Há pouco mais de um ano à frente do comando do Corpo de Bombeiros, o coronel Luiz Henrique Gualberto Moreira assumiu a corporação com a missão de aumentar o efetivo de militares e expandir o atendimento em Minas Gerais. Com 26 anos de experiência na carreira militar, Moreira chefiou o comando operacional dos bombeiros e já exerceu várias funções, dentre elas o comando do Batalhão de Operações Aéreas (BOA) e do Batalhão Especial para a Copa do Mundo. Em entrevista ao Hoje em Dia, o comandante-geral fala dos desafios de chefiar uma unidade conhecida por salvar vidas.

O Corpo de Bombeiros está presente nos 853 municípios de Minas Gerais?

Infelizmente, não. Temos um projeto, a longo prazo, de ter ao menos um pelotão nas cidades com até 100 mil habitantes, ou seja, em mais de cem municípios.

Há projeto de ampliação do quadro de militares?

Lançamos, em julho do ano passado, edital para contratação de soldados e oficiais. Nosso plano prevê um crescimento gradativo até 2026.

Quais são os investimentos previstos para os próximos anos?

Adquirimos novas viaturas neste início de ano. Minha intenção, nesta gestão, é levar uma unidade do Corpo de Bombeiros a pelo menos mais 15 municípios (que se somarão aos 65 atuais).

Qual a importância de a corporação expandir as unidades?

Tempo, para nós, é vida. Quanto mais próximos estivermos da ocorrência, mais fácil e mais rápido iremos salvar as vítimas. Para chegar a algumas cidades do Norte de Minas, por exemplo, temos de percorrer até 300 quilômetros. E quando chegamos, não há muita coisa a ser feita. Casos de queimadas e de afogamentos requerem uma resposta ainda mais rápida.

Esse tipo de problema acontece em cidades grandes?

Em regiões com centros urbanos maiores, o bombeiro se faz presente e oferece atendimento rápido. Lembrando que a corporação possui três aeronaves que nos auxiliam em determinados locais de risco e de forma muito mais rápida, tornando nosso trabalho mais efetivo.

O que podemos destacar a respeito do trabalho dos bombeiros?

O próprio nome da corporação já remete ao fogo. Teoricamente, era para ser nossa função principal, só que hoje mais de 60% da nossa atividade é de atendimento pré-hospitalar, ou seja, resgate. Combate a incêndio ficaria em segundo lugar. Realizamos operações de busca e salvamento e o trabalho de prevenção – o que menos aparece, mesmo sendo o mais efetivo. Onde a prevenção funciona, a gente não tem sinistro. Temos, por exemplo, o papel de analisar e fiscalizar projetos de casas de shows, eventos que reúnem grande público, além de atividades de prevenção em indústrias e comércio, realizando autos de vistoria.

Acidentes como o ocorrido no Canecão Mineiro tornaram a vistoria mais rigorosa no Estado?

O Canecão Mineiro foi o precursor infeliz. Após a tragédia, nossa legislação mudou. Hoje nós temos a lei mais rigorosa, moderna e serve como base para outros Estados. O Rio Grande do Sul agora, infelizmente, após o episódio da boate Kiss, também está revendo a legislação. Esse rigor é que garante a segurança.

Como foi trabalhar no salvamento como no caso de Mariana?

Quando acontece esse tipo de sinistro, em época de chuva, quando há muito soterramento, muitos desabamentos, nossos militares estão preparados para atuar de forma imediata. Geralmente, por meio aéreo ou terrestre. E em Mariana não foi diferente. Nós tivemos um atendimento pós rompimento da barragem, com a passagem de helicóptero com militares dos bombeiros, pilotada pela Polícia Militar, que passaram alertando os povoados abaixo, o que evitou que a tragédia fosse ainda maior. Esses militares estavam a postos para a resposta imediata. Pernoitaram na mata com as vítimas, longe dos rejeitos da barragem.

O que ficou como aprendizado nesse episódio?

Primeiro a tristeza pela perda de vidas e com os danos ambientais. Nós chegamos em Mariana pensando que era uma tragédia com muito mais vítimas. Quando começamos o sobrevoo, a gente imaginou que aquela escola estivesse cheia de alunos, que a comunidade estivesse com várias pessoas soterradas. Mas as coisas acontecem de forma normal e guiadas por Deus. Das 19 pessoas que desapareceram, a gente teve condições de entregar às famílias 17 pessoas, o que, para nós, é uma vitória muito grande. A minha vontade era de conseguir entregar os 19 vivos, mas, infelizmente, não conseguimos.

A corporação enfrentou outros grandes desafios recentemente...

Não foi só Mariana, mas passamos por outras provações, como na Copa das Confederações (em 2013), com a queda de um manifestante do viaduto da avenida Abraão Caran. Foi uma ocorrência de alta complexidade. Nós ainda iremos encontrar desafios maiores e esperamos que nosso conhecimento técnico e científico seja suficiente para dar uma boa resposta e salvar o máximo de pessoas possível.

Há áreas de atuação em que a corporação pode realizar trabalho de prevenção? Quais?

Tudo que remete a dano, seja ao meio ambiente, seja na questão urbana, é preocupante e estaremos atuando de forma preventiva. Na questão de incêndios florestais, temos uma força-tarefa, em conjunto com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Polícia Militar e Polícia Civil. Essa junção tem como finalidade reduzir e combater incêndios florestais. No quesito enchente e inundação, temos um trabalho permanente com as prefeituras e coordenadorias de Defesa Civil para mapear áreas de risco, identificar regiões em que as ocorrências são rotineiras e montar estratégias para minimizar o número de vítimas.

Atualmente, a corporação convive com a precariedade da frota. Como sanar essa questão?

Apesar da crise, nós tivemos, no início do ano, uma melhora na frota. Possuímos uma série de convênios com a Infraero e com a Secretaria Nacional de Segurança Pública. Aliado ao recurso direcionado pelo governo do Estado, conseguimos comprar 163 viaturas. Os equipamentos estão sendo entregues gradativamente até abril. Com isso, nós poderemos dar um enfoque maior principalmente na região metropolitana.

O número de viaturas é suficiente?

Os veículos são suficientes para atender às 65 cidades onde temos unidades operacionais. Nosso grande problema na frota é de combate a incêndio e de resgate. São carros que rodam 24 horas por dia e que precisam de manutenção, já que estragam facilmente.