O dia mal amanhece e a dona de casa Gláucia Antunes Braga, de 55 anos, moradora do Santa Cecília, arruma-se para ir à Academia da Cidade no bairro vizinho Urucuia, região do Barreiro. Mesmo não visitando um médico ou submetendo-se a qualquer exame, ela está usando um serviço do Sistema Único de Saúde. Mais amplo que a maioria imagina, o SUS oferece de atendimento hospitalar e promoção à saúde a ações de vigilância sanitária.

O programa Academia da Cidade em Belo Horizonte conta com 63 unidades, que atendem acerca de 25 mil pessoas. Gláucia frequenta o espaço no Urucuia há três anos, religiosamente, três vezes por semana. A indicação para fazer atividades físicas veio do médico do posto de saúde.

"Adoro, gosto do professor, que é nota mil, gosto da convivência com os amigos". Para ela, o resultado do esforço foi a melhora nos índices de pressão arterial, que estavam altos quando começou, a queda no colesterol e muito mais disposição.

Melhorias

Educador físico responsável pela unidade, Gustavo Abrantes Viana diz que a evolução dos usuários é perceptível. "Aqui temos contato direto com eles. Acompanhamos os alunos, fazemos reuniões com as equipes do posto e levamos o retorno que temos dos usuários para lá. Cerca de 60% dos alunos apresentam algum problema crônico, e todos que são frequentes conseguem melhorar", relata.

Outro ponto importante é a socialização. Muitos sofrem de depressão, e o contato com os colegas e a prática de atividades físicas podem ajudar a reverter esse quadro.

Foi assim para a aposentada Marlene Chaves da Silva, de 66 anos. Ela começou a frequentar as aulas por insistência da família, além da orientação médica. Para ela, além da saúde física, a academia cuida da alma. "É muito boa a convivência com os amigos, tenho mais qualidade de vida hoje. Arrependo de não ter começado mais cedo".

Gargalos

O programa Academia da Cidade, assim como atendimento de saúde bucal, fisioterapia, psicologia, a distribuição de medicamentos e todos os serviços oferecidos nos postos de saúde compõem a atenção básica, porta de entrada do cidadão ao SUS e responsável por estruturar todo o sistema. É justamente nesse nível primário que o cidadão acredita ter acesso mais facilitado, aponta levantamento do Conselho Federal de Medicina.

Para usuários ouvidos pela reportagem, o atendimento nos postos é bom, mas poderia melhorar. "É muito bairro para pouco posto", brinca Marilene.

E ela tem razão. A gerente de Assistência à Saúde, da Secretaria Municipal de Saúde, Taciana Malheiros, reconhece que um dos gargalos é o grande número de usuários sob a responsabilidade de cada Equipe de Saúde da Família (ESF).

Na capital, são cerca de 3 mil pacientes para cada uma, composta de oito a dez servidores, dentre eles apenas um médico.

"Precisamos reduzir para gerar um atendimento mais qualificado e ágil", diz. Segundo a gerente, o quadro tem melhorado ao longo dos anos. De 2009 para 2015, informa, o número de centros de saúde na cidade foi ampliado em 42 unidades. Já a quantidade de ESFs passou de 513 em 2008 para 587 em 2014, num acréscimo de 74.

Qualificação

Para a superintendente de Atenção Primária a Saúde, da Secretaria de Estado de Saúde (SES), Maria Tourci, além do elevado volume de usuários, há o problema da qualidade da assistência. "Ainda não temos no país a atenção básica desempenhando o papel que precisa. Ela ainda não tem a resolutividade necessária para dar conta de todas as demandas que aparecem". E qualificar, segundo ela, passa também pela formação do profissional médico.

De acordo com Maria, a política pública de saúde da família expandiu mais rapidamente que a capacidade de formação. "Hoje há mais vagas disponíveis do que pessoas para trabalhar. Faltam profissionais formados em medicina da família. Nosso modelo ainda é voltado para formação de especialistas. Para se ter uma ideia, no Canadá, país referência em assistência à saúde, metade dos médicos são de família", compara.

"Temos clareza da necessidade da qualificação, até mais que a redução do volume de pacientes para cada equipe", conclui.

Médico atende comunidade no São Bernardo há oito anos: ‘construímos um vínculo’

Todas as quintas-feiras, o médico de família Fabiano Gonçalves Guimarães cumpre uma rotina diferente. De maleta na mão, ele segue pela comunidade do bairro São Bernardo, na Regional Norte, para atender pacientes com mobilidade reduzida, cadastrados no posto local. Para ele, sair do consultório e caminhar, sob sol ou chuva, não é sacrifício.

Acompanhamos o profissional em um dia de visitas. Pelas ruas, ele é cumprimentado por moradores. "Há oito anos eu atuo nessa comunidade, construímos um vínculo", orgulha-se.

Paciência

Pela manhã, a primeira parada foi na casa de dona Augusta de Almeida, de 83 anos. Um tombo sofrido em casa e a consequente fratura das duas pernas a impedem de sair da cama há dois anos. A visita do médico foi solicitada pelo filho dela, o aposentado Anísio das Graças Filho, de 66 anos. "Ela está com dificuldade para engolir, doutor", explica.

Calmamente, o médico conversa com a senhora, que já apresenta confusão mental, mas nitidamente se sente mais acolhida com a presença do profissional. Para avaliar a situação, Guimarães solicita um copo de leite para a paciente. Ela consegue ingerir normalmente. Às vezes, um pouco de atenção e paciência são bons remédios.

"Dona Augusta está muito bem cuidada. Ela não está engasgando, não apresenta nenhum sinal de problemas de deglutição. Precisa mesmo é de atenção na hora de se alimentar. E se observarem algo de diferente, é só avisarem lá no posto", tranquiliza o médico.

Apesar de relatar dificuldades para conseguir certos tratamentos para mãe no SUS, como fisioterapia quando ela necessitou, o filho de Augusta se mostra agradecido com o trabalho prestado pelos profissionais do posto. "Os agentes de saúde dão muita assistência, e o doutor faz visitas frequentes", diz o aposentado.

A espera

O médico se despede e parte para mais um atendimento. Ele segue para a casa da aposentada Clarice Neves Ribeiro, de 83 anos. Ela sofre de doença pulmonar obstrutiva crônica e, por isso, precisa da ajuda de uma máquina de oxigênio para respirar. O equipamento é cedido pelo SUS, e o custo com a energia é descontado da conta de luz.

A paciente já espera na porta, mas sem o respirador. "Oi, Clarice, cadê o aparelho?", questiona o médico, demonstrando preocupação. Eles conversam um pouco. O trabalho de Fabiano Guimarães agora é convencer a idosa a usar o aparelho.

"Ela tem medo de ficar dependente, mas a verdade é que ela já está, não pode ficar sem, se não tende a piorar", explica para a filha da aposentada, Maria dos Anjos Neves Caldeira, de 62 anos, que vive com a mãe. Maria também está satisfeita com o serviço prestado pelo posto. "Tudo que precisamos até agora, conseguimos", conta.

Mas tem suas queixas, principalmente quando requer atendimento especializado para a mãe. "É muita demora para conseguir consultas e os exames", reclama.

Descompasso

A atenção secundária é mesmo um gargalo. Guimarães acredita que o problema tem origem na dificuldade do governo em contratar e manter os profissionais, mas também num "descompasso" gerado por uma atenção primária que demanda mais especialistas que o necessário.

Para o médico, a carência de profissionais com formação em medicina geral de família e comunidade acaba tornando a assistência básica menos qualificada, altamente demandante de profissionais especialistas. O impacto desse descompasso é sentido em cascata, em toda a rede, sobrecarregando os serviços de urgência e a atenção especializada.

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