Mãe de um menino de 12 anos, a professora Flávia* lembra com clareza o dia em que o ex-marido a estrangulou na frente do filho, em 2013. Aquela não era a primeira agressão em onze anos de casamento. Mas foi a última. Ela entrou para a estatística em ascensão de mulheres que rompem o ciclo da violência doméstica. 

Em BH, apenas no Centro Risoleta Neves de Atendimento de Minas Gerais (Cerna), cerca de 450 vítimas da capital e redondezas clamam por socorro a cada mês, segundo dados da subsecretaria de Estado de Políticas para Mulheres.

A instituição estadual acolhe mulheres que sofreram variadas agressões, assim como o Centro de Apoio à Mulher Benvinda, da Prefeitura de Belo Horizonte. Nos dois espaços, equipes qualificadas prestam atendimentos psicossociais e dão o suporte necessário para que as vítimas consigam dar um basta à violência. 

Foi na casa Benvinda que Flávia buscou forças para se reerguer. Quando esteve na delegacia de mulheres, há cinco anos, ela dava o primeiro passo para brecar as agressões que começaram assim que o filho nasceu. “Estava muito cansada por cuidar de um bebê e meu ex-marido achava que eu tinha outro. Ele começou com xingamentos, depois empurrões, beliscões. Até comprar uma arma e me ameaçar”, conta. 

Ela entrou em depressão e chegou ao ponto de ter medo de dirigir e ser seguida pelo ex-marido. Hoje, depois do apoio recebido, superou o trauma e faz campanhas na escola onde trabalha para empoderar as meninas da nova geração. “Esquecer a gente não esquece. Mas aprende a seguir a vida”, afirma.

Apoio

Buscar apoio tem sido cada vez mais frequente, segundo a subsecretária de Estado de Políticas para as Mulheres em exercício, Isabel Lisboa. “As mulheres estão mais atentas ao fato da violência não ser apenas a física. Ameaças, ofensas e intimidações também precisam ser denunciadas e combatidas”. Ela explica, porém, que os atendimentos nos centros especializados poderia ser ainda maior, já que vários casos permanecem entre quatro paredes.

Na Benvinda, foram 520 atendimentos ao longo de 2017 e 70 em 2018. A gerente do centro, Kate Rocha, conta que não há um perfil específico: há pobres e ricas, negras e brancas. Moram em barracos ou em mansões. Mas, em comum, têm o estado emocional ao pedir ajuda. “Normalmente, elas não vêm na primeira agressão. E chegam fragilizadas, depressivas, doentes”, afirma. Em alguns casos, quando há risco de morte, as mulheres são encaminhadas para abrigos com os filhos menores de 18 anos. 

O psiquiatra forense Guilherme Rolim reforça os perigos para a saúde. Segundo ele, toda violência eleva o risco de desenvolvimento de problemas psiquiátricos, como depressão, e transtornos de ansiedade, como pânico. “Também existe o risco de tentativa de suicídio e, até por isso, chamamos essas mulheres de ‘sobreviventes’. Tanto às sequelas físicas quanto emocionais”, aponta.

(Nome fictício)

“A gente dá a segunda chance com a esperança de que as coisas vão mudar. Ou por medo. Mas é só dar o primeiro passo”
Flávia*
Vítima de agressão do ex-marido

Rede de apoio precisa ser fortalecida no interior do Estado

Se nas grandes cidades mineiras as vítimas de violência doméstica contam com unidades de referência para buscar apoio, no interior essa rede precisa ser fortalecida. Levar a mesma estrutura para áreas mais distantes é um dos desafios. 

“Estamos capacitando pessoas para realizar esses acolhimentos e tentando convencer prefeitos a montar abrigos e centros de referência para receber essas pessoas”, afirma a subsecretária Isabel Lisboa. Atualmente, existem centros de referência em apenas 27 cidades.

No entanto, sempre é possível recorrer às polícias Militar e Civil. Nos casos em que há ameaça de agressão, medidas protetivas podem ser pedidas, desde que a denúncia seja representada na delegacia.

“Pode ser o pedido de encaminhamento para abrigo, solicitação de distância mínima entre a vítima e o agressor, acompanhamento para buscar pertences. Em casos mais graves, podemos pedir ao Judiciário até a prisão preventiva do agressor”, afirma a delegada Ana Paula Balbino, da Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher. Ela explica que a lei considera violência, além das agressões físicas, a psicológica, sexual, patrimonial e moral.

Patrulha

Em Belo Horizonte, casos de maior gravidade são encaminhados para acompanhamento da 1ª Companhia de Prevenção à Violência Doméstica contra as Mulheres (PVD) da PM. Policiais dão segurança à vítima durante o período necessário. Só em fevereiro, foram 173 encaminhamentos, segundo a subcomandante tenente Bruna Cristina Almeida de Resende Lara. (Colaborou Mariana Durães).

Violência Doméstica matéria 08/03/2018

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