A crise financeira que afeta a Maternidade Sofia Feldman, na zona Norte da capital, parece não ter fim. Além da ameaça de fechamento de leitos e até mesmo da Casa da Gestante, que recebe grávidas em risco, agora a direção da unidade de saúde não descarta a greve de funcionários. Ontem, dezenas de mulheres, crianças, enfermeiras e médicos residentes protestaram na Praça da Liberdade, Centro-Sul de BH. Eles exigem mais investimentos para a instituição. Sem outra solução, 40 leitos podem fechar em 30 dias.

Os trabalhadores estão sem receber os salários há quase dois meses. “Não descartamos a possibilidade de paralisação deles. Sem os profissionais e sem recurso, vamos ter que fechar as portas. Queremos apenas garantir o acesso ao SUS (Sistema Único de Saúde), mas sem o aumento no repasse não tem jeito”, afirma Ivo Lopes, diretor técnico administrativo do hospital.

As contas da unidade têm um rombo de mais de R$ 2 milhões. Referência no atendimento a gestantes em risco, a maternidade pode reduzir os serviços. Faltam medicamentos e materiais essenciais para os atendimentos. Inclusive, os funcionários afirmam que já estariam sendo realizados cerca de 200 partos a menos por dia. Os trabalhadores dizem que os atendimentos estão caindo. Vinte leitos de parto e 20 da UTI neonatal correm o risco de fechar.

Muito grave

Trabalhando há 15 anos no hospital, a enfermeira Adelaide Belga, de 59, afirma que nunca viu uma situação como essa. “A rotatividade no Sofia é muito alta, mas os leitos estão sempre ocupados. Esse mês observamos que a taxa de ocupação diminuiu bastante”.

“Estou há 15 anos no Sofia e nunca vi uma crise tão grave. Parece que, silenciosamente, têm nos repassado menos pacientes” (Erika Dittz, terapeuta ocupacional)

Transferências

Segundo a direção do Sofia, a redução não é por fechamento oficial dos leitos, mas por ter caído a quantidade de mulheres transferidas para lá. A realidade fica mais evidente quando se leva em conta a Casa da Gestante. O local, que recebe principalmente mulheres vindas da Grande BH e de outros municípios mineiros, tem atendido só metade da capacidade. Lá, 23 gestantes podem ser acolhidas, porém só dez estão internadas atualmente.

“Além disso, o número de partos também caiu cerca de 30%, de setembro para outubro. A sazonalidade, que é a quantidade de crianças que nascem no período, pode ter influenciado na queda, mas também acredito que menos mulheres estão sendo transferidas para cá”, observou Ivo Lopes.

Repasses

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA) informou ter adiantado R$ 5 milhões para a gestão do hospital. A pasta disse, ainda, manter diálogo com a Secretaria de Estado de Saúde (SES), com o objetivo de buscar soluções para a maternidade. Uma nova reunião entre os órgãos para tratar do assunto acontece na próxima semana. Ainda conforme a SMSA, de janeiro a agosto deste ano foram realizados 5.937 partos no Sofia. Para a unidade são encaminhadas gestantes atendidas nos centros de saúde das regionais Norte e Nordeste, além das que são levadas para a realização de pré-natal de alto risco. 

Já a SES garantiu que, ontem, destinou ao Sofia Feldman cerca de R$ 1,3 milhão. O recurso da Rede Cegonha é referente aos meses de maio a agosto deste ano. A pasta diz que, “na parte que cabe ao Estado, referente ao Pro-Hosp, já foi realizado o pagamento da primeira parcela quadrimestral de 2017”.

O Ministério da Saúde afirmou que, para o hospital, a prefeitura recebe, por ano, R$ 14,5 milhões de Incentivo à Contratualização com o SUS e R$ 12 milhões de incentivos da Rede Cegonha.

Capacidade

Atualmente, o Sofia Feldman tem 185 leitos, sendo 87 obstétricos, 41 em Unidade de Tratamento Intensivo Neonatal (UTI), 45 em Unidade de Cuidados Intermediários Neonatais (UCI) e 12 de outras clínicas. A capacidade de atendimento da maternidade é de mais de 400 mil pessoas por ano. Em Belo Horizonte, existem 14 maternidades, entre públicas e privadas, e sete delas atendem pelo SUS. Na rede pública, a capital mineira conta com 410 leitos neonatais e 144 leitos neonatais de UTI.

“O Sofia Feldman tem compromisso com a mulher, com o SUS. A maternidade é espelho para o país”, afirma Vera Figueiredo, uma das responsáveis pela criação da Rede Cegonha e ex-consultora do Ministério da Saúde. Para ela, as palavras respeito e acolhimento definem a instituição.