As cicatrizes nas canelas e nos joelhos não deixam dúvida de que Ricardo Oliveira acumula uma longa caminhada no futebol. As principais marcas, no entanto, são invisíveis aos olhos. 

"Forjado" na favela Zaki Narchi, no bairro Carandiru, Zona Norte de São Paulo, o camisa 9 do Atlético nasceu e cresceu rodeado por cinco presídios. Daquele ambiente, tirou lições para toda a vida, antes de conhecer o sucesso na Europa, a idolatria nos Emirados Árabes e o orgulho de vestir a camisa da Seleção Brasileira.

Já aos 37 anos, o atacante decidiu encarar um novo desafio e aceitou a proposta do Atlético “de coração escancarado”, em decisão conjunta com a família, mesmo não sendo a melhor oferta em termos financeiros.

Ricardo foi cobiçado por Maradona, tabelou com Ronaldo Fenômeno e virou amigo dos Sheiks. Agora, terá a oportunidade de conquistar a Massa alvinegra e provar o maior clássico na terra do falecido pai, natural do Sul de Minas. Fôlego e motivação não faltam, garante ele nesta entrevista ao Hoje em Dia (leia na íntegra abaixo).

Você tem quatro gols em nove jogos neste ano (0,44), número próximo à sua média na carreira (0,51). É esta a meta a perseguir no Atlético?

​A meta para atacante é fazer gol todo jogo, pela cobrança que existe. A começar por mim mesmo, porque eu me exijo bastante. Mas são números importantes, bons, e espero poder melhorar ainda mais. Os jogos contra América e Botafogo-PB nos deram uma ideia do que somos capazes de fazer. E eu, como o ‘nove’, o cara responsável pelos gols, até pela expectativa do torcedor e a exigência que existe com a camisa do Atlético, estou feliz. Não satisfeito ainda, mas feliz.

Qual a sua expectativa para o primeiro clássico com o Cruzeiro?

Eu ainda vou viver essa experiência, mas, acompanhando de fora, é um jogo especial, diferente. Já assisti a alguns jogos, e agora vou ter a oportunidade e o privilégio de viver isso lá dentro, com a camisa do Atlético e jogando em casa. Espero poder continuar nesse momento doce, de gols, e cooperar com o crescimento coletivo, para que possamos chegar bem para este jogo, e, se Deus quiser, termos uma grande atuação.​

Contra o América, você chega a chutar a trave demonstrando raiva após um lance em que o Róger Guedes poderia ter tocado a bola. Como anda essa afinação entre vocês?

A gente conversa bastante. O Róger é um menino super do bem, e eu conheço as características dele, por já termos nos enfrentado muitas vezes. Mas, assim como me cobram quando não faço gol, eu também cobro quando tenho a chance e não recebo a bola. E isso tudo é bem saudável. Quando há cobrança entre nós é assim, pensando no coletivo e no resultado que almejamos. Sempre enfatizo isso.

Depois, você dá uns ‘tapas’ nele na comemoração do gol contra o Botafogo-PB. O que disse ali?

Dei os parabéns para ele. Nos treinos, sempre falo que não costumo ficar parado e gosto de abrir espaço. E, quando isso acontece, precisa ter um ‘nove’ ali. Eu iniciei a jogada, saí da área, e ele estava lá para finalizar. Isso é resultado de treino e também de muita conversa, porque estamos jogando juntos há pouco mais de um mês. É pouco tempo para buscar entrosamento.

Ricardo Oliveira e Róger Guedes eram rivais no futebol paulista, e se encontram em BH

Nova dupla de ataque soma sete gols com a camisa do Atlético na temporada 2018

 

Por falar nessa relação com os mais jovens, o Cazares andou publicando vídeos em que você aparece servindo o almoço dele no CT. É uma aposta, uma brincadeira entre vocês?

O Cazares deu sorte, tá? Um dia antes dos jogos, a gente vai ali fazer um treino de bola parada. Mas a aposta é só nas faltas. Nos pênaltis, eles não apostam (risos). Estou apostando com o Otero, que não bate muito bem na bola, né?... E com o Cazares, que tem um aproveitamento razoável (risos). O meu é bom...

Mas você está perdendo.…

Estou perdendo para o Otero! O Cazares ganhou uma ou duas vezes e ficou todo animado. Aí ele vai lá e posta. Você vê o Otero postando? (risos). Mas esse é o nosso ambiente, saudável, gostoso. Isso soma bastante no entrosamento. Quando cheguei aqui, todos me abraçaram. Me sinto em casa, de verdade.

Você deixou o Santos, com o qual era muito identificado, para iniciar uma história nova em Belo Horizonte. Como foi essa mudança?

Minha adaptação está sendo ótima. Vim com o coração escancarado mesmo, com muita alegria e disposição para esse desafio. ‘Mas um desafio aos 37 anos?’ É isso que me move, não consigo ficar onde eu já esteja cômodo, onde não tenha mais aquele sangue no olho. Nunca funcionei assim.

Minha adaptação está sendo ótima. Vim com o coração escancarado mesmo, com muita alegria e disposição para esse desafio. ‘Mas um desafio aos 37 anos?’ É isso que me move"

É por isso que aceitou um contrato menor, com bônus por produtividade?

É isso, com certeza. Não tenho problema nenhum de fazer contrato como o que fiz no Santos, curtinho, só o Campeonato Paulista (2015). Depois que me provei, fiz um contrato melhor. Fui artilheiro do Estadual e do Brasileirão, e voltei para a Seleção com 35 anos. Eu sou desse jeito, gosto de treinar, de me desafiar e me superar. E estar em um lugar onde você é querido te faz bem. Vim de coração aberto e fui abraçado pelos mineiros, principalmente pela Massa atleticana. Tenho raízes mineiras, não sei se vocês sabem… Meu pai era de Guaxupé, e estou tendo a oportunidade de trabalhar na terra dele pela primeira vez.

Recebeu mesmo propostas financeiras melhores que a do Atlético?

Sim, tive propostas do Brasil, de outros clubes grandes. Mas foi uma decisão familiar, não só minha. Entendemos que era o momento de sair de São Paulo, e confesso que poder ter o calor da torcida do Atlético ao meu lado me incentivou bastante. Estou aqui com a minha família, com o coração aqui, sem nada que me prenda a outro lugar.

No dia da demissão do técnico Oswaldo de Oliveira, foi noticiado que você, o Victor e o Leonardo Silva se reuniram com o presidente Sérgio Sette Câmara. Qual foi o teor dessa conversa?

Foi muito importante vocês tocarem esse assunto, porque isso não procede, tá? Nós subimos para pegar os ingressos que são distribuídos para os atletas. Tem uma recepção, a sala do presidente, a sala do diretor e uma outra sala lá em cima. Coincidiu de a TV estar ali, então juntaram as duas coisas. Até então, ninguém tinha feito essa pergunta diretamente a mim, nem aos demais companheiros. Então estou esclarecendo que isso não procede.

As camisas da carreira profissional do atacante; duas passagens por Santos, São Paulo, Bétis e Al Ja

As camisas da carreira profissional do atacante; duas passagens por Santos, São Paulo, Bétis e Al Jazira

Você é pastor evangélico, de fato? Como lida com isso paralelamente ao futebol?

Eu separo as coisas. A minha profissão é a minha vida. Só que também tenho o meu ministério, pelo qual sou apaixonado, há 17 anos. Fiz isso por onde passei, até nos Emirados Árabes, onde fundamos uma igreja missionária. Eu nunca vou negar a minha fé, nunca, nunca, nunca. Exerço, sim. Claro que não em período integral, mas sempre que posso.

O que acha dessas brincadeiras, por exemplo, 'time de anjo não ganha nada'?

Tem muito disso. Algumas pessoas dizem ‘é time de gente que só fica aí lendo Bíblia e não ganha nada’. E então você pega outros times, só de caras que vão para a gandaia, que bebem… Mostra para mim, coloca na balança e fala que esse ganhou mais do que aquele... Ganhou um, dois? Então é preconceito, não tem relação nenhuma.

Já aconteceu de um técnico proibir culto? Como lidou com isso?

Já, já teve. Olha, eu sou submisso a toda autoridade constituída debaixo do céu. Acredito que toda autoridade foi instituída por Deus. Então, se o meu treinador, ou o meu diretor, alguém que estiver acima de mim falar ‘não queremos mais que tenha reunião’, não tem reunião. Não tem reunião. Mas sabe o que acontece? Quando a bola entra, aí não tem problema nenhum em fazer estudo bíblico (risos)…

Se o meu treinador ou o meu diretor falarem ‘não queremos mais que tenha reunião’, não tem reunião. Mas sabe o que acontece? Quando a bola entra, não há problema nenhum em fazer um estudo bíblico (risos)”

Você já disse que não sente o peso da idade. Se sente com quantos anos?

É difícil falar. O que posso dizer é que não preciso ficar fora de nenhum treino, de nenhum trabalho, e que os meus testes de força, de percentual de gordura, são alguns dos melhores. Isso é resultado de disciplina. Faço isso diariamente há 17 anos de carreira, no clube, nas folgas, porque o maior investimento que um atleta pode fazer é em si mesmo. Eu aconselho alguns meninos que sobem para o profissional, renovam contrato, vão lá e compram um baita de um carro. Isso não é investimento. Porque amanhã, se essa máquina aqui não funcionar (aponta para o próprio corpo), o carro já perdeu valor, vai acabar. E as pessoas, sinceramente, não vão olhar se você tem 17, 27 ou 37 anos se você estiver dando bons resultados lá dentro do campo.

Se você pudesse ‘corrigir’ algum capítulo na sua carreira, seria a passagem complicada pelo Milan, na qual você enfrentou o drama do sequestro da sua irmã?

Não, porque não dependeu de mim. Foram coisas extracampo, eu não tive o que fazer. Mas o Milan foi um marco, um divisor na minha carreira. Porque eu cheguei lá e via caras de 38 anos (Maldini e Cafu) puxando a fila. E eu estava com 26. Eu já era disciplinado, mas eles me inspiraram e fizeram me esforçar ainda mais. Se estou jogando até hoje, devo a esses caras. E, claro, foi onde conquistei a Champions League, um troféu que levo com muito orgulho na minha carreira.

Zaki Narchi, Carandiru e Canindé. O que essas palavras representam para você?

São as raízes, o princípio. Foi onde cresci e consegui forjar o meu caráter nas dificuldades. Lidei com pessoas sensacionais ali na favela, apesar da violência e das influências muitas vezes negativas. É possível você sair de um lugar onde ninguém dá nada, que ninguém olha, ninguém quer pisar, e mostrar o outro lado disso, mostrar que há pessoas de bem ali.

No outro oposto, você virou ídolo nos milionários Emirados Árabes. É verdade que virou amigo do Sheik?

Exato. Até hoje eu tenho contato. Não só com os sheiks, mas com os emirates mesmo, os jogadores locais e quem mora lá. Eles me receberam com o coração muito aberto e me proporcionaram momentos marcantes, não só como profissional, mas como ser humano. Até hoje tenho um vínculo com aquele país, e o admiro e respeito muito.

Maradona e Ricardo Oliveira

Nos Emirados Árabes, atacante enfrentou time de Maradona cinco vezes e marcou cinco gols

Como foram os encontros como o Maradona no período em que atuava lá?

É, nos encontramos, tem foto minha com ele. Eu estava no Al Jazira, e o Maradona quis me levar para o time dele (Al Wasl) na época. Na verdade, já tínhamos tido um primeiro contato bem antes (2005), quando ele foi visitar a Seleção Brasileira na Argentina para abraçar o Ronaldinho. Essa matéria ganhou proporção mundial na época. Depois, nos Emirados, ele sempre me abraçava e falava que me queria no time dele. Poxa, foi um cara que eu vi jogar no fim de carreira, na Copa de 1994, então poder vê-lo de perto depois, conhecê-lo, conversar com ele, foi inesquecível. Tenho essa foto guardada.

Qual foi o zagueiro mais difícil que já enfrentou?

Não posso falar em termos técnicos, mas o cara que mais me deixou perturbado dentro de campo foi o Puyol (ex-Barcelona). Porque não desistia nunca da jogada. Você achava que já tinha driblado, mas ele se jogava na frente da bola, te empurrava... Foi muito chato jogar contra ele.

Se pudesse escolher o ‘jogo perfeito’, qual seria o companheiro de ataque, a camisa, o estádio e o torneio?

O cara que me inspirou, Ronaldo Fenômeno, com quem tive o privilégio de jogar no Milan. Seria injusto escolher um clube, então a camisa seria a da Seleção. O estádio Canindé, onde tudo começou, o primeiro gol... E a Champions League. Seria a combinação perfeita, realmente, desses ingredientes que marcaram a minha vida.

Para finalizar, escolha o gol mais bonito da sua carreira.

Difícil, hein... Tem o gol contra o Flamengo no Canindé, que garantiu a minha convocação para a Seleção logo depois da Copa de 2002. Eu pego a bola um pouco à frente do círculo central e saio driblando até chegar na cara do Júlio César. Ele ameaça, ameaça e eu consigo chutar no alto. Escolho esse porque foi o gol que me proporcionou essa abertura de portas na Seleção.

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