A fala lenta e pausada não esconde a ansiedade nem a preocupação da cerimonialista Carolina Pimentel, de 38 anos. Diagnosticada com febre amarela, ela recebeu alta há cerca de 20 dias, mas ainda enfrenta dificuldades. A moradora de Nova Lima, na Grande BH, perdeu dez quilos, reclama de cansaço e sente fortes dores de cabeça.

Para quem vê de longe, a luta contra a doença parece assustadora, e é. Até o momento, pelo menos 108 pessoas já perderam a vida e 23 óbitos estão em investigação. Do mal-estar, febre, enjoo e falta de apetite até a volta para casa, a espera é longa e sempre acompanhada do medo da morte, relatam os pacientes que venceram a enfermidade. 

A maioria conviveu de perto com doentes que não resistiram às complicações. Também morador de Nova Lima, cidade que já teve 27 casos de febre amarela e oito mortes, Vander Januário, de 51 anos, conta que nasceu de novo. Assim como Carolina Pimentel, o gestor de recursos humanos esteve em Rio Acima dias antes de sentir os primeiros sintomas. Até a ida ao hospital, foram 24 horas suportando as dores em casa.

“Os médicos me disseram que era só esperar o corpo reagir", Carolina Pimentel

Carolina Pimentel

Ele ainda ficou um dia internado em uma unidade de saúde de Nova Lima antes de ser transferido para o hospital Eduardo de Menezes, no Barreiro, em BH, que é referência no tratamento da doença. Lá, o quadro já estava avançado. “Praticamente abriram a cova e mandaram eu pular. Mas não aceitei”, disse.

Durante os 18 dias de internação, Vander viu histórias de pessoas que chegaram ao hospital, segundo ele, não tão graves, mas que mesmo assim perderam a vida. Para o paciente, a convicção de que iria se recuperar e o apoio recebido pela família e amigos foram fundamentais.

Na expectativa

Quem também buscou atendimento na capital já em estado grave foi o caminhoneiro José Benício de Carvalho, de 48 anos. Dos 13 dias de internação, três foram na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Morador de Mariana, na região Central, ele teve alta há dez dias. Afastado do trabalho, o condutor espera receber uma boa notícia na consulta de retorno agendada para hoje. “Não sinto dor. Às vezes, fico um pouco cansado, mas deito e estou melhor. Então, quero voltar a dirigir logo se a médica deixar”, afirma. 

Receber alta e voltar para casa também é um novo desafio. O retorno à rotina pode demorar. “Eu costumava caminhar, mas tive que parar. Também não conseguia carregar peso, porque cansa muito e sentia tonturas”, recorda Paulo Cecilio Bicalho, de 52 anos, que é vereador de Caeté, na região metropolitana. Além dos cuidados com a alimentação, ele diz que o acompanhamento em um hospital de Belo Horizonte será mensal até setembro deste ano.

Conforme o presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Estevão Urbano Silva, muitas pessoas se recuperam bem após contrair a febre amarela, mas algumas podem ficar meses sentindo cansaço, falta de apetite e dificuldades para realizar atividades físicas. “Não é nada que demande tratamento específico. A doença não volta. O paciente deve se hidratar e tomar cuidado com a dieta, evitando alimentos gordurosos e bebidas alcoólicas”.

“Falam que homem não corre de revólver nem de faca, mas morre de medo de agulha”
Vander Januário

Diagnóstico precoce ajuda a diminuir letalidade da doença

O grupo de mineiros que venceu a febre amarela está cada vez maior. No início deste ano, contrair a doença era sinônimo de sentença de morte, já que a letalidade ultrapassava os 85%. Agora, no entanto, o índice está em 33%, segundo o último boletim divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde (SES).

Diagnóstico precoce, maior atenção dos profissionais de saúde e tratamento mais ágil ajudaram a diminuir os óbitos, afirma a infectologista Sílvia Hees, que trabalha no hospital Eduardo de Menezes. Após a alta, o mais importante é manter uma hidratação rigorosa e fazer um acompanhamento médico. “É importante destacar que a recomendação é internar todos os casos suspeitos”, reforça.

Maioria dos pacientes conviveu de perto com pessoas que não resistiram às complicações da doença

Alternativa

A inserção de novas terapias também pode ter contribuído. A cerimonialista Carolina Pimentel foi uma das pacientes que fez uso do Sofosbuvir, medicamento usado no tratamento para hepatite C, que surgiu como uma alternativa para os casos mais graves de febre amarela. No entanto, os médicos que têm prescrito o remédio explicam que resultados mais esclarecedores sobre a eficácia demandam tempo e estudo.

Maior atenção dos profissionais de saúde e tratamento mais ágil também ajudaram a diminuir os óbitos, destaca infectologista do hospital Eduardo de Menezes

A principal arma contra a febre amarela, garantem os especialistas, é a vacina. De acordo com a SES, atualmente a cobertura vacinal em Minas está em 90%. A meta é atingir 95% de imunização. Para isso, a Secretaria afirma que ações de intensificação da proteção estão sendo realizadas nos municípios mineiros.

Além Disso

Além da prescrição do Sofosbuvir, o transplante de fígado foi realizado em seis pacientes de febre amarela em Minas. Duas pessoas sobreviveram. No entanto, informações sobre o estado de saúde não são divulgadas pelos hospitais.

O mesmo procedimento tem sido adotado no Rio de Janeiro e São Paulo na tentativa de salvar as vítimas mais graves. Em Belo Horizonte, além do Felício Rocho, a Santa Casa foi credenciada pelo Ministério da Saúde para realizar o transplante.

Por meio de nota, o MG Transplantes explicou que somente pacientes em estado gravíssimo podem ser submetidos à cirurgia. Todos os procedimentos são realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e acompanhados pelo Sistema Nacional de Transplantes. A fila de espera é única para todo o Brasil.

Balanço febre amarela 12/03/2018

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