O medo do zika vírus, causador da microcefalia em recém-nascidos, e a crise econômica contribuiram para que muitas mineiras adiassem o sonho da maternidade. Em 2016, o número de nascimentos de crianças foi o menor registrado em 13 anos, conforme pesquisa divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Foram 253.389 nascimentos em Minas, contra 267.996 registros em 2015. A queda de 5,4% é a mais expressiva desde 2003. O patamar é o mesmo da média brasileira: redução de 5,1% nos registros civis, com 2,7 milhões de certidões. “O surto de zika teve forte impacto nessa diminuição. Tanto que a redução mais expressiva dos nascimentos foram os 10% de Pernambuco, onde o surto foi maior”, afirma a analista do IBGE em Minas, Luciene Longo. Ela lembra que o risco do desemprego também impediu que muitos casais levassem o plano de ampliar a família adiante. 

A engenheira civil Patrícia Pena de Oliveira Campos, de 38 anos, sabe bem o peso dessas duas variáveis. Com medo de ser demitida, ela evitou engravidar em 2015, ano que tinha como meta dar um irmão ao filho, hoje com 4 anos.

Em 2016, quando a questão das finanças foi deixada de lado, ela foi orientada pelo ginecologista a aguardar um pouco por causa do possível avanço da zika. “Depois, chegamos à conclusão de que não dava mais para esperar por causa da minha idade. Agora estou grávida de seis meses”, conta Patrícia. 

Precaução

Já a maquiadora Júnia Bárbara Ferreira de Araújo da Silva, de 38 anos, decidiu ter um bebê em 2015. Porém, com o aumento de casos de microcefalia, ela resolveu esperar. “Estava querendo muito engravidar por causa da idade, mas o medo do meu filho ter a doença falou mais alto”.

Só no fim do ano passado, quando o número de notificações já tinha reduzido no Estado, que Júnia teve coragem de retomar o sonho e completar a família. Hoje, ela tem uma filha de 4 anos e um bebê de quatro meses.

A zika também fez a empresária Janayna Campos, de 26 anos, adiar o sonho de se tornar mãe no ano passado. Por um descuido, entretanto, descobriu a gestação em outubro. “Passei a gestação toda em pânico”, conta. Hoje, ela celebra a criança: o bebê, com três meses, nasceu saudável.

Tendência

Apesar de ser uma tendência no país, a redução da taxa de natalidade foi acelerada por essas questões sazonais. “Estamos passando por uma mudança na visão do papel da mulher e da família. As pessoas hoje têm mais objetivos ligados à carreira e ao mundo do consumo. Casais não necessariamente se veem obrigados a ter filhos para formarem um lar”, afirma Alisson Flávio Barbieri, professor de demografia da UFMG.

A mudança comportamental é também a explicação para a queda de 8,4% nos casamentos entre heterossexuais, de 2015 a 2016. No ano passado, foram 110,2 mil uniões. Já entre pessoas do mesmo sexo subiu 4%, fechando em 378 em 2016.

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