A Banda Mole entrou na avenida sem crise e sem preconceito neste sábado (30). Irreverente, a festa carnavalesca mais tradicional de Belo Horizonte fez uma sátira ao momento ecônomico atravessado pelo país. Com muito brilho e alegria, o evento pretende reunir cerca de 40 mil pessoas de todas as idades e classes sociais na Afonso Pena, das 13h às 22h.
 
“Banda Mole - há 41 anos sem crise” é o mote da festa. Dois trios elétricos e um palco fixo recebem as atrações. Entre elas, Bloco Afroreggae (RJ), Bloconejo (RJ), Zé da Guiomar, Meu Rei, Thiago Carvalho e Jonny Zé.
“É uma festa democrática. Aqui, você encontra desde a travesti até a criança. E todos sambam juntos, brincam juntos. Por isso não tem crise”, afirma Rodrigo, que também atende por “Ramona, a Jaguatirica do Cerrado”.
 
Com deslumbrantes asas vermelhas e azuis, Lucas Vinícius Silva, de 32 anos, representa a bandeira dos Estados Unidos. De acordo com o promotor repositor, a fantasia é uma forma de homenagear o país, que recentemente liberou o casamento homoafetivo. “O que acontece naquele país reflete em todo o mundo, foi um avanço”, comemora.
 
Ele afirma que já sofreu preconceito, mas que tem percebido uma abertura da sociedade. “A mídia tem mostrado casais homossexuais e isso é muito importante. Afinal, somos todos humanos e é isso que importa”, ressalta.
 
Bota camisinha!

E a conscientização é justamente o objetivo do grupo de teatro Confesso, que durante a Banda Mole chama a atenção para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. “Formamos um bloco com 30 pessoas e fazemos uma campanha durante a Banda Mole, onde distribuímos camisinhas”, explica a produtora do grupo, Tatiane Soares.
 
O diretor do Confesso, Guilherme Colina, se transforma na musa do bloco. Em um salto altíssimo, ele dá um show na avenida. “Há três anos me transformo em Ivete Sangalo”, brinca.
 
As primas Maria Carmen Ottoni, de 47 anos, e Rosemary Ottoni, de 52, se fantasiaram de repórter. "Adoramos o tema deste ano, que é a crise, e decidimos ser repórteres por dia. Queremos questionar as pessoas", explica Rosemary, com um copo de cerveja gelada na mão. "Mas nós somos repórteres de mentirinha, temos que espantar o calor", justifica, bem humorada, Maria Carmen.
 
Renan Douglas Alves não perde uma edição da Banda Mole. Segundo ele, que durante a festa se chama “Sol”, é tradição alguns homens do bairro Eymard, na Região Nordeste da Capital, irem à festa fantasiados de mulher. “Vários amigos do meu bairro vêm. São uns 60 homens. Isso acontece há muitos anos, desde que sou adolescente. É o dia que tenho para soltar meu lado preso”, se diverte.
 
Mas nem tudo são flores. O funcionário público, Alexandre Franco, de 47 anos, vem sempre com a família. Porém, este ano ele teve uma surpresa desagradável. "Tive que jogar a água da minha filha de 5 anos fora porque não é permitido entrar com bebida. Mas ela é uma criança e era água", criticou.
 
História

Fundada em 1975 por um grupo de rapazes egressos do bloco carnavalesco, “Leões da Lagoinha”, a “República Independente da Banda Mole”, associação lítera-etílica-carnavalesca sem fins lucrativos, teve como principal finalidade resgatar os velhos carnavais da cidade, que deveriam ter sempre as principais características: gratuidade, crítica político-social e liberdade nas fantasias e trajes a serem usados no cortejo.
 
No primeiro desfile, a Banda Mole saiu com aproximadamente 100 pessoas animadas por uma banda de chão e instrumentos de sopro de dez elementos. Com o passar dos anos, caiu no gosto popular. O desfile cresceu e, em 1995, chegou a levar mais de 100 mil pessoas às ruas com vários trios elétricos embalados por bandas conhecidas, como Araketu.
 
O desfile era realizado na Rua da Bahia. Há dez anos, o trajeto transferido para a Avenida Afonso Pena, entre ruas da Bahia e Guajajaras, no centro de BH. Os organizadores, que se revezam na presidência da entidade, são Luiz Mário “Jacaré” Ladeira e Helvécio “Gaiola” Trotta.