Os casos de sarampo registrados no Brasil e a ameaça do retorno da poliomielite lançam alerta para a necessidade de proteção contra as doenças. Porém, a cobertura vacinal está abaixo do preconizado. Segundo a presidente da Sociedade Brasileira de Imunização (SBim) – Regional Minas Gerais, Marilene Lucinda Silva, para que o quadro seja revertido é necessária uma ampla conscientização das pessoas. Especialista na área há dez anos, ela ocupa o cargo na entidade desde maio de 2018. Nesta entrevista, a profissional destaca o atual calendário de vacinação no país e comenta os desafios a serem enfrentados.

Na campanha de vacinação contra a gripe, mesmo com duas prorrogações, o número de crianças e gestantes imunizadas ficou abaixo da meta. Como a senhora avalia esse cenário?

São grupos prioritários e já deveriam ter se conscientizado da importância da proteção. Percebemos que, quando há muitos relatos da doença, a procura pela vacina é maior. Neste ano não foram muitas ocorrências de gripe na região Sudeste, o que também levou à baixa adesão. As pessoas só procuram a vacina quando alguém próximo fica doente. O alerta que fazemos é se proteger com antecedência, antes do inverno e de registros de casos, e não somente para se tratar.

“A vacina só pode ser suspensa quando a enfermidade é erradicada no mundo” 

Que outros motivos levam as pessoas a não se protegerem?

Durante os surtos, há bastante procura por vacinas, o que gera filas enormes nos postos de saúde. Acredito que isso afasta as pessoas. Cria-se uma imagem de que a busca pelo serviço é sempre muito complicada, demorada, o que não é verdade. O maior problema é o público prioritário ficar descoberto, pois não se imunizar pode acarretar complicações graves e até levar à morte. As gestantes, por exemplo, devem tomar as doses tanto por conta da fragilidade do sistema imunológico quanto pelo risco de se perder o bebê. No caso das crianças, elas precisam ser vacinadas para começar a estimular a proteção do corpo. Porém, elas dependem dos pais para serem imunizadas.

Além da atenção dos pais, alguma outra medida facilitaria a cobertura das crianças?

Existe um movimento muito grande de tentar levar a vacinação para dentro das escolas. Mas a aplicação das doses também depende de autorização dos pais. Foi uma experiência de sucesso a imunização contra o HPV (doença sexualmente transmissível que pode causar cânceres de colo de útero, garganta ou ânus) nas instituições de ensino. Também esperamos que haja adesão agora com a pólio (campanha de vacinação começa em 6 de agosto), pois assim atingiremos um público maior.

Atualmente, Minas Gerais é o quinto estado com a pior cobertura vacinal contra a poliomielite. A que a senhora credita esse quadro?

A baixa adesão se deve ao fato de não haver casos da doença no Brasil. A população parou de presenciar pessoas com paralisia e as sequelas deixadas. ‘Se ela não existe, por que preciso ficar me vacinar’ É o que as pessoas pensam. Mas, na verdade, a vacina só pode ser suspensa quando a enfermidade é erradicada no mundo, e esse não é o caso.

O mesmo vale para o sarampo?

Sim, e o sarampo é mais grave, podendo matar a pessoa muito rápido. A vacinação é a maneira mais efetiva de se evitar complicações. A questão atual é que, com a facilidade de circulação das pessoas, temos chance de ter contato com moradores de países onde há casos registrados. Assim, as enfermidades são reintroduzidas aqui, já que o vírus é facilmente transmitido. A indicação para quem não se vacinou ou perdeu o cartão de controle é se proteger.

E com relação à febre amarela, qual a preocupação?

Diferente da gripe, que registra muitos casos principalmente durante o inverno, a febre amarela não tem época certa para a ocorrência de surto. No entanto, devemos ficar atentos porque não é possível erradicar o vírus silvestre. Felizmente, com a cobertura desse ano, diminuímos a chance de disseminação. Dessa forma, não devem ocorrer aumento de casos. É importante lembrar que esta vacina está sempre disponível nos postos de saúde.

A imunização de crianças está mais consolidada no país. Por outro lado, a de adultos deixa a desejar. Por que há essa discrepância?

Os pais, principalmente de recém-nascidos, se preocupam mais em proteger a criança. Depois, quando a necessidade das doses fica mais espaçada, é preciso até lembrá-los do calendário vacinal. No caso dos adultos, muitos alegam a falta de tempo para ir ao posto de saúde com a ideia de que o atendimento por lá será demorado. Além disso, eles acreditam que certas doenças não irão atingi-los. É uma posição individualista, não podemos pensar só na nossa proteção. Devemos ter consciência de que também somos transmissores de doenças para os grupos de risco.

“É uma posição individualista, não podemos pensar só na nossa proteção. Devemos ter consciência de que também somos transmissores de doenças para os grupos de risco"

Problemas também são enfrentados quando se trata da imunização de adolescentes?

Os adolescentes acham que nada vai acontecer com eles e são influenciados pelos amigos. Dizem que a vacina dói ou causa reação, como foi com a do HPV.

Há diferença nas condutas adotadas por homens e mulheres?

O comportamento é diferente. Não só com relação à vacinação. As mulheres se preocupam mais, vão o ginecologista pelo menos uma vez por ano, têm mais controle, enquanto os homens só procuram o médico quando apresentam algum problema.

No caso do HPV, qual o maior desafio a ser enfrentado?

Um deles é o tabu. Muitos pais não conversam sobre sexualidade com os filhos e, ao falar sobre a vacina, sentem que estarão liberando a vida sexual deles, mas não existe essa relação. É preciso entender que é melhor receber a dose contra o HPV o mais cedo possível, por volta dos 10 anos, para se ter uma melhor eficácia da proteção.

Qual a avaliação da senhora sobre os grupos contrários à vacinação? Como enfrentar os boatos que viralizam na internet?

Felizmente, é um grupo pequeno que defende a não imunização, agindo principalmente nas redes sociais e disseminando boatos que são facilmente desmentidos a partir da informação correta. Sem dúvida, o nosso maior problema hoje são as notícias falsas, e até mesmo as bem antigas que voltam a circular. A estratégia adotada tanto pela SBim quanto pelo Ministério da Saúde é a de mostrar os mitos e verdades sobre doenças e vacinas, inclusive com a divulgação em massa de informes.

É necessário incluir vacinas no calendário nacional de imunização?

O programa brasileiro é um dos melhores do mundo. Há avanços com o aumento dos grupos prioritários. Atualmente, acredito que o alcance é eficaz quando se pensa, por exemplo, em saúde coletiva e na prevenção de doenças que causam surtos. Falta de estoque, por exemplo, é algo bem pontual. A cobertura vacinal só não é maior porque as pessoas não procuram.

Quais as principais diferenças entre os serviços público e privado no que diz respeito à oferta de vacinas?

Nas clínicas particulares, além das doses que também são ofertadas no SUS (Sistema Único de Saúde), há algumas vacinas mais modernas e que, apesar de estarem no calendário, não são gratuitas. Esse é um problema do serviço público, o de não oferecer doses como a da meningite, quadrivalente (protege contra quatro vírus da gripe) e pneumo-cócica. Difteria, tétano e coqueluche, por exemplo, também são gratuitas no SUS, mas apenas para gestantes. Porém, elas deveriam ser para todas as pessoas. É necessário reforçar que qualquer um pode transmitir essas doenças tão perigosas para as crianças.

Existe alguma sinalização de incluir essas doses na rede pública? A produção brasileira daria conta da demanda?

A produção hoje para o sistema público é suficiente. A importação é necessária em poucos casos. Quando uma nova vacina é introduzida no calendário, é feito um acordo para transferência de tecnologia. Anos depois, após o suporte da empresa internacional, as doses já começam a ser produzidas em território nacional. Mas, incluir outras vacinas na rede pública, ou trocar as que já existem por outras mais modernas, seria muito caro. O que temos hoje atende à população muito bem.