Maior maternidade do país em número de partos, o Hospital Sofia Feldman, na região Norte da capital, passa por uma grave crise financeira. Os 1.100 funcionários estão com salários atrasados desde dezembro e fornecedores rompem contratos com a instituição por falta de pagamento. O déficit mensal chega a R$ 1,4 milhão.

Caso o problema não seja resolvido, o atendimento na instituição, que é filantrópica, ficará comprometido. Há risco de a maternidade não contar com insumos hospitalares básicos. Por lá, cerca de 30 partos são realizados diariamente. 

“Nós atendemos mais mulheres do que as outras quatro maiores maternidades de Belo Horizonte juntas. Isso porque a nossa política é de portas abertas, vagas sempre” (Ivo de Oliveira lopes, diretor do Sofia Feldman)

“A crise já atingia os funcionários e agora começa a afetar os usuários, pois não poderemos dar vagas para partos de alto risco por não podermos atender as crianças na UTI”, afirma o diretor técnico e administrativo do Sofia Feldman, Ivo de Oliveira Lopes. 

Na próxima quarta-feira, uma reunião no Conselho Municipal de Saúde irá debater a situação do hospital. Para sensibilizar o poder público e a população, funcionários preparam uma grande manifestação em 8 de março. 

Receita

O atendimento da instituição é 100% via Sistema Único de Saúde (SUS)[/TEXTO]. A receita conta com R$ 4,5 milhões mensais, sendo que cerca de 80% são referentes a repasses da União, enquanto o restante vem do governo de Minas. 

Sofia Feldman
DE TODOS OS LUGARES – Ivo Lopes destaca que a maternidade sempre esteve de portas abertas para atender as grávidas

A direção do hospital busca uma negociação com a Prefeitura de Belo Horizonte para que o município invista recursos na manutenção do espaço. Esse repasse, inclusive, foi feito por alguns anos, mas interrompido há nove, segundo a unidade de saúde. 

Em 2016, 45% dos partos realizados no hospital foram de mulheres residentes na capital. A maternidade recebeu pessoas de 300 municípios do Estado, por ser referência no atendimento a partos de alto risco e por ter mais de 80 leitos nas unidades de Terapia Intensiva (UTI) e de Cuidados Intermediários (UCI).

“Com os salários atrasados, vários colegas já se afundaram no cheque especial. Muitos médicos têm o hospital como principal fonte de renda, mas não é um problema somente para os médicos, e sim para todos os funcionários da instituição” (Edson Lopes, obstetra que trabalha exclusivamente no hospital)

A reportagem solicitou à Secretaria Municipal de Saúde uma fonte para falar sobre o caso. Porém, a pasta se pronunciou, apenas, por meio de nota, informando que o SUS-BH repassa ao hospital, mensalmente, “todos os recursos financeiros que a instituição faz jus, produção hospitalar e ambulatorial devidamente registrada e apurada nos sistemas do Ministério da Saúde, além de todos os incentivos pactuados no contrato de gestão”. Ainda conforme o texto, atualmente encontra-se em atraso o recurso referente ao incentivo de cirurgias eletivas, devido a problemas com os repasses estaduais.

A Secretaria de Estado de Saúde informou que o repasse é feito por meio de dois programas, o Rede Cegonha e Pro-Hosp. Nesse último, estavam previsto R$ 3,1 milhões em 2016, divididos em três parcelas. Parte da terceira “encontra-se em processo de pagamento no setor de Planejamento e Finanças”, segundo a pasta. Para 2017, o hospital deve receber R$ 7,25 milhões.

Já o Ministério da Saúde não se pronunciou até o fechamento desta edição.

Assistência humanizada atrai grávidas de todo o Estado

Além de se destacar pelo número de atendimentos, o Sofia Feldman é uma referência nacional pelo trabalho diferenciado no tratamento dado à gestante. O hospital conta com uma taxa de 72,8% de partos normais, estatística que só não é maior porque a maternidade recebe um grande número de mulheres que vivenciam uma gravidez de risco. Entre os bebês que tiveram de ficar internados em 2016, 34% eram filhos de moradoras de cidades que não fazem parte da região metropolitana. 

Jacqueline das Graças Amaral, de 26 anos, é um dos muitos exemplos dentro da instituição de mulheres que não puderam ter os filhos na terra natal por enfrentar complicações na gestação. Aos cinco meses de gravidez, ela teve de deixar às pressas Piracema, na região do Centro-Oeste de Minas, e enfrentar duas horas e meia de estrada para receber atendimento adequado no Sofia Feldman. 

Grávida de gêmeos, Jacqueline vivenciou dois partos: a primeira filha nasceu com 975 gramas; doze horas depois, veio o filho, com 1,5 quilo. Dois meses após os nascimentos, a mãe se vê dividida entre a UTI e a UCI, pois os bebês estão em pontos diferentes da maternidade. 

No ano passado, o Sofia Feldman deu início a um programa de parto domiciliar, sem custos para a mãe; em 2016, foram 24 atendimentos

“Mas posso visitar a minha filha a hora que quiser. Aqui podemos ter acesso à UTI durante as 24 horas do dia”, conta Jacqueline, que aprovou o atendimento da equipe do hospital. “Todo mundo é muito atencioso e disposto a ensinar a cuidar dos bebês”, afirma. 

Reconhecimento

Heloísa Aparecida Rosa, de 26 anos, mora no bairro Ribeiro de Abreu, na zona Norte de BH, bem pertinho do hospital. Mas ela conta que a localização não foi o único motivo pela escolha do nascimento do terceiro filho, o segundo nessa maternidade. 

“Escolhi vim para cá porque esse é o melhor hospital da cidade”, garante Heloísa, que pôde convidar a sogra para acompanhar o parto, realizado em um quarto equipado com banheira e chuveiro. “No Sofia, a mulher pode escolher quem é o acompanhante. Isso faz parte de um atendimento humanizado”, diz o diretor da instituição, Ivo Lopes. 

Sofia Feldman
CUIDADO – Jacqueline e o marido acompanham o filho que, há dois dias, foi transferido da UTI para a UCI

Mobilização

A luta pela sobrevivência do Sofia Feldman deve movimentar vários profissionais da área, garante Gislene Gonçalves dos Reis, assistente social e representante dos conselhos Estadual e Municipal de Saúde. Segundo ela, o debate em torno da sustentabilidade da maternidade é antigo. “O Sofia Feldman recebia, no passado, um incentivo da prefeitura de BH que não era muito grande, mas poderia ajudar a custear os insumos. O Conselho Municipal de Saúde pretende pressionar a prefeitura a voltar a repassar recursos, pois o hospital não vai sobreviver sem isso”.

A intenção dos funcionários é mobilizar o maior número de pessoas. Cleise Soares, que trabalha na instituição e é presidente da ONG Bem Nascer, afirma que a mobilização em 8 de março será importante. “Esta maternidade é uma opção tranquila para as mulheres, porque elas correm risco no sistema privado de receber uma assistência intervencionista e de ter uma cesárea desnecessária. Aqui elas têm a garantia de um parto natural e de uma assistência respeitosa”, afirma Cleise, explicando que o atendimento humanizado não está apenas na estrutura física do hospital, mas também nas relações interpessoais entre funcionários e usuárias.

Ela conta ainda que a unidade recebe profissionais de outros estados e países que desejam aprender o sistema da instituição. “Estão para chegar equipes de Angola e Moçambique para ficar três semanas fazendo um acompanhamento do nosso trabalho”, diz.