Quadrilhas que tocaram o terror no interior de Minas, com explosões cinematográficas de caixas eletrônicos nos últimos dois anos, começam a mudar a estratégia de ataque. Agora, o “novo cangaço” mira no sequestro de bancários e familiares deles para chegar aos cofres das instituições financeiras. 

O retorno do crime do “sapatinho”, comum no início da década de 2000, chega com um nível de profissionalização ainda maior e já desperta a atenção das forças de segurança, além de impor uma rotina de medo entre os funcionários dos bancos.

“Nos últimos dois meses, os criminosos estão voltando a praticar esses sequestros que foram muito usados no passado. Mas, agora, eles incrementaram a ação, amarrando bombas no corpo da vítima”, afirma Felipe Freitas, delegado do Departamento de Operações Especiais (Deoesp), à frente da Polícia Civil na força-tarefa criada no Estado para combater os ataques.

Neste ano já aconteceram quatro casos em Minas. O primeiro foi em 11 de janeiro, em São Gonçalo do Pará, na mesma região. Dias depois, o mesmo método foi usado em Nova Serrana, também no Centro-Oeste. Em março, foram dois casos seguidos: um em Esmeraldas, na Grande BH, e o último em Paineiras, na Central.

Terror

No último sequestro, os bandidos mantiveram a família de uma gerente do banco Sicoob Credioeste, de 34 anos, em cativeiro por 24 horas. Dentre os cinco sequestrados estavam o filho dela, de apenas 2 anos. Um dos criminosos dormiu na casa da bancária com a vítima enquanto os comparsas levaram os parentes para Pedro Leopoldo, na região metropolitana. 

Segundo a Polícia Militar, assim que o dia amanheceu, ela foi forçada a ir até a agência com bombas amarradas no corpo para pegar o dinheiro. Logo após a entrega da quantia, a família foi liberada na zona rural de Confins, na Grande BH. Ninguém se feriu.

A vítima ainda vai ser ouvida pela Polícia Civil. Mas, no boletim de ocorrência, ela teria dito que os criminosos afirmaram ser de um bando especializado em explosão de caixas eletrônicos. A mudança de estratégia seria uma forma de reduzir a exposição, após as mortes e prisões de ladrões.

Motivação

Para o delegado Freitas, o que motivou o retorno do crime do sapatinho foi o cerco aos ataques a caixas eletrônicos. A força-tarefa envolvendo as polícias Civil e Militar, Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) e representantes dos bancos tem buscado alternativas para inibir as ações. 

“Vários deles foram presos, alguns morreram em confronto. Está cada vez mais difícil para eles. Sem contar que sai mais barato o sapatinho porque os bandidos não precisam de armamento pesado e tantas pessoas como nas explosões”, explica.

Para o especialista em segurança pública da PUCMinas, Luís Flávio Sapori, o fato de o sapatinho ter ficado no passado pode ter feito com que bancos e gerentes tenham “baixado a guarda”, abrindo espaço para o retorno.

Além Disso

Ao mesmo tempo em que o sequestro de bancários ganha força no Estado, o número de explosões a caixas eletrônicos cai. De janeiro a novembro de 2017, foram 157 roubos a bancos, segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp). No mesmo período de 2016, foram 174, o que mostra queda de 9,7%. 

Já o “sapatinho” já tira o sono dos funcionários de bancos. “Todos os dias chegam até nós casos de sequestros e ameaças. Muitos já estão desistindo de trabalhar no ramo”, afirma o presidente da Federação em Estabelecimentos Bancários de Minas Gerais, Alfredo Brandão. 

A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) disse, em nota, que “tem empenhado esforços no enfrentamento desse tipo de crime” e que confia nas forças de segurança pública para investigar as ocorrências.

Quanto ao caso em Paineiras, em nota, o Sicoob afirma que “esse caso é um dos muitos vivenciados em nosso país, em que o problema é segurança pública. A cooperativa, assim como outras instituições similares, possui todos os mecanismos de segurança necessários, além de ter uma equipe altamente qualificada para esse trabalho”.