A viagem de ônibus de volta para casa é um pesadelo diário para a passadeira Priscila de Souza, de 34 anos. Moradora do Conjunto Ribeiro de Abreu, região Norte de Belo Horizonte, ela já presenciou dezenas de assaltos na linha 837, que liga a Estação São Gabriel ao bairro aonde vive com a família. A rotina dela é comum a milhares de usuários do transporte coletivo na capital, mesmo com o reforço de operações da Guarda Municipal (GMBH) e da Polícia Militar (PMMG). 

Com os colegas de jornada que voltam para a casa na mesma condução, Priscila divide não apenas os assentos do ônibus, mas também o medo de se tornar vítima de um roubo à mão armada. E não era para menos. Os passageiros do transporte coletivo em BH ainda convivem com a média de um assalto a cada duas horas. 

Já a soma dos crimes violentos em BH teve redução de 6% no primeiro quadrimestre de 2017 na comparação com o mesmo período do ano passado, mostra levantamento divulgado semana passada pela Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp/MG)

“Nem sei como nunca aconteceu comigo, porque os assaltos são frequentes. Nessa linha que vai pro Ribeiro de Abreu já é normal. Outro dia um motorista morreu com um tiro dado por um adolescente. É muita insegurança”, lamenta Priscila. 

Registros

Dados do Centro Integrado de Informações de Defesa Social da Polícia Militar revelam que o número de furtos e roubos cometidos dentro dos ônibus no primeiro quadrimestre do ano não diminuiu em relação aos registros do mesmo período de 2016. Pelo contrário, foram 1.472 ocorrências de janeiro a abril desse ano frente a 1.470 no mesmo intervalo do ano passado. 

Tudo isso diante de operações como a Viagem Segura, criada pela GMBH com o objetivo de combater a criminalidade dentro dos ônibus em Belo Horizonte. 

Priscila Souza"Nem sei como nunca aconteceu comigo. Os assaltos são frequentes”, afirma a passadeira Priscila Souza, do Conjunto Ribeiro de Abreu

Até o fim de abril, 80 guardas municipais abordaram 2.511 pessoas em 4.611 viagens de ônibus em avenidas como Antônio Carlos, Nossa Senhora do Carmo, Cristiano Machado, Raja Gabaglia, Pedro I, Vilarinho, Padre Pedro Pinto, Santos Dumont e Paraná – corredores com os maiores índices de assaltos a coletivos na capital. 

Nesse período, foram encontradas 16 armas brancas, além de cinco réplicas de armas de fogo e drogas. No entanto, apenas 26 pessoas foram conduzidas durante as operações. 

Margarida Araújo
“Já me roubaram tudo e essa onda já acontece há uns cinco anos”, relata a aposentada Margarida Araújo

Estabilidade

Por meio de nota, a Guarda Municipal informou que a operação focou áreas quentes de criminalidade e que “a estabilidade no número de ocorrências, por si só, já representa um importante avanço, uma vez que os índices apresentavam um crescimento contínuo e preocupante, nos últimos anos”.

A Polícia Militar também reforçou o monitoramento fazendo, inclusive, abordagens nos pontos de ônibus. Para a corporação, a estabilidade dos números já é algo a se comemorar. “Conseguimos travar o aumento que acontecia. A estagnação já é um ponto positivo”, avalia o major Flávio Santiago, chefe de imprensa da PMMG.

César Ângelo
“Além de assaltos, já vi motoristas serem ameaçados muitas vezes”, denuncia o auxiliar de serviços gerais César Angelo, do bairro Paulo VI

Número de crimes em coletivos pode ser maior, diz pesquisador

A incidência de crimes dentro dos ônibus em BH pode ser bem maior do que o apontado pelos números oficiais. A avaliação é do pesquisador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Robson Sávio Reis Souza. 

Para ele, o problema é maior em regiões periféricas, como é o caso do Conjunto Ribeiro de Abreu. Nesses locais, explica o especialista, grande parte dos crimes nem gera boletins de ocorrência, o que dificulta estimar com exatidão a frequência com que os assaltos acontecem.

Neide Rodrigues
“Eu pego o mesmo ônibus há 30 anos e vejo como a violência aumentou”, afirma Neide Rodrigues, coordenadora de caixa

“Temos uma situação endêmica de crimes contra o patrimônio que acontece por uma combinação de fatores. A ineficiência das polícias, a dificuldade de investigação e a demora da Justiça em analisar esses casos. Isso acaba criando um cenário que favorece o infrator”, explica Souza.

Integração

Outro ponto criticado pelo pesquisador é a falta de integração entre as polícias. Para ele, não é fácil encontrar uma solução para o problema, mas é essencial que a Guarda Municipal e a PM tenham operações conjuntas, feitas em diálogo, já que o objetivo de ambas é o mesmo.

“Como a nossa cultura policial é mais de reprimir do que prevenir, as medidas adotadas nesses casos são sempre localizadas. Então a Guarda Municipal e a PM fazem operações específicas, mas os infratores acabam agindo em outros lugares onde não está havendo fiscalização”, destaca o pesquisador.

A descentralização acelerada dos focos de criminalidade também é um dificultador para a atuação das polícias. Ainda assim, de acordo com Robson Sávio, as operações não são em vão.

“As ações que têm ocorrido são válidas, mas se concentram apenas em grandes corredores e locais de grande visibilidade porque há cobrança de alguns setores da sociedade e uma expectativa de resposta. No entanto, isso não é o suficiente”, conclui.

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