Com os olhos vidrados nas bonecas antigas expostas no Museu dos Brinquedos de Belo Horizonte, Doralice Campos inicia uma viagem de volta ao passado. O sorriso saudosista deixa clara a satisfação da professora aposentada em relembrar o tempo de menina, quando brincar era a única preocupação.

Aos 69 anos, ela comemora a oportunidade de poder voltar a ser criança pelo menos por uma tarde. Ao lado de outros cinco idosos, compartilha memórias, canta clássicos da música popular e se diverte com dinâmicas que devolvem ao grupo uma alegria juvenil. 

O projeto voltado para a terceira idade vai funcionar todas as segundas-feiras de outubro, sempre à tarde, no Museu dos Brinquedos. O foco, segundo os organizadores, é acordar a criança que certamente existe dentro de cada idoso.

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Para Doralice, a ideia já é um sucesso. Em meio a tantas recordações, ela gargalha ao pensar sobre a ingenuidade que teve quando criança. “Eu tinha uma boneca de papel que era meu brinquedo preferido. Mas um dia decidi que ela deveria tomar banho e a coitadinha simplesmente se desmanchou na água. São coisas muito gostosas de se lembrar”, relata.

Simplicidade 

O contador aposentado Mauro Peixoto, de 64 anos, também se surpreendeu com as atividades lúdicas vivenciadas com o grupo. Ele conta que lembrar das travessuras de menino foi uma experiência revigorante, principalmente pela capacidade das crianças de sentirem-se felizes [/TEXTO]sem a necessidade de muitas coisas materiais.

“Eu aprontava muito com brinquedos como os carrinhos de rolimã. Essa simplicidade da infância nos mostra que, às vezes, a gente é feliz e não sabe”, avalia. 

Junto de Luiza Carmélia, professora aposentada de 57 anos, Mauro se diverte jogando peteca como nos tempos da infância. Para ele, uma maneira de recuperar alegrias que as pessoas vão perdendo à medida que envelhecem. Para ela, a possibilidade de redescobrir sensações que continuam vivas, mas escondidas em cada um. 
 

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“Rever esses objetos mexe muito com a gente. Já vim muitas vezes ao museu como professora e esperava outra coisa. Fui surpreendida porque o encontro foi para mim e não para crianças”, destaca Luiza.

E não foi só o contato com brinquedos antigos que arrancou sorrisos do grupo. A proximidade e a partilha de histórias de vida diferentes também alegraram os participantes.

A psicóloga aposentada Áurea Parreira, de 66 anos, soltou a voz e se emocionou ao ver todo o grupo cantando clássicos como “Que beijinho doce” e “Índia”, clássicos do repertório caipira. “Foi maravilhoso. Aqui resgatei não apenas a minha infância, mas também a dos meus filhos e netos”.

Ex-professora da UFMG aposta na interação com mais velhos

Foi depois de passar um tempo cuidando da própria mãe que a bióloga aposentada Miriam Oliveira Rocha, de 65 anos, percebeu que havia descoberto uma ótima oportunidade para desenvolver um trabalho voltado para a terceira idade. 

Depois de encerrar a trajetória profissional como professora da Faculdade de Farmácia da UFMG, ela percebeu que era hora de se dedicar a outra missão.

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Miriam começou o projeto levando músicas, brincadeiras, contação de histórias e dinâmicas em grupo para asilos. Quando se deu conta, estava com a agenda lotada e levando a proposta para várias instituições que atendem idosos em Belo Horizonte. 

“Então eu resolvi que ia buscar um outro público, fora dos asilos. Propus o projeto para o Museu dos Brinquedos e eles aceitaram prontamente”, explica. 

Para a bióloga aposentada, o grande desafio do projeto é conseguir formar público. Ela afirma que a terceira idade exige atenção especial, já que todo idoso, independentemente do temperamento, pode interagir de alguma forma com as atividades. 

“Para fazer esse trabalho é preciso de muita sensibilidade. Hoje, com o aumento da expectativa de vida, há muito o que ser feito para essas pessoas”, garante Miriam. 
 

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