Cidades que fazem captação de água do rio Doce já sentem os impactos provocados pelo período chuvoso na área em que ficaram contidos os rejeitos liberados após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Como o Hoje em Dia mostrou ontem, o sedimento depositado nas margens ao longo do trecho entre o distrito de Bento Rodrigues e a Usina Hidrelétrica de Candonga está se movimentando e, além de aumentar o prazo previsto para dragagem, provoca o aumento da turbidez da água. Por causa disso, o trabalho feito para viabilizar o consumo dobrou e não está descartado o risco de problemas no abastecimento.

Após o início do período chuvoso, a turbidez da água coletada em Governador Valadares, na região do Rio Doce, já atingiu o patamar de 5.000 NTU (unidades de turbidez). O valor estabelecido como limite pela resolução 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) é de 100 NTU.

Em dias de chuva, os níveis têm ficado acima de 2.000 NTU, o que requer um tratamento mais caro e demorado. “Quanto mais alta a turbidez, maior o trabalho para tratar. Os gastos aumentaram porque temos que usar mais sulfato de alumínio na água e o processo é mais demorado. Outra dificuldade é que o nível de turbidez sobe repentinamente, o que não acontecia nos outros períodos chuvosos. Agora temos que monitorar os dados de hora em hora”, explica o diretor-geral do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) de Governador Valadares, Carlos Sérgio Apolinário de Castro.

Até o momento, as mudanças exigidas por causa do aumento da turbidez não afetaram o abastecimento. Entretanto, o período chuvoso está apenas na metade e, caso os níveis permaneçam altos durante alguns dias, não seria possível garantir o tratamento de água suficiente para toda a população.

“O fornecimento, nesse tipo de circunstâncias, fica comprometido pela demora no tratamento. Nessa situação, de ficar com níveis acima de 2.000 NTU por mais de dois dias, não conseguiríamos ofertar toda a água necessária para a cidade”, ressalta Castro.

Crítico

O Ibama, que tem acompanhado de perto todo o trabalho feito pela Samarco para retirada dos rejeitos que desceram rio abaixo após a tragédia, alerta que a questão é preocupante.

“Além de gerar um impacto em tudo aquilo que começou a se recuperar aos poucos e naturalmente após o rompimento, ainda impacta nas captações de água nas cidades. Com o aumento na quantidade de sedimentos levados pela chuva, a turbidez aumenta e pode comprometer o abastecimento”, afirma o superintendente do Ibama em Minas, Marcelo Belisário.

A ameaça à captação e tratamento não é única consequência. Até o momento, o aumento no gasto para reduzir a turbidez da água feito pelo Saae de Valadares não está sendo repassado ao consumidor. Mas pode mudar já na próxima revisão tarifária. “Esse ano ainda estamos testando qual será esse gasto e a demanda, mas isso já entra como previsão nos próximos reajustes”, diz o diretor-geral do Saae.

A Samarco informou que ampliou em outubro o trabalho das obras na região da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves (Candonga). Estão em construção três barreiras metálicas que servirão para conter os rejeitos. Todas elas devem ser concluídas até maio do ano que vem. Além disso, o trabalho da dragagem é realizado todos os dias e já foram retirados cerca de 600 mil metros cúbicos de rejeitos.