O relógio marcava quase 11h20 deste sábado (14) quando a voluntária Maria (nome fictício) chegou para fazer o plantão no Centro de Valorização da Vida, que fica no bairro Nova Suíssa, na Região Oeste de Belo Horizonte. O telefone logo tocou e do outro lado da linha mais uma pessoa em busca de atenção. "Estou aqui há 21 anos. A gente é orientado a escutar, não aconselhamos, ouvimos os problemas das pessoas, que precisam de ajuda", conta a voluntária que pediu para não ter o nome publicado.

O telefone 141 fica quase o tempo todo ocupado e recebe em média cerca de mil ligações todo mês de pessoas que vivem dramas financeiros, sociais ou psicológicos. Para receber as ligações, 26 voluntários se revezam em um plantão de 4 horas no posto de atendimento no Nova Suíssa. Outros 28 atendentes estão em treinamento. "O ideal seria termos, pelo menos, 70 voluntários, para cobrir todos os horários. Atualmente não temos atendente entre 23h e 7h", diz a voluntária e responsável pela seleção de novos atendentes, Norma Moreira. 

Nas últimas três semanas, assuntos referentes ao jogo Baleia Azul começaram a aparecer com mais frequência nas ligações recebidas no CVV, segundo Norma. O jogo também conhecido como Blue Whale viralizou em parte da Europa e na Rússia. No game, os participantes devem seguir uma série de 50 desafios diários, como cortar a própria pele, se fotografar do alto de um prédio e, por fim, tirar a própria vida.

CVVCVV no bairro Nova Suíssa

No Brasil, há pelo menos 13 grupos fechados no Facebook, com mais de 59 mil pessoas. Dois casos de morte de jovens estão sendo investigados pela Polícia Civil. Um deles é o do rapaz de 19 anos que se matou na última quarta-feira (12), em Pará de Minas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O outro é uma menina de 16 anos que se matou na região central de Vila Rica, próximo de Cuiabá, no estado de Mato Grosso. 

Para Norma, no caso do Baleia Azul ninguém quer morrer, a ideia é entrar na competição. Mas se a pessoa já vem em um processo de angústia, solidão, qualquer estímulo é a gota d'agua.  Ela destaca que o assunto - suicídio - precisa ser abordado para que se possa combatê-lo. "A gente não fala e as coisas continuam acontecendo. Não dá para calar. O ideal é todo mundo se mobilizar". 

Como ser um voluntário do CVV

Para se tornar um voluntário, basta se inscrever no site do CVV ou ligar no telefone 141 e deixar o nome com a atendente. O treinamento é feito duas vezes por ano, em março e em agosto.

Antes de começar a receber as liagações, a pessoa passa por um curso que tem duração de 12 semanas com aulas teóricas e práticas. Segundo Norma Moreira, não é necessário ter curso superior, basta ter mais 18 anos, ter disponibilidade de dar plantão e de participar de treinamentos e saber ouvir. 

O voluntário trambém deve ser discreto, já que as conversas telefônicas não são reveladas nem entre eles, que costumam atender uns aos outros também quando alguma ligação acaba deixando o atendente mais triste. "O CVV me deu a oportunidade de conhecer mais o ser humano de ver que o ser humano é capaz de se superar", conclui.

Serviço

O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo. O serviço funciona 24 horas por dia pelo telefone 141, por  e-mailchat ou Skype.

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