Está prevista para esta semana a conclusão da análise em ossadas de macacos encontradas em Mirabela, Coração de Jesus e Brasília de Minas, no Norte do Estado. A suspeita inicial é a de que os primatas tenham morrido infectados pela febre amarela silvestre, um dos primeiros sinais de que o vírus teria voltado a circular dentro das cidades. O material está na seção de patologia do Instituto Evandro Chagas, no Pará.

 

A febre amarela é uma das doenças consideradas controladas no Brasil, mas que volta a preocupar. Transmitida pelo mosquito Haemagogus na forma silvestre, matou 339 pessoas no país entre 1980 e 2004.

A OMS considera o surto de febre amarela na África Central “sério e que passa muita preocupação”. Mais de 2 mil pessoas foram infectadas e cerca de 300 morreram. Presidente de um comitê de especialistas convocados para avaliar os riscos de uma epidemia mundial, Oyewale Tomori anunciou que não é necessário declarar emergência internacional, mas será preciso “intensificar medidas de controle”

 

“O último caso em Minas foi em 2009, em Ubá (Zona da Mata), mas esse tipo de ocorrência é um alerta. A doença não circula nos centros urbanos como o sarampo e, por isso, não há campanha de vacinação. Em caso de epidemia, seria um caos”, alerta o infectologista Estevão Urbano, presidente da Sociedade Mineira de Infectologia.

 

Preocupação

 

Vírus e bactérias que apavoraram a humanidade e dizimaram milhões de pessoas voltam a causar temor. Em 2014, cientistas da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, identificaram oito genes em diferentes vírus da gripe espanhola isolados em patos selvagens.

 

Publicado na revista científica “Cell Host and Microbe”, o estudo sugere que o vírus responsável pela morte de 50 milhões de pessoas entre 1918 e 1920 pode voltar. Falta de monitoramento de situações de risco, crescimento populacional e o aumento no número de voos internacionais são, segundo Urbano, os fatores que mais contribuem para o aparecimento e desenvolvimento de casos do tipo.

 

A professora de infectologia da UFMG Marise Fonseca concorda. Para ela, a desarticulação entre os sistemas de saúde de cada país favorecem o aparecimento de doenças já controladas ou a mutação dos agentes transmissores.

 

“Países europeus e os Estados Unidos, por exemplo, não têm o costume de seguir um calendário de vacinação. Se chega alguém por lá contaminado com sarampo, por exemplo, a doença vai encontrar uma população inteira sem imunização, pronta para desenvolver e espalhar uma epidemia”.

 

Articulação

 

Para a especialista, é difícil prever o reaparecimento de vírus e bactérias porque em muitos casos não há sequer tratamento conhecido. “No caso do ebola de 2014, era uma doença que atingia só a África. É primordial ter um sistema de saúde bem articulado, capaz de identificar quando um vírus sai do seu país de origem e chega até nosso território, porque pesquisar medicamentos e vacinas leva tempo e demanda muito dinheiro”, explica.

 

Durante o surto, a Organização Mundial de Saúde (OMS) concedeu autorização especial para que vacinas contra o ebola em fase de testes fossem aplicadas na Guiné, Serra Leoa e Libéria, países mais afetados.

 

Investimento

 

Com a crise econômica, o Brasil pode se tornar terreno fértil para epidemias. Na 22ª Conferência Mundial de Promoção da Saúde, em Curitiba, o professor de economia política da Universidade de Oxford (EUA), David Stuckler, relacionou o menor de investimento na saúde pública com a volta de doenças.

 

“Quando são feitos cortes profundos, as adversidades podem se transformar em epidemias”, disse Stuckler. Com o desemprego, destaca, as pessoas perdem os planos de saúde privados e a rede pública precisa estar preparada para o aumento da demanda. “Na crise da Grécia de 2010, os profissionais de saúde ficaram sem material básico, como luvas e álcool. Resultou num surto de aids e de malária”.

 

O Ministério da Saúde informou que monitora áreas de risco de proliferação de febre amarela e faz controle nas fronteiras. Neste ano, foram aplicadas 5,3 milhões de doses da vacina. O público alvo são crianças de 9 meses a 4 anos 11 meses e quem vai viajar para áreas de risco.

 

A Secretaria de Estado de Saúde informou que orienta as unidades regionais a manter a vigilância para o aparecimento de novos casos de doenças. O Ministério da Saúde foi notificado sobre as suspeitas de febre amarela em primatas no Norte de Minas e 800 pessoas foram imunizadas em Mirabela.