São 12h45. A estudante Beatriz Crespo, de 21 anos, moradora do bairro Sion, na região Centro-Sul, se prepara para mais uma jornada de trabalho. Ela vai até o serviço, na Savassi, de bicicleta, um trajeto de quase sete quilômetros, contando ida e volta. A rotina começou há dez meses e a coloca como parte de um seleto grupo: hoje, apenas 8% dos ciclistas de BH são mulheres.

Os dados são do relatório “Contagem de ciclistas 2017”, divulgado pela Associação BH em Ciclo. A pesquisa mostrou que só 259 mulheres foram vistas pedalando, em agosto deste ano, nos dez pontos monitorados pela associação.

Motivos
“Imaginamos que as mulheres usam a bike só para pequenos deslocamentos”, diz Carlos Edward, da BH em Ciclo, responsável pelo estudo. No entanto, segundo as ciclistas, outro fator que contribui para a limitada participação feminina é insegurança.

Muitas alegam ter medo de andar sozinhas, principalmente após as 18h. Elas reclamam que à noite a iluminação é precária em vários pontos. Um outro estudo em andamento, chamado “Descobrindo como BH pedala”, da mesma associação, deve revelar mais detalhes dos problemas enfrentados por quem opta pela bike para se deslocar na capital.

Vantagens
Beatriz Crespo já chegou à conclusão que deslocar-se sobre duas rodas é mais econômico, rápido e prazeroso. “Eu tinha uma bicicleta em casa, mas não usava. Comecei a me irritar com os horários de ônibus que nunca me atendiam quando precisava. Então, resolvi começar a ir ao trabalho de bike”, conta.

Em outro ponto da cidade, o pedal é também o meio de transporte escolhido pela biomédica Karina Teixeira, de 22 anos. Moradora do bairro Santa Inês, na região Leste, ela sai de casa por volta das 10h para percorrer quase 20 quilômetros – ida e volta. O destino é o bairro Anchieta, Centro-Sul, onde ela trabalha. 

Metade do caminho é possível fazer em ciclovias. No restante, é preciso dividir espaço com carros, ônibus, motos e pedestres. Durante o percurso, ela também enfrenta a insegurança. “Tenho o costume de passar pela avenida dos Andradas. Para voltar, mudo a rota. À noite, ali fica extremamente perigoso. Já tentaram em assaltar e ouvi relatos de estupros na região”, diz ela, que também reclama da escuridão em alguns trechos.

Além disso

Na tentativa de tornar os trajetos de bike mais seguros, foi criado há um ano o grupo “Bicimanas”. Nele, mulheres trocam mensagens pelas redes sociais, informam os trajetos em tempo real e combinam de pedalar juntas. Atualmente, há cerca de 500 usuárias. “Eu pedalava sozinha. Foi legal ir me juntando às meninas. Sempre que estou insegura, mando uma mensagem e acabo encontrando alguém para fazer o mesmo caminho”, conta Karina Teixeira. “Ajudamos umas às outras a superar o medo de circular pelas ruas”, acrescenta Beatriz Crespo.

Patrulhamento é feito, garante PM

A Polícia Militar garante que faz rondas frequentes nos pontos citados pela reportagem e que sempre orienta os ciclistas com dicas de segurança que contribuem para prevenir delitos. A corporação informou que monitora os registros e pede que as pessoas registrem boletins de ocorrência. Já a BHTrans informou que não existe nenhum tipo de ação específica para mulheres. 

O órgão alega que trabalha para incentivar o uso da bike, sem distinção de gênero, e na conscientização da busca pela harmonia no trânsito. Sobre a iluminação nas vias, a concessionária BHIP destaca que as ciclovias serão atendidas pelo mesmo sistema já instalado nas ruas e avenidas. Segundo a empresa, a modernização da iluminação pública na capital será iniciada em 23 de outubro.

Arte ciclismo

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