Quase um ano após a inauguração do Museu da Moda de Belo Horizonte (Mumo), o primeiro voltado para o segmento no Brasil, a gestora do espaço, Marta Guerra, comemora o sucesso da instituição pública.

Com cerca de 4 mil visitantes mensais, o espaço é, além de um local para exposições artísticas, ambiente ideal para debates pertinentes ao mercado e discussões a cerca do papel social da moda na vida das pessoas.

Confira, em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, como Marta Guerra e a equipe do Museu da Moda planejam o dia a dia do local e os desafios que estão pela frente.

O Mumo foi aberto em dezembro de 2016 e, desde então, vem tendo muita repercussão por meio de exposições, parcerias e circulação de público. A que atribui o sucesso?
Acredito que é resultado da própria dinâmica que a moda tem. O campo de discussão é extenso e, ao mesmo tempo, fácil de entender porque as pessoas se veem naquele lugar. Antigamente, todos seguiam religiosamente, a cada seis meses, uma coleção, uma cor, um tecido. Hoje em dia, as pessoas buscam a própria identidade e elas têm uma dinâmica do autorreferencial. Muitos acham que a moda é algo mercadológico, e não é. A primeira coisa que todo mundo pensa quando acorda pela manhã é no que vai vestir e em qual significado terá aquele vestuário no dia. Por isso, acho que as exposições de moda têm esse charme. Não existe um distanciamento. Não são telas como as de Da Vinci, por exemplo, dos séculos 15 e 16, do Renascentismo, de outra cultura. Tem muito a ver também que a gente teve uma experiência anterior como Centro de Referência da Moda.

O Museu da Moda de Belo Horizonte ocupa um icônico prédio na rua da Bahia, Centro de BH, datado de 1911; o local fica na esquina com a avenida Augusto de Lima, em frente ao Edifício Maletta

Por que a transformação em museu?
Para esse Centro de Referência passar a ter um acervo e, a partir disso, desenvolvermos uma política museológica específica de reserva técnica. Entendemos que a moda tem essa coisa efêmera, mas ela também é memória, conta uma história. Às vezes, em uma fotografia de moda, você identifica a época, o lugar e até o próprio fotógrafo. E, muitas vezes, há uma memória afetiva até. Nós já temos mais de mil peças e pretendemos ampliar.

E esse acervo foi iniciado quando?
Ele já vinha de quando éramos Centro de Referência da Moda e as peças ficavam armazenadas no Museu Histórico Abílio Barreto, que é da cidade. Tivemos uma exposição de sucesso, chamada “A fala das roupas”, que nos entusiasmou. Conseguimos contar a história de Belo Horizonte, desde a fundação, através dos objetos. A roupa fala por você e fala por uma época. 

Poucos sabem, mas o Mumo abriga a primeira biblioteca municipal da capital; nós temos um acervo com mais de cinco mil títulos literários, temos um patrimônio variado e estamos adquirindo publicações voltadas para a moda

Quem é o público do Mumo?
Aqui entra todo tipo de público, crianças, jovens, estudantes de moda... O pessoal da redondeza também, já que essa é uma parte do Centro que ainda tem muitos moradores que vivem aqui há anos e têm esse espaço como referencial. Os estudantes de moda, claro, são os mais habituais, muitos já tenho até intimidade. Temos muitas palestras e muitos eventos voltados para este segmento, por isso a atração maior. Nós temos um projeto chamado Aula Aberta no Mumo, no qual nós convidamos as instituições a darem aula. A faculdade tem uma matéria de nome “Moda e Sustentabilidade” ou “Design de Joias”, por exemplo, e essa aula vem ser dada aqui dentro, aberta a outros alunos. Inicialmente, nós convidávamos. Depois, o que observamos é que as instituições e também os professores passaram a pensar junto e a colaborar com o projeto, sugerindo os assuntos e fortalecendo o projeto. Às vezes, pessoas que têm curiosidade em saber sobre o assunto vêm. Alunos que estão naquela fase de decidir o que fazer, têm medo de entrar para a moda e ser uma coisa que não tenha mercado, também. Então, aqui, eles têm a oportunidade de vir, discutir e escutar. Acho que isso é uma missão que temos. De uma maneira formal, e também informal, contribuímos para o fortalecimento da cadeia da moda. Essa é uma preocupação enorme que temos. Além disso, enquanto espaço público, temos que dizer não ao trabalho escravo, valorizar quem trabalha seriamente, os que se preocupam com a ética, com a sustentabilidade, com a preservação da natureza, e tudo isso tem acontecido aqui dentro. 

Como é feita a curadoria das exposições, palestras etc?
Como nós decidimos que a parte expositiva do museu sempre terá a temática da moda, fizemos uma definição anual de exposições e convidamos sempre um curador. Além disso, temos os editais de ocupação, que abrimos para novos curadores e artistas, que não têm aonde expor, e é uma maneira de motivarmos esse trabalho. São de quatro a cinco meses para ocupação pública. Já as palestras e semanas temáticas vão acompanhar os temas do momento, o calendário próprio da cidade. Outro programa é a Slow Week, com dez dias de uma programação extensa com discussões sobre reúso e reutilização de materiais, com curadores convidados. No fim do ano agora já planejaremos o ano que vem.

Marta Guerra, gestora do Museu da Moda de BH

O Mumo é muito presente nas redes sociais. Você acredita que esse seja um diferencial frente a outros museus da cidade?
Acredito que a cultura tem que conversar com o atual, temos que estar neste universo. A equipe aqui é muito pequena, às vezes eu posto de casa no Facebook o que interessa compartilhar. Porque uma rede social tem que contribuir nessa atualização. Mas somos três pessoas. A ideia é manter um diálogo espontâneo com quem nos segue. Não é um blog de notícias quadradinho, sabe?

Uma das pesquisas de moda que estão no acervo do Mumo mostra que Belo Horizonte tinha o apelido, por volta dos anos 40, de Cidade das Costureiras; a capital possuía alfaiates italianos, árabes, judeus e libaneses comercializando tecidos e aviamentos, e as costureiras, modistas, bordadeiras

Então por isso vocês optaram por não ter um site?
Essa foi uma opção da Prefeitura de Belo Horizonte, mas acho importantíssimo ter. No entanto, nessa transição isso já foi entendido. Até porque, vai chegar uma hora que não teremos espaço físico para expor todo o acervo. Dessa forma, parte da consulta dele deverá ser on-line. Em 2018, acho que todos os equipamentos culturais da PBH já devem estar on-line, com site.

Quais são os principais desafios para o Museu da Moda?
Ter a moda como política pública tem sido um grande desafio. Porque tratar a moda no mesmo patamar do teatro, da cultura, de forma linear, tem sido algo muito complexo, mas acho que estamos desenvolvendo um bom papel. O tema é, ao mesmo tempo, contemporâneo e de memória tratado em um prédio tombado pelo Patrimônio Histórico, e que também tem uma história com a cidade. A primeira ocupação do edifício foi como Conselho Deliberativo do Município, depois como Câmara Municipal, e, em seguida, vieram várias outras ocupações. Então, temos o desafio da habitabilidade. Não é tudo aqui que podemos mexer, tivemos que colocar dry wall, a iluminação é mais complicada, mas, ao mesmo tempo, estar neste local, no Centro da cidade, é muito importante. Exercemos uma função que vai para além do museu, é um espaço de acolhimento. 

Conservar o acervo também é desafiador?
Sim, pois não é fácil conservar tecido. Nós vamos ter que criar a referência dessa conservação, é uma construção. Como museu público de moda, este é o primeiro do Brasil. Outro desafio, quase que diário, é entender o que está se passando na cidade, no Brasil, no mundo. Temos de estar na cabeça das pessoas, não perder esse timing, esse vigor, não baixar a guarda. E a questão mesmo de fazer um bom uso do espaço público. É um desafio pessoal meu, inclusive. Isso tudo aqui é mantido pelo poder público, é uma responsabilidade muito grande. O mínimo é respeitar isso e devolver para a cidade o investimento. Apesar de ser voltado para um segmento, é o segundo segmento que mais emprega em BH. Não estamos brincando de fazer moda aqui, temos um compromisso. Tenho orgulho de estar aqui.