Mais diálogo, menos exames e remédios. Essa é a tônica de um movimento que está dando os primeiros passos no Brasil: a ‘slow medicine’ ou medicina sem pressa. Para os defensores dessa prática, nascida na Itália no início dos anos 2000, é preciso mudar o olhar do profissional da saúde sobre o doente, focando a consulta no diálogo. Eles criticam os atendimentos breves, que nem sempre dão tempo de o especialista conhecer a fundo quem está sentado do outro lado da mesa no consultório, e a prescrição exagerada de exames e medicamentos.

“Com o crescimento do componente científico, a medicina perdeu o componente humano. Fala-se ao paciente com números e não com o coração” (Marco Bobbio, cardiologista e um dos fundadores da Slow Medicine na Itália, no livro “O doente imaginado”)

A consulta rápida, que nem chega a durar 15 minutos, é o que mais se vê por aí, seja em clínicas particulares e até na saúde pública, reclamam os próprios pacientes. Por consequência, ela impulsiona a peregrinação de pessoas insatisfeitas em busca de um atendimento médico que consideram adequado. Por algum tempo, inclusive, foi essa a situação vivenciada pela dona de casa Gláucia Nélia Freitas, de 52 anos. 

Sem ter uma resposta precisa para uma dor no ouvido, ela passou por vários especialistas. “Alguns nem olhavam para mim quando eu entrava no consultório. Era tanto exame pedido mas sem um diagnóstico, e eu sempre saía sem confiança no que diziam. Acabava tentando outros profissionais”.

“O sistema que estruturou o atendimento à saúde hoje, com a tecnologia de ponta e a indústria farmacêutica, de certa forma impôs isso. É preciso resgatar a humanização do paciente, que é o aprendido na faculdade. É ouvi-lo mais, conhecer a sua vida, cultura, comunidade, independentemente se é uma consulta particular ou num posto de saúde. Só assim será possível um tratamento adequado e eficaz”, afirma um dos responsáveis pela disseminação da slow medicine no país, o geriatra José Carlos Aquino de Campos Velho.

“A slow medicine busca o cuidado focado no paciente, ouvindo-o mais. Se isso não é possível em apenas uma consulta, que se façam outras. Talvez o que ele precisa não é de um exame ou um tratamento mais agressivo, mas somente mudar algum hábito” (José Carlos Aquino de Campos Velho. geriatra e um dos responsáveis pelo site slowmedicine.com.br)

Para o especialista, a tecnologia é essencial, mas ela não pode tomar a frente de um relacionamento com o doente. José Carlos afirma que o diálogo para saber o que levou o paciente até o consultório está sendo substituído por excesso de exames, muitos deles desnecessários. 

Além disso, o clínico Breno Figueiredo Gomes, da Clínica Atentian, ressalta que os exames solicitados sem um objetivo específico podem levar a diagnósticos errados. “Também estresse desnecessário e desperdício de tempo e de dinheiro. Todo medicamento ou procedimento possui efeitos colaterais e riscos”, frisa

Seguindo essa premissa, só depois de estudar o histórico médico do industrial Hamilton Antunes, de 59 anos, foi que Breno Gomes indicou exames e o tratamento mais adequado para o cliente. “Na primeira consulta, ele me perguntou sobre doenças anteriores, quis conhecer tudo a meu respeito. Acho que durou uma hora a consulta. Me senti completamente acolhido”, diz Hamilton. 

“O paciente pode pesquisar, ouvir opiniões. Mas esclarecer as dúvidas com seu médico e definir com ele as melhores opções para o tratamento significam segurança e qualidade” (Breno Figueiredo Gomes, clínico médico)

Exame em excesso por pressão do próprio doente, dizem médicos

Se por um lado a prescrição exagerada de medicamentos e exames é criticada por especialistas, os próprios médicos afirmam que muitas vezes isso ocorre por pressão do paciente.

Essa exigência, inclusive, foi considerada em uma pesquisa da Academy of Medical Royal Colleges, que reúne 21 instituições de ensino de medicina no Reino Unido. De acordo com o levantamento, 82% dos médicos no país admitiram que, a pedido do cliente, prescreveram ou realizaram exames que eles mesmos sabiam serem desnecessários.

A situação não é diferente no Brasil. “Alguns já chegam querendo determinado exame. Mas o profissional pode mudar a postura do paciente através do diálogo. Com conversa, ele aceita a explicação do médico muito bem e, juntos, chegam a um tratamento adequado”, garante o geriatra José Carlos Aquino de Campos Velho.

Na tentativa de conscientizar a população, a Academy of Medical Royal Colleges lançou neste mês uma campanha que pede aos pacientes que façam cinco perguntas durante a consulta: “Preciso realmente desse exame, tratamento ou procedimento?”, “quais são os riscos e desvantagens?”, “quais são os possíveis efeitos colaterais?”, “há opções mais simples e seguras?” e “o que acontecerá se eu não fizer nada?”.

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