Deslocar-se de carro pela cidade é uma atividade diária da vida urbana, seja a trabalho, estudo, resolver pendências ou se divertir. Porém, trafegar pelas ruas de BH não é tarefa fácil e as dificuldades enfrentadas pelos motoristas ganham novo respaldo científico. Um estudo que analisa a quantidade de vezes que os veículos ficam parados ao longo de um trajeto constatou que na capital mineira os automóveis registram interrupções no deslocamento acima da média mundial.

O levantamento global será concluído e divulgado ainda em 2016, mas já antecipa que um carro “anda e para” no trânsito belo-horizontino 18.480 vezes por ano. No mundo, a média é 18 mil. A pesquisa leva em conta o cruzamento de dados de GPS instalados nos veículos e foi feita pela TomTom, uma fabricante desses aparelhos eletrônicos.

Velocímetro zerado

A reportagem do Hoje em Dia foi às ruas e comprovou o tempo perdido no trânsito. Na última quinta-feira – em plena mobilização do Dia mundial sem carro – foram necessários 40 minutos para percorrer um trajeto de 11 km. Em quase metade do tempo de deslocamento, exatos 18 minutos, o velocímetro zerado. Foram contabilizadas 64 paradas.

A velocidade média foi de apenas 16km/h no percurso iniciado no viaduto Otto Lara Rezende (que dá acesso à Cristiano Machado pelo bairro São Gabriel, Nordeste de BH) até a avenida do Contorno (bairro São Lucas, região Centro-Sul). Um dos pontos mais críticos foi o elevado Henriqueta Lisboa, que fica próximo ao Minas Shopping. Em um trecho de pouco mais de 300 metros, o carro “andou e parou” seis vezes.

O mecânico Guilherme Júnior del Cantoni passa diariamente pela região e também reclama. Ele gasta cerca de meia hora para percorrer seis quilômetros da avenida Cristiano Machado, entre o Floramar ao Ipiranga. “É horrível. Muitas vezes estamos atrasados e o trânsito está parado. Como tenho horário para cumprir, então saio mais cedo porque já sei que vou agarrar”, diz. No entanto, nos dias em que não tem que dar carona para a esposa e a filha, o mecânico deixa o automóvel em casa e opta pela bicicleta. “Gasto o mesmo tempo que de carro, mas não me estresso, não fico nervoso”.

Danos à saúde

O médico Fábio Nascimento, que durante seis anos presidiu a Associação Mineira de Medicina de Tráfego (Ammetra), é categórico. “Esse é, literalmente, um tempo perdido”. Ele reforça que o condutor poderia utilizar o período para realizar outras tarefas ou descansar.

“Pode gerar estresse e uma série de riscos à saúde. Além da pessoa ficar sentada na mesma posição, em muitos casos há o barulho, o calor”, diz Nascimento, que ainda acrescenta: “na volta para casa, no horário de pico, é pior ainda. A pessoa chega na residência mais esgotada e nervosa”.

Concentração de carros no hipercentro favorece congestionamento

As constantes interrupções durante o deslocamento de carro nas vias urbanas da capital ocorrem devido à região central concentrar boa parte do volume do tráfego da cidade, diz o especialista em engenharia de transporte e trânsito Márcio Aguiar. “O congestionamento é alto porque as principais vias e trajetos passam pelo hipercentro”. Só pelo perímetro da avenida do Contorno circulam 500 mil veículos diariamente.

Aguiar também reforça a grande quantidade de carros no município. Para ele, o transporte público ainda “afugenta” os usuários por ser “caro, demorado e desconfortável”.

O especialista argumenta que existem por aqui poucas rotas alternativas para desafogar o fluxo de veículos nas avenidas principais, e lembra que as vias estão repletas de semáforos. “Estamos em uma das cidades do Brasil com maior número de sinais. O semáforo faz com que haja muitos pontos de parada no deslocamento, o que nem sempre é uma solução para melhorar o trânsito, mas um paliativo”. Além de investir em transporte público de qualidade, o professor sugere a criação de vias alternativas e trincheiras e túneis como opção aos sinais.

A BHTrans afirma que dá preferência ao transporte coletivo em relação ao individual, e diz que a prioridade deve ser “sempre do pedestre e do veículo não motorizado (bicicleta) porque eles são os menores e mais frágeis”. “Esse é um parâmetro utilizado no mundo pelas cidades focadas na mobilidade urbana sustentável”, justificou, em nota. A empresa disse ainda que a prefeitura tem investido em melhorias. Ela cita a implantação do Move e das ciclovias, a conclusão das vias 210 e 710, para facilitar acessos locais em algumas regiões, e a reestruturação das vias da área central com o Mobicentro.