Há 72 anos, os Estados Unidos lançaram duas bombas atômicas sobre o Japão, obrigando o país asiático a se render, colocando um fim sobre a Segunda Guerra Mundial. Mas na mente e no coração dos sobreviventes, a dor permanece de alguma forma. “Sofro até hoje pensando na minha mãe, nos meus irmãos. Muitas vezes, não consigo dormir, pensando nos eventos”, conta Henry Katina, húngaro de 86 anos que se mudou para Belo Horizonte, onde prosperou como empresário.

Pai de cinco filhos, o aposentado hoje faz questão de trafegar por escolas públicas e particulares de Belo Horizonte para contar a história vivenciada no final da Segunda Guerra Mundial e relatada no livro “Passagem para a Liberdade”, publicado pela Geração Editorial.

Primeira parada: Auschwitz

Henry nasceu em uma pequena cidade da Transilvânia que era ocupada por húngaros no século 20. Em abril de 1944, logo após a Alemanha ocupar a Hungria, sua família percebeu que devia fugir, mas não conseguiu. Ao longo de um ano de sofrimento, Henry passou por vários campos de concentração, passou fome extrema e perdeu a maioria dos familiares. Aos 13 anos de idade, viu sua vida mudar completamente pelo simples fato de ser judeu.

Junto com a mãe e os oito irmãos, ele foi levado para Auschwitz, o famoso campo de concentração nazista localizado na Polônia. Lá, só não foi levado para a câmara de gás com outras crianças e adolescentes porque se apresentou como adulto. Quando o vagão do trem em que estava foi aberto, um rapaz vestido com roupas listradas (o uniforme dos judeus) lhe aconselhou a mentir. “Ele me disse: vista uma roupa mais comprida e fale em alemão que tem 18 anos”, lembra o sobrevivente.

Uma irmã de Henry, Magda, só sobreviveu porque entregou seu bebê recém-nascido para a mãe idosa, pois mulheres que carregavam crianças pequenas também não eram poupadas. A mãe de Henry foi para a câmara de gás com o neto recém-nascido e o filho caçula, de 9 anos.

Segunda parada: Ehrlenbusch

Após passar pela seleção na Polônia, Henry foi levado para o campo de concetração alemão de Ehrlenbusch com mais dois irmãos, onde permaneceu por mais de seis meses. “Trabalhávamos das 6h da manhã até 6h da tarde. O trabalho era muito difícil, também porque nos deram pouca comida, para nos exaurir rapidamente”, conta Henry, que aprendeu a racionar a própria ração para driblar a fome constante. “Era pior do que um trabalho escravo, porque não tinha comida suficiente”.

Em fevereiro de 1945, ao perceber que ia perder a guerra, a Alemanha decidiu mover os prisioneiros. Os judeus que estavam em Ehrlenbusch foram colocados em uma exaustiva marcha a pé. As solas de sapato já gastas foram substituídas por tábuas de madeira, para dar conta da travessia. “Eles não queriam que nós caíssemos nas mãos do exército vermelho (soviético). Foi muito terrível a marcha. Quem ficava para trás e não conseguia marchar era fuzilado. E não nos davam comida”, recorda-se.

Terceira parada: Bergen-Belsen

O destino final foi Bergen-Belsen, conhecido como um dos piores campos de concentração da guerra. “Lá não tinha comida, água, higiene, era um inferno infestado por febre tifoide e outras doenças”, lembra Henry, que foi libertado no dia 15 de abril de 1945 pelo exército inglês.

Mas a libertação não significou o fim da dor. Os britânicos chegaram com enlatados e uma comida gordurosa que não fez bem aos corpos dos judeus maltratados por meses com a fome. Quem estava com sistema digestivo atrofiado sofreu com a nova alimentação. “Várias pessoas morreram com a comida gordurosa, inclusive meu irmão mais velho, que era como um pai para mim”.

Henry chegou a ter uma gripe forte logo após a libertação e só não morreu de pneumonia porque um médico inglês soube retirar a água de seus pulmões.

Depois, o jovem então com 14 anos seguiu para fazer um tratamento na Suécia, país que se voluntariou para tratar sobreviventes. Cerca de dois anos depois, Henry se mudou para Toronto, no Canadá, onde permaneceu por cerca de dez anos.

Parada final: Brasil

Em 1957, Henry veio a Belo Horizonte visitar a irmã Raizu (aqui conhecida como Suzana), que havia imigrado para o Brasil. Gostou tanto do país tropical que decidiu ficar. Casou-se, trabalhou como vendedor numa loja de materiais de escritório e logo descobriu um filão para empreender.

“Sonhava em ter a minha independência. Soube que a Usiminas precisava de pastas para arquivos e decidi fabricá-las. Apresentei uma amostra e eles gostaram. Consegui um papelão muito bonito em Santa Catarina e o produto foi aceito em todo o Brasil, assim consegui prosperar”, conta Henry, que começou com um funcionário, mas em tempos áureos chegou a empregar 350 pessoas.

Hoje a Katina & Cia não existe mais, Henry preferiu administrar a aposentadoria.

henry katina

Henry mostra retrato feito nos anos 40 e publicado no livro "Passagem para a Liberdade"