Quando o Palmeiras montava o elenco na pré-temporada, o recém-contratado Willian não estava cotado como um dos protagonistas do time. Porém, o atacante, que veio do Cruzeiro, aos poucos mudou de status, conquistou espaço e, para a própria surpresa dele, virou o artilheiro da equipe no ano, com 15 gols. Em entrevista exclusiva ao Estado, o jogador comentou sobre o seu momento no clube, recordou o passado no Corinthians e ainda contou detalhes da sua "fuga" da guerra na Ucrânia.

O que te levou a fazer mais gols neste ano em comparação a outras temporadas?
O ano de 2016 não foi bom como um todo no Cruzeiro porque chegaram outros atletas ao clube, tiveram mudanças, alterou um pouco o jeito de jogar. Quando os gols não saem, essa cobrança é muito grande, tem a opção do treinador de colocar um outro atleta. Na época, o (técnico) Mano Menezes colocou o Ábila, que tinha sido contratado recentemente e aproveitou a oportunidade, disparou a fazer gols, teve uma sequência grande. Nesse momento fiquei no banco, mas sempre trabalhando, acreditando e depois voltei a jogar novamente, mas não foi um dos melhores anos que eu podia ter. Tive a oportunidade de vir para um grande clube, que é o Palmeiras. Tinha a certeza que a cobrança aqui seria muito grande, forte, mas a expectativa era muito boa, mesmo sabendo da concorrência, que ia ter de começar um pouco atrás, até pela base que se manteve do ano passado para este ano. Chegaram alguns atletas, como eu, sabia que ia ser um desafio grande pelo Palmeiras ser o campeão brasileiro com grandes jogadores e contratações.

Ser o artilheiro te surpreende?
Sim, surpreendeu. Até porque tenho jogado em várias posições, mas tenho aproveitado as oportunidades. Hoje eu me cobro muito para chegar dentro da área, fiz bastante gols assim, tentando acreditar, por estar bem colocado, ou com jogadas individuais. Ao mesmo tempo estou ajudando na parte tática. Estou muito feliz. Meu objetivo realmente era fazer gols, atuar sempre, brigar pela titularidade, manter uma regularidade. Mas não mirava ser o artilheiro do time. Acho que isso é natural. Tenho aproveitado. Não ligo de ser o artilheiro, lógico que isso me valoriza e sou cobrado, mas eu trocaria por títulos. Acho que isso é o que mais valoriza um atleta dentro do clube. Tenho mais dois anos de contrato e, por tudo o que Palmeiras tem feito, pelo investimento, pela potência que virou, temos tudo para terminar o ano bem. Temos tudo para terminar no G4 e em 2018 fazer uma temporada bem melhor do que esta.

Após a temporada irregular no Cruzeiro, você esperava sair e ter chance no Palmeiras?
Eu estava tranquilo. Eu tinha mais dois anos de contrato e sabia que tinha um mercado legal, não tinha motivo para se desesperar, até porque tinha vínculo. Tinha certeza de que se fosse sair, seria para algo bom. Teve interesse de outros clubes, mas o maior interessado, e foi a melhor escolha, foi o Palmeiras. Fiquei muito feliz quando tive o contato do Palmeiras, por ser o campeão brasileiro, por jogar uma Libertadores, e eu tinha essa ambição.

Você temeu que o seu passado no Corinthians te atrapalhasse com a torcida?
Não, nem um pouco. A gente sabe que os torcedores têm uma rivalidade muito grande, mas da minha parte sempre houve respeito por onde passei. Então, isso me tranquiliza. O respeito é o que vai nos blindar e fortalecer a nossa atitude. Cheguei e estou feliz por estar no Palmeiras, pela história que tem. O fato de eu ter jogado no Corinthians não me atrapalha em nada. Estou aqui pelo fruto de um bom trabalho tanto no Corinthians como no Cruzeiro. Se fosse assim, teria de ter mais clubes e menos jogadores. Isso faz parte. Sou muito profissional e é assim que lido com meu estilo de vida, minha carreira e caráter, com muito respeito pelo Corinthians.

O Palmeiras se cobra por mais um título da Libertadores da mesma forma que o Corinthians se cobrava na sua época?
Acho que sim. Apesar de o Palmeiras já ter esse título, a Libertadores é muito importante, todo atleta tem o desejo de conquistar, assim como a diretoria e a torcida. É o que te leva para o Mundial, que é o título mais importante. A cobrança é grande. Não conseguimos neste ano, infelizmente, mas a gente espera fazer um grande campeonato para no ano que vem entrar mais forte e conquistar esse título.

Você passou um ano na Ucrânia. Foi sofrido?
Não. A maior dificuldade foi ficar longe da esposa, da minha filha que tinha nascido. Fui muito bem recebido, éramos em seis brasileiros lá, então isso facilitou muito. Era uma liga muito difícil, em um país em que a cultura é um pouco diferente. Foi bacana, foi uma experiência de vida. Estava lá no clube, tinha contrato de cinco anos e quando completou o primeiro ano, tive a oportunidade de voltar ao Brasil. O Cruzeiro estava montando um projeto. Foi uma oportunidade muito boa, fiz a escolha certa. Depois de um ano que se cumpriu o empréstimo, a Ucrânia entrou em guerra. De alguma forma ia ter que sair do país, então fui para o Cruzeiro, acabei comprado e fiquei lá três anos e meio.