Jamille Stephanie Sales Azevedo, que ficou conhecida nacionalmente como Jamille Edaes, nega que tenha havido uma tentativa de sequestro de sua filha no Graal de Perdões, no Sul de Minas, na segunda-feira (26). Segundo ela, a postagem que relatava essa história – que se tornou viral e teve mais de 130 mil compartilhamentos – partiu de um perfil fake do Facebook. Segundo o advogado dela, Marcelo Machado, a cliente teria sofrido injúria racial por parte de funcionários do estabelecimento.

“Vamos fazer uma denúncia de crime cibernético porque esse Facebook não é meu”, relata Jamille à reportagem do jornal Hoje em Dia. Ela nega que uma mulher tenha tentado pegar a sua filha no banheiro do local e apresentado uma certidão de nascimento falsa. Diz que essa informação foi passada pelo fake, não por ela. “O que aconteceu é que eu estava no banheiro e uma funcionária pegou a minha filha e entregou para outra pessoa”, diz  (veja entrevista na íntegra abaixo).

Em entrevista pelo telefone, Jamille afirmou que seu perfil verdadeiro seria Jamille Sales. Horas depois, pelo WhatsApp, ela disse que havia trocado o nome do perfil para Jamille Stephanie. 

O caso ganhou repercussão na segunda-feira (26), depois do relato que teria sido feito por Jamille, que agora ela afirma ser falso, sobre um ocorrido no Graal de Perdões. No texto, há a informação de que a filha foi vítima de uma tentativa de sequestro durante uma viagem de ônibus entre São Paulo e Belo Horizonte. Na parada em Perdões, após ir com a filha até o banheiro, ela teria visto uma mulher pegar a menina pela mão, mas achou que fosse uma brincadeira. Quando Jamille chamou pela menina, a suposta sequestradora teria gritado que era a verdadeira mãe da criança. O relato conta que Jamille teria mostrado o documento de identidade da filha e fotos da família no Facebook para provar que era a verdadeira mãe da criança. Jamille, que é negra, teria afirmado ter sido vítima de racismo.

Embora Jamille agora conteste a postagem que viralizou pela internet, o boletim de ocorrência feito por ela na terça-feira (27), na Delegacia de Betim, onde mora, traz as mesmas informações do post do Facebook. Segundo o documento, ela teria afirmado que foi ao banheiro do estabelecimento, quando uma mulher pegou a criança dizendo que a mesma era filha dela, gritando: “solta minha filha”.

De acordo com o BO, a suposta sequestradora teria ainda apresentado uma certidão de nascimento falsa, com o nome de Jéssica Castro de Araújo. Jamille teria relatado ainda que pessoas teriam chamado a criança de Jéssica, mas a menina não teria atendido ao chamado.

No BO, há a informação de que Jamille confirma ter feito um post no Facebook informando o ocorrido e que teria sofrido ameaças por pessoas identificadas como sendo funcionárias do estabelecimento. Na ocorrência Jamille teria dito que estas funcionárias mandaram que ela tirasse o post da rede social.

A versão do advogado

De acordo com o advogado Marcelo Machado, Jamille teria sido interpelada três vezes por funcionários do estabecimento, questionando se ela seria mãe da menina. Uma teria dito: “você não é a mãe, porque ela é branca e você é de cor escura”. No banheiro, onde teria ido para trocar a fralda da menina, Jamille teria sofrido o principal embate.

“Foi ao banheiro, trocou a fralda da criança, e aparece uma terceira pessoa. A servidora do posto, que estava limpando lá, pegou essa criança e entregou para terceira pessoa. (A Jamille) disse “não, a criança é minha filha”. Ela (Jamille) se viu obrigada a se identificar como mãe da criança e mostrar: “Eu sou a mãe da criança”. A terceira pessoa disse: realmente, eu não sou a mãe”, contou o advogado.

Segundo ele, Jamille prestará depoimento na Delegacia de Lavras, no Campo das Vertentes, onde o inquérito foi aberto, na próxima quarta-feira (5).

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Facebook

Jamille e o advogado foram questionados de diferentes formas sobre o perfil do Facebook de Jamille Edaes, de onde partiu o post que viralizou. O perfil foi criado em 2011 e continha fotos de Jamille com o marido e a filha, mas as imagens foram apagadas. Ele constava ainda o status de casada com Roberto Edaes Jr.

Foi por meio do perfil dele que a reportagem do Hoje em Dia entrou em contato na última terça-feira (27). Na conversa, registrada pelo Messenger, Roberto passa o seu telefone à reportagem. No meio da semana, ele apagou o perfil do Facebook.

Embora Jamille negue que tenha escrito a postagem, o texto foi lido integralmente no programa “Fátima Bernardes”, da Globo, na última quinta-feira (29). Jamille e Roberto participaram da atração televisiva relatando que houve injúria racial dentro da parada de ônibus. Em nenhum momento do programa, Jamille contou que o texto lido não havia sido escrito por ela. Confira aqui.

jamille edaes

Leia a íntegra da entrevista feita com o advogado Marcelo Machado e Jamille Sales:

Hoje em Dia: Dr. Marcelo, gostaria de saber a versão da Jamille para o que aconteceu no Graal de Perdões?

Marcelo Machado: Ela desceu nesse posto e quando entrou no posto recebeu uma comanda. Já no momento desse recebimento da comanda ela foi interpelada por um funcionário, sobre quem era mãe da criança, e ela estava carregando a criança. Cadê a mãe dessa criança? Como se ela não fosse a mãe. Ela respondeu: eu sou a mãe. Aí adentrou, foi comprar uma coxinha pra criança, novamente foi interpelada pela segunda vez. Isso é fato, querendo novamente saber quem é a mãe dessa criança e novamente ela disse: eu sou a mãe. Quando foi pagar, novamente a pessoa disse: você não é a mãe, porque ela é branca e você é de cor escura.

Feito isso, ela pagou e tal, ela viu que a criança estava com a fralda molhada e foi trocar a fralda da criança. Foi ao banheiro, trocou a fralda da criança, e aparece uma terceira pessoa. A servidora do posto, que estava limpando lá, não sei, pegou essa criança e entregou para terceira pessoa. Pegou essa criança e estava entregando para uma terceira pessoa. Ela (Jamille) disse “não, a criança é minha filha”. Ela (Jamille) se viu obrigada a se identificar como mãe da criança e mostrar: “Eu sou a mãe da criança”. A terceira pessoa disse: realmente, eu não sou a mãe.

HD: Essa terceira pessoa não seria a pessoa que teria dito que era a verdadeira mãe?

M.M.: Isso é fake, isso não existe. Isso veio de um perfil falso.

HD: Estou me baseando no BO, que fala de uma certidão de nascimento falsa no nome de Jéssica...

M.M.: Na hora em que o policial estava digitando, estava fazendo pelo fake, pelo perfil falso.

HD: Não foi a Jamille quem disse isso?

M.M.: Não foi, não foi ela. Na verdade, o que aconteceu foi isso. Esse momento em que se fala de certidão e tal não existe. O que existe é que a servidora agarrou a Manu e iria entregar para essa terceira pessoa. Aí que ela disse: larga a menina que a filha é minha. E teve que se identificar como mãe. E essa terceira pessoa, depois que ela se identificou, disse: não é minha filha, entendeu? O constrangimento todo foi isso dentro do posto, em especial dentro do banheiro.

HD: Ela trocou a fralda no banheiro normal ou no banheiro de família, onde existe o trocador?

M.M.: No banheiro feminino.

HD: 
De acordo com o delegado, no banheiro feminino não tem trocador, ele fica no banheiro específico, chamado banheiro família.

M.M.: Ela não tinha conhecimento sobre isso. Ela trocou no banheiro feminino mesmo.

HD: 
Doutor, essa postagem que foi compartilhada 125 mil vezes no Facebook foi feita pela Jamille ou por um fake?

M.M.: É de um fake, não é dela. Posso te falar que providências estão sendo tomadas. Essas providências estão sendo tomadas judicialmente. Ela vai tomar providência desse fake do Facebook.

HD: Não estou entendendo uma coisa. Esse perfil que o sr. diz que é fake...

M.M.: Já são quatro falsos.

HD: 
Estou falando desse perfil de Jamille Edaes, que é um perfil de onde partiu aquele texto...

M.M.: Ele é falso.

HD: Ele foi criado em 2011.

M.M.: Mas ele é falso.

HD: Dentro desse perfil havia o status de casada com Roberto Edaes Jr., que é marido dela. Havia uma ligação entre esse perfil e o marido dela.

M.M.: Não é dela.

HD: 
Quem escreveu aquele texto que todo mundo compartilhou, que todo mundo viu? Foi alguém próximo a ela? Quem publicou? Alguém que tinha acesso a essa história?

M.M.: Ela até informou o Graal que esse texto era falso.

HD: 
No boletim de ocorrência, ela afirma que realmente escreveu uma postagem e que teria sido ameaçada por funcionários do Graal depois disso.

M.M.: Isso é verdade.

HD: 
Mas ela diz que escreveu a postagem no boletim de ocorrência.

M.M.: Escreveu, mas quando estava sendo redigida a escrita, ela estava mostrando ao servidor que aquilo era do Face falso. Então digitou que a mulher mostrou a certidão. Essa é a história do Face falso, que estava lendo para ele.

HD: Como ela explica que o fake estava ligado ao perfil do Facebook do marido dela?

M.M.: Não sei. Só te falar o seguinte: esse perfil que existe desde 2011 não existe. Ela é casada desde 2013.

HD: Mas aí o perfil seria mais antigo que o casamento. Esse perfil ela teria antes de se casar. O meu perfil de Facebook eu criei antes do meu casamento.

M.M.: Mas não é dela. Ela não criou esse perfil.

HD: 
A gente conseguiu entrar em contato com o marido dela por causa da conta do Facebook. A conta dele não era fake e estava com status de casado junto a esse perfil...

M.M.: Quer conversar com ela?

HD: Quero. Olá, Jamille, o que estamos questionando é a coisa da postagem do Facebook. Houve uma postagem com mais de 125 mil compartilhamentos, foi a postagem que fez com que tivéssemos conhecimento da sua história e agora tivemos a notícia de que esse perfil seria fake. Gostaria de entender como esse perfil poderia ser fake se se está contando a sua história.

Jamille SalesO meu perfil verdadeiro traz uma foto em que estou de óculos, cabelo liso e solto, vestido preto e branco. Esse Facebook onde está a história não fui eu que publiquei. Tanto que você está dizendo que o perfil existe desde 2011, mas estou casada desde 2013...

HD: O perfil existe desde 2011. Foi criado em 2011 e o Facebook mostra isso pra gente. Você vai rolando a página, conforme vai rolando a página, o Facebook vai dizendo a data das postagens. E ele termina em dezembro de 2011, que seria a primeira postagem.

J.S.: Sim, mas eu quero saber é quando esse perfil fala de mim. Além dessa postagem, o que mais tem nesse perfil?

HD: Havia fotos, que foram apagadas. Até ontem havia fotos sua, com seu marido. Nesse mesmo perfil Jamille Edaes havia um “casada com Roberto Edaes Jr”. Que não existe mais porque o Roberto apagou o perfil dele do Facebook.

J.S.: Vamos fazer uma denúncia de crime cibernético porque esse Facebook não é meu. Porque mudar um nome é tão fácil, assim como pode adicionar uma foto ou mudar uma data.

HD: Mas se a pessoa dissesse que era casada com o Roberto, ele teria que aceitar. Então, o que vocês estão dizendo é que ele havia aceitado o status de casado com um perfil que era fake.

J.S.: Não sei o que acontece, mas estamos tomando providência quanto a isso, por crime cibernético. Por que? Porque é muito fácil. Vai ficar com a polícia.

HD: Qual é o seu perfil do Facebook?

J.S.: Jamille Sales. Porque meu sobrenome não é Edaes.

HD: De qualquer forma, por causa dessa postagem do Jamille Edaes, que nós tivemos acesso à sua história. Essa história, se não era verídica, se não condizia com que você queria, por que você não se manifestou publicamente dizendo esse não é o meu perfil, essa não é a minha história?

J.S.: Mas eu fiz isso.

HD: Você fez isso?

J.S.: Sim, num programa de televisão eu falei.

HD: Mas o programa foi três dias depois do caso.

J.S.: Sim, porque estou fazendo tudo de acordo com orientação do meu advogado. Não tenho que ficar falando se já tem uma investigação. Tanto que no dia em que tive conhecimento sobre essa postagem, eu liguei para o estabelecimento para contar que eu não tinha feito.

HD: Jamille, no BO você reafirma que fez a postagem no Facebook e que teria recebido ameaças...

J.S.: Não, reafirmo. Quando fui fazer o BO, a pessoa me perguntou o que estava na internet. Eu peguei o celular, vi o que recebi e li para ele. Ele perguntou: o que realmente aconteceu? Aí eu contei a minha versão para ele.

HD: Não teve a tentativa de sequestro?

J.S.: Não. O que aconteceu é que eu estava no banheiro e uma funcionária pegou a minha filha e entregou para outra pessoa. Ela afirmou: não, não é.

HD: Mais uma pergunta: essa pessoa que fez a postagem é uma pessoa que teria conhecimento sobre a sua história. Tem ideia de quem seria ela?

J.S.: O que aconteceu foi que depois do fato lá eu dentro do ônibus e, pelo WhatsApp, eu contei para parentes e amigos o que tinha acontecido.

HD: Então você acredita que poderia ser um amigo ou familiar que teria usado um fake?

J.S.: Um familiar não, porque meu grupo é de pessoas mais velhas e eles jamais fariam isso.

HD: Então poderá haver uma investigação sobre suas mensagens do WhatsApp para ver quem recebeu a informação?

J.S.: Sim.

Por meio de nota, o Graal se posicionou. Confira na íntegra a nota:

Em resposta ao relato da Sra. Jamille Stephane Sales Azevedo, relacionado a supostos fatos ocorridos no “Graal Perdões” no dia 26/06/2017, a Rede Graal esclarece o seguinte:

1) A empresa foi surpreendida pelo relato da Sra. Jamille em rede social, apresentando uma história incompatível com o padrão de qualidade de atendimento de nosso estabelecimento, bem como em razão do fato de que nenhum de seus colaboradores, que trabalhou naquele dia no “Graal Perdões” havia relatado qualquer ocorrência anormal;

2) Diante da gravidade da denúncia, foi procedida a uma minuciosa apuração interna que nos permite informar que os relatos da Sra. Jamille não ocorreram no estabelecimento identificado como “Graal Perdões”;

3) As filmagens do circuito interno de câmeras e os relatos uniformes de todos os colaboradores autorizam dizer, com certeza, que não ocorreu nenhum fato similar ao relatado pela Sra. Jamille nas dependências da unidade Graal em referência;

4) A Rede Graal desconhece as razões pelas quais a Sra. Jamille criou e fez repercutir com tanta intensidade uma história que não tem nenhum respaldo na realidade dos fatos, mas está acompanhando e colaborando com a apuração de tal fato iniciada pela Polícia Civil de Minas Gerais, e aguarda que as sanções legais sejam devidamente aplicadas;

5) Finalmente, a Rede Graal espera que os veículos de comunicação que veicularam, com destaque, os relatos unilaterais da Sra. Jamille, apresentem a devida retratação, nos termos e padrões previstos na Lei 13.188/2015.

Atenciosamente, Rede Graal