Inverno mais rigoroso dos últimos anos, Olimpíadas em agosto e explosão de casos de caxumba em São Paulo deixam os mineiros em alerta. O surto da infecção no estado paulista pode afetar as cidades vizinhas localizadas no Sul de Minas Gerais, afirmam os especialistas. Dos quatro municípios por aqui com surto da doença, duas estão na região: Lavras e Três Corações.

E a maior circulação de pessoas por conta dos jogos pode propagar ainda mais o vírus. A vacinação é a melhor forma de evitar problemas.

Dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES) apontam que, até 16 de junho, Minas teve 583 casos de caxumba associados a surto. O aumento da doença vem se tornando mais evidente nos últimos dez anos, de acordo com a pasta. Em 2015, foram 3.502 doentes – cerca de dez por dia –, número três vezes mais alto do que em 2014 (1.063). Em Belo Horizonte, 24 pessoas foram infectadas em 2016, contra 219 no ano passado.

Mesmo com números menores neste ano, o presidente da Associação Mineira de Infectologia, Estevão Urbano, frisa que não se pode descuidar. “Por se tratar de sintomas benignos, as pessoas infectadas com caxumba costumam não olhar direito. O ideal é procurar um médico” .

Nos primeiros seis meses deste ano, São Paulo registrou mais casos de caxumba que os somados em 2014 e 2015; das quatro cidades com surto da doença em Minas, segundo a SES, duas estão no Sul do Estado, perto dos paulistas: Lavras (8 notificações) e Três Corações (18)

Proteção

A doença pode ser facilmente prevenida por meio de vacina, destaca a SES. A tríplice viral, que também imuniza contra o sarampo e a rubéola, é oferecida gratuitamente nos postos de saúde. 

Por sua vez, o pediatra e infectologista José Geraldo Ribeiro, da Sociedade Mineira de Pediatria, demonstra preocupação. “Após certo tempo, geralmente dez anos, a imunidade da vacina tríplice viral é reduzida, abrindo brechas para sintomas mais leves. Já as pessoas que não vacinaram quando novas só se preocupam com a proteção quando apresentam os sintomas, o que não produz nenhum efeito”, explica. Jovens e adultos, ele alerta, devem estar mais atentos.

Caxumba

Indicações

Diante o crescimento de casos nos últimos dez anos em Minas, a SES afirma ter ficado evidente que uma única dose da vacina tríplice viral não seria suficiente para alcançar altos níveis de proteção.

Por causa disso, houve mudança no calendário vacinal. Hoje, por recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), a primeira dose da imunização é aplicada aos 12 meses de idade. Aos 15 meses, o reforço é feito com a segunda dose, mas dessa vez da tetraviral, que também protege contra a varicela.

Após essa idade, conforme a SES, a tríplice viral também é administrada em duas doses, dos 2 aos 19 anos. O intervalo entre as duas aplicações deve respeitar 30 dias. Quem tem entre 20 e 49 anos pode tomar a dose única. As pessoas que se vacinaram ou tiveram a doença uma vez têm proteção garantida ao longo da vida, destaca a SES.

Apesar de mais comum em crianças, adultos não estão imunes à caxumba. E um dos motivos para o alto número de casos em Minas, de acordo com a secretaria, é que muitas pessoas não procuram as unidades de saúde para se vacinarem. Em Belo Horizonte, mais de dez mil pessoas foram imunizadas até maio deste ano.

Sintomas facilmente confundidos com os da gripe e da dengue

Especialistas lançam mais um alerta sobre a incidência da caxumba. Muitas vezes, a infecção pode ter sintomas parecidos com os da gripe e da dengue, também tão evidentes nos últimos meses no Estado.

Como a maioria das doenças virais, de acordo com a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), a caxumba pode ter sintomas gerais e inespecíficos, como febre e dores de cabeça, muscular e no corpo. Inclusive, a forma de transmissão também se parece bastante com a da gripe: o vírus circula facilmente em locais com aglomeração de pessoas e é transmitido por gotículas de saliva ou secreção respiratória.

Por isso, especialistas recomendam ao doente procurar um médico para fazer o diagnóstico correto da enfermidade.

Cuidados

A caxumba começa com quadro infeccioso, com febre baixa, mal-estar, dores nos músculos, articulações e ouvido e, após algumas horas ou dias, evidencia-se a inflamação nas glândulas parótidas, de um ou ambos os lados.

A prevenção é de suma importância. Como o contágio é por contato direto com o paciente, recomenda-se lavar as mãos com água e sabão frequentemente e utilizar o antebraço ou o lenço de papel quando for tossir ou espirrar, evitando assim cobrir a boca com as mãos.

Também é preciso evitar tocar os olhos, boca e nariz após contato com superfícies, não compartilhar objetos de uso pessoal e manter os ambientes bem ventilados.

Em Minas

A notificação da caxumba às autoridades de saúde é compulsória em Minas Gerais desde 2001.

A Secretaria de Estado de Saúde (SES) destaca que surtos também atinge países mais desenvolvidos, como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Bélgica, onde a cobertura vacinal contra a doença é extensa. Nesses locais, há muitos registros de casos em escolas.

A infecção disparou este ano no país: em Goiânia (GO), 62 crianças e adolescentes de quatro escolas foram infectados; em Curitiba (PR), os casos até junho (613) já se aproximam das notificações de todo

Mitos e verdades sobre a caxumba, de acordo com Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade

O paciente não precisa ficar isolado.
Mito. É necessário isolamento por alguns dias para evitar a propagação da doença.

Objetos utilizados pela pessoa contaminada precisam ser desinfetados.
Verdade. Utensílios, como talheres, pratos e copos, devem ser lavados com água e sabão. Não são necessárias medidas adicionais aos cuidados de higiene que são recomendados habitualmente.

Existe um grupo de risco.
Mito. Não existem grupos de risco, e sim a exposição a fatores de risco. A gravidade da doença se estabelece com as complicações possíveis, como inflamações dos testículos e dos ovários ou do sistema nervoso central. Felizmente todas são raras.

É possível evitar consequências graves da caxumba como surdez, meningite e até esterilidade.
Mito. Uma vez estabelecida a doença não existem medidas que evitem complicações. A esterilidade é muito rara, mesmo entre os casos que apresentam orquite (inflamação dos testículos), que já são bem pouco frequentes.

Existe tratamento específico.
Mito. Não existe tratamento específico para a infecção viral. Como a doença regride espontaneamente, medidas de controle dos sintomas são suficientes.