Ao contrário do que diz o senso comum, brincadeira e estudo não precisam estar sempre separados. Para especialistas, o lúdico pode criar um ambiente fértil para o aprendizado. Pensando nisso, um aluno e um professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG) criaram o jogo ‘Mikaboni’, que busca melhorar o desempenho em raciocínio lógico dos estudantes do sexto e sétimo anos do ensino fundamental. Uma “mãozinha” para melhorar as notas em matemática, que é um verdadeiro “bicho-papão” para muitos brasileiros.

“Os alunos de 11 anos aproveitaram mais o jogo do que os de 12. Eles brincam mais e treinaram mais em casa. Estudaram sem sofrimento” (André Oraboni, aluno que desenvolveu o jogo)

A disciplina, inclusive, é um desafio para os estudantes desde o início da formação. Segundo dados do Ministério da Educação, 57,1% dos alunos do terceiro ano do ensino fundamental no país estão abaixo do nível ideal na matéria.

Levando em conta esses indicadores e sensibilizado pela recém-paternidade, que o tornou ainda mais atento ao desenvolvimento infantil, o professor de matemática do Cefet-MG em Varginha, no Sul de Minas, Michael Ferreira, decidiu criar um jogo de tabuleiro que desenvolvesse a habilidade em raciocínio lógico dos estudantes de 11 e 12 anos. Elaborado em parceria com o aluno André Oraboni, o ‘Mikaboni’ foi inspirado na plataforma digital “Unblock”, que significa “desbloquear”.

Processo

O trabalho foi dividido em etapas. A primeira foi marcada pelo estudo da importância dos jogos para o desenvolvimento infantil. A segunda culminou com a construção do jogo físico. Em seguida, o tabuleiro foi levado para a Escola Estadual Brasil.

Lá, no primeiro dia, os estudantes responderam a um questionário de raciocínio lógico. Depois de um mês de uso do brinquedo, outras questões foram apresentadas para comparar a evolução deles.

O resultado confirmou que brincar pode ser positivo para a educação. “Percebemos uma melhora no raciocínio lógico daqueles que fizeram o teste. Claro que não é uma mudança do dia para a noite, é algo progressivo. Quanto mais tempo o estudante brincar, melhor ele vai ficar”, afirma Oraboni.

Além da matemática, o jogo pode auxiliar no melhor desempenho em outras matérias escolares. “Ele trabalha raciocínio lógico, que é a base da matemática. Mas os pensamentos estratégicos e dedutivos também são desenvolvidos. Ocorre uma melhora na interpretação de textos e, consequentemente, nas notas de disciplinas como português e filosofia, por exemplo”, observa o professor.

“A infância é uma fase do desenvolvimento na qual a comunicação ocorre por meio de brincadeiras” (Isabel de Oliveira, educadora)

A escolha por alunos de 11 e 12 anos foi proposital. “Os mais novos poderiam ter dificuldade de jogar ou aplicar o aprendizado na vida real porque não estão aprendendo raciocínio lógico ainda. Os mais velhos já não acham esse jogo interessante”, explica André Oraboni.

Atividade lúdica proporciona alfabetização mais rápida

O processo de alfabetização também pode ser mais rápido se ocorrer de forma divertida. Essa, inclusive, é a proposta do jogo “Mente em Ação”, em desenvolvimento desde 2015 por alunos do curso técnico de informática do Cefet de Timóteo, no Vale do Aço.

Na prática, esse é um jogo interativo que pode ser jogado pelo computador, com o uso de um kinect (sensor de movimentos). Para pontuar, o participante terá que acertar questões sobre matemática e ortografia. Uma forma lúdica de descobrir, por exemplo, se uma palavra é escrita com dois “s” ou “ç”.

Odilon Corrêa, um dos professores que orientam o projeto, diz que a plataforma deverá ficar pronta neste ano e disponível para download em qualquer computador. Para ser finalizado, o jogo depende apenas de alguns ajustes.

A utilização do universo lúdico pode ser um diferencial no ensino de crianças em várias idades e disciplinas, dizem os especialistas. “Quando um jogo é pensado para desenvolver aspectos do aprendizado tem valor importante no processo educativo. É como se fosse usada a linguagem que a criança melhor reconhece deixando professores e alunos em sintonia. É a chance de o ensinamento fazer sentido para a criança”, afirma a professora da Faculdade de Educação da UFMG, Isabel de Oliveira e Silva.

Ela explica que, nos primeiros anos de vida, os bebês aprendem, principalmente, pelas brincadeiras. Na medida em que vão crescendo, a estratégia ainda pode ser utilizada. “O lúdico faz parte de toda a vida do ser humano. Não é o caso de infantilizar adolescentes, mas de deixar o aprendizado menos árido e mais atrativo com a linguagem deles”.