Em tempos de crescimento das tentativas de suicídio entre adolescentes, lidar com o bullying é um desafio ainda maior para educadores. Mesmo depois de um ano da sanção da lei que combate prática vexatória, os apelidos, ofensas, ameaças, intimidações e assédios que configuram o crime continuam presentes no cotidiano dos jovens brasileiros. Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2015 revelam que um a cada dez alunos é alvo frequente das brincadeiras de mau gosto nas escolas brasileiras.

“Um ponto importante é que aquele que comete o bullying muito provavelmente está identificado com esse lugar do humilhado. O temor de ser visto como inferior é tamanho que ele precisa se defender atacando” (Elisa de Santa Cecília Massa, psicanalista)

O assunto ganha força com o sucesso da série 13 Reasons Why (13 Porquês), da Netflix, que retrata o sofrimento de uma adolescente. Por ser alvo constante de bullying e não encontrar apoio, a menina de 17 anos decidiu se matar. Em Belo Horizonte, jovens relatam situações de humilhação sofrida por colegas sem nenhuma intervenção da instituição de ensino.

Testemunha do bullying em uma escola particular da capital, L., de 15 anos, aluna do 1° ano do ensino médio, se revoltou e não aceitou assistir de braços cruzados o ataque feito a uma colega. Ela conta que o problema começou com uma fofoca. Primeiro, disseram que a garota estava apaixonada por um rapaz popular. Depois, veio uma brincadeira de mau gosto com o lanche dela.

“Você é sempre julgado se não estiver se encaixando dentro do padrão físico imposto pela sociedade. Isso é um exemplo de bullying” (Aluna de 17 anos, rede particular)

“Procurar a vítima para saber se ela está bem já é uma forma de ajudá-la, talvez até mais do que enfrentar o agressor”, acredita L., que ainda critica a falta de atitude da escola em situações como essa. “Fizeram palestras no início do ano mostrando o que é o bullying, que é crime e o que pode acontecer com quem o pratica. Mas na hora que ele se torna real, a escola não toma uma atitude, parece que não sabe o que fazer”.

Para a jovem que foi alvo das injúrias no ambiente escolar, a sensação de descobrir os comentários pejorativos é desoladora. Ela conta que não sabia o motivo das risadas e olhares maldosos até o momento em que foi abordada por duas colegas que explicaram o que estava acontecendo. 

“Bullying parte mais dos meninos do que das meninas, e é mais sobre o corpo. Os meninos tiram sarro porque é magra, porque é gorda, se tem peito, se não tem, se tem bunda. A menina pode ser linda, mas eles vão zoar” (Aluna de 13 anos, rede pública)

“Eu me senti muito mal, é uma sensação de solidão. Aconteceu na escola, quando começaram a espalhar boatos sobre mim. Todos olhavam rindo de mim e eu não sabia o motivo. Conversei com minhas amigas e minha mãe, e elas me ajudaram a resolver. A melhor coisa para quem sofre é falar, denunciar se for mais grave. Bullying é um crime e todos devem se unir contra quem pratica. Isso só traz problemas para ambos os lados. Se você omite, você participa, dando apoio aos opressores”, relembra. 

Sem confronto com o agressor, mas nada de braços cruzados

Especialistas aconselham ao estudante tomar alguma atitude diante de casos de bullying. Enfrentar o autor da agressão, no entanto, nem sempre é a melhor opção. Ao se encontrar nessas situação, o aluno deve chamar algum responsável no ambiente escolar, como um professor, na tentativa de resolver o impasse, afirma a psicanalista Elisa de Santa Cecília Massa.

“As pessoas praticam bullying e nem percebem. Falam ‘sua gordinha’ muito naturalmente, como se não fosse ferir o outro” (Aluna de 13 anos, rede particular)

Ela explica que o bullying é uma tentativa de humilhação. Quem ousa sair em defesa da pessoa que é atacada, corre o risco de se tornar mais um alvo das ofensas, desencorajando grande parte dos jovens a tomar partido na situação.

“Um ponto importante é que aquele que comete o bullying muito provavelmente está identificado com esse lugar do humilhado. O temor de ser visto como inferior é tamanho que ele precisa se defender atacando”, avalia Elisa.

Já a psicóloga Renata Alves Paes destaca que a dificuldade dos jovens em lidar com o bullying, podendo chegar ao suicídio, está ligada, também, a fatores biológicos.

“Eu já fui alvo de bullying, mas também já pratiquei muito. De qualquer jeito, acho que é errado demais. Se a pessoa for muito humilhada, durante muito tempo, acredito que ela pode ficar com marcas que não vão se apagar jamais e vão prejudicar a vida dela até profissionalmente. É muito sério isso” (Aluno de 17 anos, rede pública)

Segundo ela, nessa fase da vida o cérebro do adolescente ainda está terminando de desenvolver áreas associadas ao controle de impulsão, planejamento, execução e regulação emocional.

“Assim, o jovem vive uma gangorra de emoções. Tudo que sente tem uma dimensão e colorido diferentes do adulto maduro. Como a escola é o lugar que esse adolescente mais fica, é bem provável que muitos dos conflitos ocorram ou sejam originados neste ambiente”.

“O bullying é muito comum dentro e fora da escola. Às vezes, os meninos começam a ‘zoar’ e quando percebo, estou participando daquilo. É inconsciente, sabe?” (Aluno de 15 anos, rede pública)

Ações

Para promover e defender os direitos dos estudantes, a Secretaria de Estado de Educação (SEE) disse que está implementando o Programa de Convivência Democrática nas Escolas. A iniciativa pretende registrar situações de violência, com a coleta de dados em um sistema informatizado.

Já a Secretaria de Educação de Belo Horizonte reforçou que, por meio do Programa Rede pela Paz e pautada no Plano Municipal de Segurança Escolar, lançado em 2014, tem realizado um trabalho permanente dentro das unidades de ensino. As escolas implantam rotinas de combate a qualquer tipo de violência que vão desde uma discussão das relações à criação de um canal de ouvidoria jovem.

“Eu acho que só dá para considerar uma brincadeira se os dois lados estiverem gostando. Se um dos lados estiver se sentindo ofendido, isso já não é mais uma brincadeira. É bullying” (Aluno de 15 anos, rede pública)

Discussão ganhou força após exibição de série 

Baseada em um livro lançado em 2007, a série “13 Reasons Why” (13 Porquês, em tradução livre) é exibida atualmente pelo serviço de assinatura Netflix. A adaptação trata do bullying e do suicídio em um colégio dos Estados Unidos. O seriado conta a história uma estudante de 17 anos que se mata após várias humilhações provocadas por colegas dentro e fora da escola.

Um outro aluno, colega da protagonista, recebe em casa uma caixa com fitas cassete gravadas pela jovem que se suicidou. No material, a menina narra o comportamento de 13 pessoas que teriam influenciado na decisão dela de tirar a própria vida

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