Na tentativa de burlar as ferramentas de busca na internet, remédios controlados são oferecidos em sites de compra e venda sem a exigência da receita. É possível encontrar medicamentos tarja preta para tratar Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e narcolepsia, doença que causa sono incontrolável.

Geralmente, o anúncio traz o nome comercial das substâncias, como ritalina (metilfenidato) e stavigile (modafinila), associado a termos de produtos que têm a venda autorizada nas plataformas digitais, como livros, CDs, impressoras e acessórios para celulares.

Na edição de ontem, o Hoje em Dia mostrou que um medicamento para narcolepsia está sendo oferecido como “pílula da inteligência”, prometendo aumentar a memória e a concentração. A procura crescente pela droga preocupa especialistas da área da saúde.

Trapaça

A maioria das transações ilegais, que pode ser enquadrada como tráfico de drogas, conforme a Polícia Civil, é feita por meio do Mercado Livre. No site, outra artimanha utilizada pelos usuários é a troca de uma das letras da identificação dos medicamentos.

Uma busca pela palavra “ritalina” traz como retorno produtos cadastrados como “livro”, “capinha de celular” ou “película de vidro”. Os resultados, no entanto, nada mais são do que caixas do remédio, explicitadas nas fotografias dos anúncios. Na descrição, os próprios vendedores deixam claro a oferta. “30 cp (cápsulas) de 10 mg (miligramas)”, informa um comerciante de Minas Gerais.

O medicamento, que geralmente é vendido em farmácias por cerca de R$ 40, custa entre R$ 115 e R$ 145 na internet. Além da ritalina, um perfil cadastrado, com a localização de Uberlândia, no Triângulo, anuncia a comercialização de outros remédios. No link, o usuário escreve: “venda somente no whats! Grupo com referências”.

Compra, venda e debates

Sem se identificar, a equipe de reportagem entrou em contato com o vendedor, que tinha um telefone com DDD de Juiz de Fora, na Zona da Mata. 
O rapaz afirmou que o medicamento era original e seguro, e seria entregue em um dia útil, mediante pagamento de R$ 135. Ele ainda ofereceu a opção de compra por boleto ou cartão de crédito.

O homem adicionou o contato da reportagem em um grupo. Dentre os 175 participantes, de todas as regiões do Brasil, há pelo menos 30 perfis de Minas Gerais. Nas mensagens, fotografias das caixas de ritalina e satisfação.

“Lacrada! Melhor vendedor dessa net, chegou agora”, disse um usuário. “A ‘Rita’ demorou, mas chegou!”, afirmou outro.

Uso indiscriminado de remédio pode trazer risco à saúde

O uso de substâncias controladas sem prescrição médica e a venda pela web são atitudes reprovadas por médicos e autoridades. “A pessoa não sabe a origem desses produtos. Eles podem ser falsificados ou conter contaminantes”, alerta o psiquiatra Almir Tavares, professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que remédios controlados só podem ser vendidos por “estabelecimentos farmacêuticos devidamente regularizados e mediante retenção de receita”. As drogarias são fiscalizadas por autoridades sanitárias.

Enquadrada como tráfico de drogas, a venda pode render penas de três a 15 anos de prisão. Chefe do Departamento Estadual de Combate ao Narcotráfico da Polícia Civil, Wagner Pinto Souza destaca que a comercialização indiscriminada tem aumentado e é favorecida pelas facilidades que a internet oferece. 

“É mais uma modalidade do narcotráfico que minimiza o contato entre o traficante e o comprador e evita a possibilidade de ser flagrado com a substância”. O delegado disse que a polícia irá investigar os fatos.

O Mercado Livre, site em que os remédios eram comercializados, relata que removeu os anúncios e bloqueou os perfis após receber a denúncia da reportagem. A empresa reforça que repudia essa prática.

Em nota, a Libbs, farmacêutica responsável pelo Stavigile, enfatiza a importância de que a modafinila e outros medicamentos controlados sejam utilizados só com prescrição médica. A empresa ainda ressalta que o uso incorreto do remédio pode trazer danos à saúde.

A Novartis repudiou o uso indevido do cloridrato de metilfenidato (ritalina) e enfatizou que a substância só deve ser utilizada mediante indicação de um médico especializado.

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