Virou hábito no Rio de Janeiro, Fortaleza e em várias cidades europeias. Em Belo Horizonte, porém, o uso da bicicleta como meio de transporte avança lentamente. Desde que o Bike BH – projeto de compartilhamento do equipamento, implantado pela BHTrans – foi inaugurado por aqui, há um ano e meio, cerca de 155 mil viagens foram registrados na capital mineira. Brasília alcançou essa marca em apenas sete meses de serviço.
 
Só o relevo acidentado não justifica a baixa adesão, na avaliação de Guilherme Tampieri, integrante do BH em Ciclo, associação de ciclistas urbanos. Ele ressalta que quem quer andar sobre duas rodas cria rotas alternativas ou encara os morros mudando a marcha da bicicleta.

Para Tampieri, são as falhas operacionais que desanimam as pessoas. “Já encontrei estações fora do ar, pneus vazios e correntes soltas nas bicicletas”, enumera o ciclista, que é adepto ao Bike BH. Embora reconheça que a manutenção tenha melhorado nos últimos meses, ele afirma que os problemas fazem com que usuários percam a confiança no programa.

A falta de ciclovias é outro inconveniente, como aponta a urbanista Dorinha Alvarenga, vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-MG). “Muitas avenidas importantes ainda não foram contempladas com ciclovias. A Antônio Carlos, por exemplo, tem ligação direta com o Centro e demanda um espaço para ciclistas”, diz.

A especialista destaca que o corredor de trânsito tem passeios largos em vários pontos, favorecendo a construção de ciclovias. Além disso, nele estão localizadas várias faculdades. “E são justamente os jovens que, normalmente, estão mais dispostos a andar de bicicleta”.

Vestiários

Mais do que investir na ampliação das faixas exclusivas para as bikes, no entanto, Dorinha Alvarenga defende a criação de um projeto maior, que privilegie essa sustentável alternativa de transporte. “Nesse calor, seria apropriado os ciclistas encontrarem vestiários para banhos nas estações do Move, por exemplo. Assim, poderiam trocar de roupa antes de entrar no escritório em que trabalham”.

A interação com outros meios de transporte, mais estacionamentos para as “magrelas” ou a possibilidade de pagar pelo serviço de aluguel de bicicletas com o cartão BHBus são outras propostas que, segundo a urbanista, poderiam fazer o Bike BH engrenar na cidade.

Crescimento lento

Apesar da demanda por melhorias, para o gerente de estacionamentos e logística urbana da BHTrans, Sérgio Rocha, o resultado do Bike BH é positivo. “O número de usuários, bem como de viagens realizadas, é maior a cada mês. Mas o crescimento tem sido lento”, reconhece.

Ele considera injustas as comparações sobre a evolução do sistema em Belo Horizonte com outras capitais. Cidades como Rio e Brasília, como ressalta o gerente da BHTrans, são mais planas. O Rio ainda tem a vantagem de contar com a orla.

Mesmo admitindo que a topografia de BH é pouco favorável às pedaladas, Rocha está certo de que muitos belo-horizontinos já superaram essa barreira.

Planos

No próximo ano, a BHTrans pretende analisar as 40 estações do Bike BH na cidade. A ideia, segundo o gerente de estacionamentos e logística urbana da autarquia, é verificar se o programa demanda mais estações ou se existe a necessidade de remanejar algum dos pontos já em operação.

“O contrato atual já foi contemplado, mas se verificarmos a necessidade, temos a possibilidade de fazer o aditamento contratual”, afirma.

Ampliação de ciclovias esbarra na contenção de recursos

A BHTrans tinha uma audaciosa meta para 2016: chegar ao fim do ano com 240 quilômetros de ciclovias na capital. Na prática, significa aumentar três vezes o espaço que atualmente é destinado ao transporte por meio de bicicletas. Faltando um ano, no entanto, a autarquia reconhece que não conseguirá cumprir o objetivo.

O obstáculo, segundo a BHTrans, foi criado pela União, que tinha prometido repassar R$ 22 milhões, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC da Mobilidade). O valor seria suficiente para 90% das intervenções – 150 dos 166 quilômetros previstos. Cronogramas e rotas estavam definidos quando foi descoberto que a verba não chegaria a tempo.

Prioridade

Embora concorde que os recursos federais seriam importantes, a urbanista Dorinha Alvarenga, vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-MG), afirma que a prefeitura poderia driblar o imprevisto. “A construção de ciclovias é uma obra barata. Se o assunto fosse tratado como prioridade, as autoridades dariam um jeito de arcar com os custos da intervenção”.

Integrante do BH em Ciclo, Guilherme Tampieri acrescenta que, mesmo se houvesse dinheiro, o prazo seria muito curto para tanto trabalho. Desde 2011, a BHTrans tem construído, em média, 12,6 quilômetros de ciclovias por ano. “Nesse ritmo, precisaríamos de mais de 20 anos para chegar aos 240 quilômetros prometidos”, calcula.

Novo cronograma

Agora, representantes da BHTrans querem se reunir com ciclistas e representantes da prefeitura para debater novos cronogramas e investimentos para o projeto. Apesar de a meta para 2016 ser inviável, a autarquia afirma que continua investindo na ampliação das faixas destinadas às bicicletas.

Para o primeiro trimestre do ano que vem está prevista a entrega de mais 3,65 quilômetros de ciclovias nas avenida Senador Levindo Coelho (entre Waldyr Soeiro Emrich e rua Djalma Vieira Cristo), na região do Barreiro, e João Samaha (entre rua Augusto Franco e praça Enfermeira Geralda Marra), em Venda Nova.