Considerada por muitos o “mal do século”, a depressão tem, de fato, acometido cada vez mais pessoas em todo o mundo. Nas estatísticas globais, a doença aparece entre as três maiores causas de afastamento do trabalho. No Brasil, já é a segunda, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

O estilo de vida contemporâneo, pautado pelo imediatismo e pela ansiedade, tem sido o principal gatilho para a explosão de casos. Segundo o psiquiatra Maurício Leão Rezende, as enfermidades psiquiátricas têm aumentado e a depressão é a mais expressiva.
“Estudos apontam para sintomas de mal-estar da civilização atual, que exige do ser humano intensidade e rapidez de transformações que nem sempre damos conta de acompanhar. O preço que se paga por isso é o crescimento da violência urbana, no trânsito, do uso de drogas lícitas e ilícitas”, afirma.

Novo perfil

Tantas mudanças têm levado à inclusão de crianças e idosos na relação de deprimidos. Na infância e na adolescência, a sobrecarga de atividades e a consequente exigência de bom desempenho impõem uma necessidade de autoafirmação precoce, na avaliação de Rezende, o que pode desencadear um quadro de depressão logo nos primeiros anos de idade.

Na fase senil, as condições de vida e o adoecimento biológico são os fatores que mais contribuem para a vulnerabilidade emocional, conforme o psiquiatra. “A depressão existe em todas as fases da vida. O mais importante é ressaltar que ela é uma doença, não uma fragilidade moral da pessoa, como às vezes há tendência do leigo interpretar”, destaca o médico.

Falhas

Se por um lado a multiplicação de pacientes com depressão indica incremento do diagnóstico, por outro, ele ainda é considerado deficiente. O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva, chama a atenção para o problema.

De acordo com ele, dados divulgados por entidades de saúde em 2012 mostraram que, anualmente, cerca de 12 mil pessoas suicidavam no mundo. A maioria delas por apresentar quadro depressivo.
“Esse número tem associação com o não tratamento da doença, tenha ela sido diagnosticada ou não. Muitas pessoas não conseguem se tratar porque não têm acesso. O serviço público de saúde brasileiro é um caos, assim como em Minas Gerais. Basta vermos como os presídios e ruas estão cheios de doentes mentais”, diz.

Sem dependência

Conforme o psiquiatra, o uso de medicamentos combinado com psicoterapia é a receita básica para tratar a doença. Sobre os métodos alternativos, ele é categórico: funcionam como efeito placebo.

“Hoje, o que tem de tratamento científico, aprovado, é o uso de antidepressivos. Qualquer outra coisa não tem comprovação. Para os pacientes tratados, a regra é melhorar e ficar normal. A ausência de resposta indica que alguma coisa está errada, que a abordagem precisa ser diferente”.
Por fim, Silva enfatiza que associar os medicamentos contra depressão ao vício é um equívoco – frequentemente cometido. “Antidepressivos não são tarja-preta e tarja-preta não é antidepressivo. Essa informação pode ajudar muita gente”, conclui.

“A depressão soma fatores genéticos aos externos, chamados de fenótipos. Existe uma tendência genética no paciente, mas o meio ambiente atua como fator desencadeador e tem uma importância enorme em relação à doença” (Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria)