“Felicidade para vocês e para nós, porque concluímos esse trabalho juntos”. Foi assim que a diretora da Escola Estadual Herbert José de Souza, Patrícia Gosling, abriu a solenidade de formatura de 14 presos que cursaram as séries iniciais e finais do ensino fundamental dentro do Presídio de Vespasiano.

Servidores da unidade, professores, agentes de segurança penitenciários, familiares e amigos acompanharam o evento, ontem. Atualmente, 73 detentos estudam na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) na escola instalada na unidade prisional.

Os presos precisam ser aprovados pela Comissão Técnica de Classificação da Unidade (CTC), uma equipe composta por profissionais das áreas de segurança, psicossocial, jurídica e de saúde. Além da avaliação, os detentos precisam demonstrar interesse, ter bom comportamento, fazer as atividades e não faltar às aulas. Se as regras forem descumpridas, eles podem perder a vaga. 

Contribuição

Por questões de segurança, as turmas são compostas por, no máximo, 15 alunos, o que – segundo a diretora – contribui significativamente para o ensino e o contato entre aluno e professor. “A turma é mais restrita, e a gente consegue ajudá-los a se reinserirem à sociedade. Um retorno para o convívio social dentro das regras”, afirmou Patrícia.

Professora há mais de 25 anos, Patrícia disse que lecionar no Sistema Prisional é um desafio e tanto, com uma recompensa grandiosa. “Eu já fui diretora de escola regular durante muitos anos e aqui a gente vê efetivamente o nosso trabalho surtir efeito. Percebemos com clareza como a educação é importante na vida do cidadão, como ela é mesmo formadora de valores, de conceitos. É muito bom perceber isso! Estou satisfeita e feliz por mais uma etapa concluída. Isso engrandece a gente como pessoa”.

Condenados comemoram obtenção do diploma e veem chance maior de ressocialização

Carlos Alberto Alves, de 28 anos, está preso há seis. Daqui a duas semanas, ele vai ser solto e sairá do presídio com um diploma e uma certidão de casamento. 

“Com a oportunidade que tive aqui, recuperei praticamente seis anos da minha vida. Comecei a trabalhar muito cedo e tive que largar a escola. Depois me envolvi na vida do crime e ficou mais difícil voltar. Nem passava pela minha cabeça que poderia estudar aqui. Muitos lá fora vêm isso com uma regalia, mas não é. É isso que nos motiva a mudar de vida”.

Prestígio

A mudança perceptível também para a esposa de Carlos. Maíssa Carolina fez questão de prestigiar o marido recebendo o canudo. 

“Ele vai sair outra pessoa. É uma oportunidade importante, é uma mudança enorme. Muitos desacreditaram que seria possível, mas só quem está aqui e sempre o acompanhou, sabe da verdade como é. Ele teve força de vontade pra mudar. É um homem incrível.”

Uma das pessoas escolhidas para compor a mesa e entregar os diplomas foi a professora de alfabetização, Kênia Silva, que não conseguiu conter as lágrimas ao abraçar os formandos. 

“É gratificante ver tudo isso. O que eu levo dessas experiências é o amor. Tudo o que tenho e que posso oferecer do meu melhor eu ofereço. Acredito no que eu faço, acredito na ressocialização, vivo isso. Pra mim, é importante demais. Eles precisam de pessoas que acreditem neles, e eles nos respeitam muito por isso. Eu amo o que eu faço!”, declarou Kênia.