O patrimônio cultural e arquitetônico acumulado por Belo Horizonte em 120 anos de história, completados na próxima terça-feira, 12 de dezembro, é referência para qualquer roteiro turístico. São parques, museus, igrejas, monumentos e reservas naturais a perder de vista. No entanto, ainda há filhos da terra, criados e residentes na capital, que nunca visitaram esses cartões-postais.

É por isso que a experiência de descobrir a própria metrópole, como uma espécie de turista nativo, pode ser extremamente interessante. Em muitos casos, as pessoas nem sabem que um determinado prédio guarda riquezas que ajudam a contar a história do município. O fato é que a surpresa é garantida. 

O Hoje em Dia foi à procura de pessoas que nunca tinham pisado em locais como o Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação, no hipercentro. Visitas também foram organizadas ao Presépio do Pipiripau, no bairro Horto, na zona Leste de BH, e ao Parque Serra do Curral e Praça Raul Soares, região Centro-Sul. As reações desses moradores você confere agora.

Vista de cima

Gari aniversário 120 anos de BH Gladstone Souza dos Santos

Gladstone Souza dos Santos, de 28 anos, já trabalhou como garçom e auxiliar de arquivamento, mas foi atuando como gari que ele garante ter se realizado profissionalmente. Há um ano e três meses, limpa as ruas da capital e compõe a equipe que cuida da Praça Raul Soares. Mesmo dedicado à rotina da varrição, não fazia ideia de que os desenhos formados pelas pedras portuguesas no piso da área de convivência são oriundos de tribos marajoaras – naturais da Ilha de Marajó, no Pará – e que o conceito arquitetônico é inspirado em jardins europeus.

Com cerca de 15 mil metros quadrados, a Raul Soares está no cruzamento das avenidas Amazonas, Bias Fortes, Olegário Maciel e Augusto de Lima – quatro dos corredores mais importantes da capital. Do alto do edifício JK, Gladstone viu pela primeira vez o local em que trabalha por um ângulo privilegiado.

O encanto foi imediato. Para ele, uma oportunidade única de compreender o quanto a conservação da praça é essencial para a cidade. “Tem uma mensagem que só pode ser vista daqui. Andando lá embaixo não é fácil perceber isso. É uma experiência indescritível”, comentou.

Aula de história

Museu de Artes e Ofícios

A descoberta de um tesouro escondido quase embaixo do próprio nariz também pode ser muito prazerosa. Foi o que viveu a supervisora estratégica de uma empresa de telemarketing, Débora Lopes, de 28 anos, ao conhecer o Museu de Artes e Ofícios. 

Débora passa pela Estação Central de metrô todos os dias, entre a ida e volta do trabalho, mas, até então, não havia se atentado para o que poderia ter dentro daquele prédio amarelo e imponente. 

Nos mais de 9 mil metros quadrados da edificação, ela teve a chance de viver o que chamou de “aula de história”, onde descobriu profissões que hoje nem sequer existem mais. Durante todo percurso, demonstrava ares de encantamento e curiosidade, comentando sobre as curiosidades e belezas de cada obra visitada. “É muito interessante ver tudo isso. O que para a gente hoje é moderno, daqui a alguns anos vai deixar de ser. É um privilégio ter todo esse acervo disponível”.

Horizonte amplo

Mirante Curral

Se o contato visual com algo novo e belo já é, para a maioria das pessoas, um momento de alegria, imagine para alguém que exercita o olhar na rotina do dia a dia. O fotógrafo Danilo Viegas se emocionou ao avistar a capital do alto do Mirante 3 do Parque da Serra do Curral. Fascinado por paisagens, o belo-horizontino ainda não tinha olhado para a cidade de um ponto tão especial. Ali, o breve momento de contemplação do pôr-do-sol foi suficiente para “mudar a relação com a cidade”, segundo Danilo.

“É possível perceber que BH não é apenas um emaranhado de prédios. São histórias. Eu me sinto mais belo-horizontino daqui de cima, faz lembrar da minha infância. Essa sensação com certeza deixa o coração bater mais forte”, conta.

E não era para menos. A Serra do Curral tem pontos que podem chegar a mais de 1,3 mil metros de altitude. Um prato cheio para quem quer registrar uma imagem da metrópole. “Como fotógrafo, vi uma luz sensacional, que dá para pegar o contorno da cidade inteira. A vista é maravilhosa”. *Atualmente, o Parque Serra o Curral está fechado para visitação devido à morte de um macado, por febre amarela, no Parque das Mangabeiras.

Paralelo

Pipiripau

Para o especialista em sistemas de informação Pablo Lopes, de 30 anos, o choque de realidade foi ainda maior. Acostumado com o mundo tecnológico, ligado à linguagem de programação, ele foi colocado pela primeira vez diante do Presépio do Pipiripau: famosa engenhoca mineira com 580 personagens que se movem narrando a vida de Cristo em 45 cenas e que começou a ser construída em 1906.

Apesar do estranhamento inicial, Pablo enxergou beleza e até semelhanças entre o funcionamento do presépio e os programas de computador com os quais trabalha. Para ele, nas duas situações, o que está em funcionamento conta com a tecnologia. 

“Por mais que seja manual, você manipula por trás alguma coisa e na frente a pessoa vê outra. É a mesma ideia da programação”, explica. Pablo Lopes ainda lembrou do paralelo entre o presépio e a programação. “Quando você olha um site ou um aplicativo, você não faz ideia do que está acontecendo lá atrás. Desenvolver um sistema implica na mesma ideia”.