiro Victor no Atlético começou em 2012, quando o ex-presidente Alexandre Kalil foi às redes sociais anunciar a contratação do então camisa 1 do Grêmio. A curiosidade é que, na hora da famosa “tuitada”, o contrato ainda não havia sido assinado.

Figura importante nas principais conquistas do clube alvinegro durante estes cinco anos, o paulista de Santo Anastácio virou o “São Victor do Horto” na Libertadores de 2013 e se consolidou como um dos grandes ídolos da torcida e líderes do elenco atleticano.

Neste Papo em Dia, o jogador de 34 anos relembra a chegada a Belo Horizonte e os títulos conquistados, fala sobre o momento atual do Galo e projeta o futuro no clube, com o qual tem contrato até o fim de 2019.

Você chegou ao Atlético em 2012 e viveu o período mais vitorioso do clube. Agora, em 2017, parece que existe um processo de reconstrução. Como encara esse momento e como pode ajudar nesta etapa?

É normal que todas as equipes passem por isso. A gente passou cinco anos brigando pelas principais competições que disputou. O futebol é muito dinâmico. A maioria dos atletas que tiveram grandes conquistas aqui acabaram saindo, exceto eu, Marcos Rocha, Giovanni, Luan e Léo Silva, então é normal que haja esta reformulação. A gente tenta, com essa experiência que temos no futebol e no clube, passar como funciona o dia a dia, a torcida, e a forma como a equipe está habituada a jogar. Tentamos dar tranquilidade, principalmente aos mais jovens, pois o diálogo é importante para ajustar certas coisas.

Isso passa por falar sobre o que é o Atlético?

Com certeza. O jogador, quando chega no clube, tem que saber o que ele representa, qual é a filosofia de trabalho. E tem que se adaptar a isso. Saber de toda história, a forma a qual a torcida gosta que o time jogue, e tem que conhecer o funcionamento do dia a dia. Nesse sentido, também tento passar alguma coisa.

Victor Libertadores Atlético

O Atlético foi eliminado da Libertadores e da Copa do Brasil. Agora, tem a chance de ser campeão da menosprezada Primeira Liga. Como você encara essa competição?

A partir do momento em que você entra em um campeonato para disputar, você faz seu melhor. Por mais que muitos não dêem muita importância ao torneio, é a nossa chance de conquistar mais um título em 2017. Encaramos com grande importância, independente do adversário. Todos esperavam um clássico na final, talvez não todos os jogadores, mas vocês da imprensa e os torcedores. Mas, independente do adversário, temos que estar focados para sermos campeões, principalmente por ser um título inédito para o Atlético. As conquistas sempre engrandecem o trabalho no clube. A final da Primeira Liga passou a ser nosso objetivo de vida também e, claro, colocar o Atlético novamente na Libertadores através do Campeonato Brasileiro.

Para mim, é motivo de orgulho entrar no hall de grandes feras e brigar pelo posto de maior goleiro do Atlético. Não me considero o melhor, pois cada um tem sua importância, em sua época”

Acabar com aquela história de que o Atlético tinha o melhor elenco do país e diminuir os holofotes foi importante para a situação no clube se normalizar?

Quem rotula não somos nós, são os torcedores e a imprensa. As coisas não aconteceram como esperávamos e não encaixaram. Tivemos oscilações, mas isso não foi um peso a mais, pois nunca encaramos assim. O Brasil tem pelo menos dez times em condições de brigar por grandes títulos. A responsabilidade existe por defender uma camisa com peso como é a do Atlético.

Você machucou o ombro no fim do ano passado. A contusão causou preocupação, principalmente nos torcedores que lembraram das dificuldades enfrentadas pelo ex-goleiro Velloso para voltar aos 100% quando sofreu esse mesmo tipo de lesão. O quão prejudicial foi para você, e como está a situação atualmente?

A lesão nunca é produtiva para o atleta, mas não acho que interfira no meu trabalho. Estou bem, procuro diariamente fazer reforço, cuidar bem para não ter problemas futuramente, mas não me atrapalhou em nada. Fiquei chateado, mas todo jogador está sujeito a isso. Atrapalhou na sequência de jogos no início do ano, mas está superado.

A mania de torcedores imprensa ao compararem o Atlético atual com o de 2013 incomoda? E você, por aquela defesa de pênalti contra o Tijuana, sempre ser cobrado para manter a mesma performance... Isso pesa?

Não pesa. Fazer comparações de um time para o outro é inevitável, mas cada um tem sua característica e cada um tem que fazer sua história. Quando você atinge um nível de excelência, você é cobrado por isso. Em cima disso é que procuro trabalhar e me superar. Não quero ser melhor do que ninguém, apenas do que eu mesmo. O meu trabalho no Atlético não se resume apenas à Libertadores. Tive outras conquistas, fui eleito duas vezes o melhor da posição na Copa do Brasil, e outras coisas mais.

Victor Atlético Cidadão Honorário Câmara Municipal de Belo Horizonte

Nascido no interior paulista, jogador de 34 anos recebeu título de cidadão honário de Belo Horizonte em 2015

A forma como você saiu do Grêmio e a dívida que o Atlético ainda tem, referente à contratação, mancharam sua imagem no Sul. Isso te afeta ou chateia de alguma forma?

Não incomoda, porque eu não tenho nada com isso. Não fui eu que adquiri a dívida, não fui eu que negociei. Isso é assunto entre diretorias. O que me chateia é a forma como a diretoria do Grêmio tratou a minha saída. Alegaram que eu tinha pedido para sair e que não queria mais jogar lá. Foi uma grande mentira, e é a imagem que acabou ficando. Foi uma decisão deles de fazer o negócio. Estavam no direito, mas mentiram. Não guardo mágoa, mas tem um ressentimento, ainda mais pela forma que me trataram lá. Mas isso está superado, Deus sabe o que faz. Vim para cá, e o Atlético me elevou a outro patamar de carreira.

Não quero ser melhor do que ninguém, apenas do que eu mesmo. Meu trabalho no Galo não se resume à Libertadores. Tive outras conquistas, fui eleito duas vezes o melhor na Copa do Brasil, e outras coisas mais”

Você lembra o momento da ‘tuitada’ do Kalil? Pode contar o que houve entre a proposta e o anúncio?

Na verdade foi muito rápido. Não teve tempo nem de ter alguma ansiedade. Treinei na sexta e, no domingo, teria o jogo justamente contra o Atlético. Eu estava no time titular. Fiquei sabendo da proposta pelo meu empresário e fui na sala do presidente conversar com um diretor, após o treino, pois não sabia o que estava acontecendo. Me disseram que estavam aguardando uma contraproposta, e, em meia hora, o Kalil tuitou. O contrato nem estava assinado ainda, mas estava apalavrado. Me assustei pela velocidade.

Você veste uma camisa que já foi de Kafunga, João Leite, Taffarel e outros grandes goleiros. Muitos te consideram o melhor da história do Atlético. Tem noção do tamanho disso?

Para mim, é motivo de grande orgulho entrar no hall de grandes feras e brigar pelo posto de maior. Não me considero o melhor, pois cada um tem sua importância em sua época. Ainda vivo diariamente o clube, então é difícil parar para pensar nisso. Talvez quando eu parar de jogar, com o passar dos anos, eu consiga dimensionar de maneira mais precisa o que eu significo na história do Atlético.

Se vê defendendo outra camisa? Se aposentar no Galo é uma ideia?

Estou com 34 anos e tenho mais dois anos de contrato. Com toda identificação que tenho aqui, é difícil me imaginar fora. Não posso cravar, pois o futebol às vezes nos surpreende. Mas, hoje, não me vejo fora do Atlético por tudo isso. Estou feliz e quero cumprir o contrato. Depois, se for de boa vontade para que renove, será muito bem-vindo. Prefiro viver o presente.

Leia mais:
Confira outras entrevistas publicadas no especial 'Papo em Dia'