De um lado, uma aluna tensa. De outro, um professor irritado. A mistura, na última quarta-feira, foi bombástica na Escola Estadual Deputado Renato Azeredo, em Vespasiano, na Grande BH. A estudante e o docente se estranharam dentro de sala de aula porque faltou diálogo entre eles. Só depois de uma boa conversa, intermediada pelo diretor Djalma Tomé, o conflito foi resolvido. Ao final, um abraço e pedidos de perdão selaram a paz entre os dois.

A solução baseada no diálogo só foi possível porque há três anos a escola adotou a mediação para resolver os conflitos envolvendo a comunidade escolar. Implantado pela Defensoria Pública, o projeto hoje caminha coordenado pela direção da Renato Azeredo.

Idealizadora do Mediação de Conflitos no Ambiente Escolar (Mesc), a defensora pública Francis Coutinho garante: escolas que abraçam a iniciativa experimentam uma transformação. "Até mesmo as inseridas em áreas conhecidas pela violência, como é o caso da Renato Azeredo".

A busca pela paz no ambiente escolar consiste em ouvir as partes conflitantes – sejam alunos, professores, funcionários e até os pais dos estudantes – e fazê-las compreender a situação. "Um problema hoje entre um aluno e professor, por exemplo, deve ser trabalhado imediatamente. Caso contrário, na semana que vem a ameaça pode virar uma lesão corporal", enfatiza Francis.

Resultado

Por onde passo, os alunos me beijam, são afetuosos. Aprendemos a ouvi-los, e eles viram que é possível resolver conflitos sem o uso da violência, mas na base da conversa", diz o diretor Djalma.

Ex-aluna da Renato Azeredo, a autônoma Júlia Panza, de 18 anos, afirma que os colegas de sala viram as mudanças nos alunos envolvidos no projeto. "Até a decisão sobre a camisa de formandos era motivo de discussão. Mas eles compreenderam que não era assim que resolviam as coisas. Mudamos muito".

 

"Os problemas aqui existem? Existem. A nossa escola não é perfeita. Mas oferecer a cada um a oportunidade de falar, de ser ouvido, ajudou a mudar a nossa realidade", comentou Djalma Tomé.

Preocupação dos mediadores vai além do ambiente escolar

Enquanto a mediação ajuda a criar a cultura de paz nas escolas, o que acontece fora delas preocupa a Defensoria Pública. O sentimento ganhou força depois que um adolescente de 14 anos, aluno de uma das escolas do projeto, foi assassinado há cerca de duas semanas.

Alvo da mediação por diversas vezes, por problemas com alguns colegas dentro da escola, o garoto sempre esteve disposto a dialogar, diz a defensora Francis Coutinho. "Até levamos a avó dele para uma conversa. Ele foi abandonado pelos pais e tinha problemas em casa".

Porém, o suposto envolvimento dele com o tráfico de drogas tirou a vida do adolescente. "A mediação sozinha não faz milagre. Casos graves, como crimes sexuais ou tráfico de drogas, fogem da nossa alçada. É preciso maior articulação entre a rede, como por exemplo com a PM. Não queremos a polícia dentro da escola, mas de um cuidado maior nas imediações, por exemplo. Cuidamos dentro da escola, mas se não houver apoio, o trabalho feito escorre pelas mãos", observou Francis.

Outro lado

Chefe da Sala de Imprensa da PM, capitão Flávio Santiago afirma que a corporação trata a patrulha escolar como essencial. "Mas às vezes sentimos falta do envolvimento da própria comunidade escolar, que não relata os problemas". Porém, ele afirma que os problemas de segurança pública também vão além.

"Se o adulto reincide, o adolescente muito mais, pois ele tem a sensação de impunidade. Tem menor que não frequenta a escola, mas está nas imediações dela e é aliciado pelo tráfico. E tem o prende-solta, por causa da legislação frágil. O adolescente só cumpre três anos de medida socioeducativa se comete infração mais grave".

Intervenção não deve ser autoritária, defende especialista

A adoção de iniciativas como a mediação de conflitos nas escolas é defendida por especialistas em segurança pública. Para eles, é uma forma de evitar que desavenças evoluam para a violência, desde que seja trabalhado o princípio do ouvir e não de impor.

Na opinião do coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos (Nesp) da PUC Minas, Robson Sávio Souza, a saída para amenizar os problemas envolvendo a comunidade escolar não será criar novas regras, colocar a polícia nas dependências da instituição de ensino ou criminalizar os alunos. "Mas criar condições de diálogo e enfrentamento dos problemas e superação não violenta do conflito. A escola deve ser a primeira promotora disso, e deve fazer de alguma forma, mesmo com a ajuda externa".

Para ele, a mediação não pode ser uma atitude autoritária. "Tem que se ouvir os lados, dialogar, criar parcerias e prevenir a violência antes que ela aumente. Se for assim, iniciativas do tipo são bem-vindas", enfatiza.

O especialista cita ainda que projeto semelhante desenvolvido em escolas públicas de Niterói (RJ) zerou a violência nas unidades onde foi implantado com eficiência.

Expansão

Em Minas Gerais, o Mesc começou na escola de Vespasiano e nas unidades estaduais de ensino Maria de Sales Ferreira (Contagem) e Professor Zoroastro Viana Passos (Sabará). As próximas a receberem o projeto estão sediadas em Santa Luzia e Ribeirão das Neves (ambas na Grande BH), Janaúba (Norte do Estado) e Passos (Sul).