A meta estipulada no Plano Diretor de Mobilidade Urbana de Belo Horizonte é chegar ao fim de 2020 com 400 quilômetros de ciclovias na cidade. Quem usa a bicicleta como meio de transporte ou lazer promete cobrar a ampliação de pistas exclusivas. O desafio para quem assumir a cadeira de prefeito será, portanto, construir 312,6 quilômetros em quatro anos.

Há, em BH, 87,4 quilômetros de ciclovias. A previsão era a de que pelo menos mais 42 fossem construídos neste ano, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Mobilidade. “Porém, os recursos estão contingenciados pelo governo federal”, afirma a BHTrans, sem informar o valor que deveria ter sido repassado. Apenas 4,1 quilômetros saíram do papel em 2016.

Os ciclistas reconhecem avanço na estrutura. Porém, além da sonhada ampliação, apontam a necessidade de ajustes. “Falta informação. Seguindo pela rota da avenida Bernardo Monteiro, por exemplo, a ciclovia acaba na rua Piauí. Na Andradas, vai até Sabará. Há apenas um cruzamento de trânsito entre esses dois trechos, mas nenhuma sinalização sobre a continuidade da pista exclusiva”, lamenta o personal trainer Gabriel Castro.

Ele tem 32 anos e há 18 usa a bicicleta para se locomover na cidade. Gabriel faz parte da Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte (BH em Ciclo) e está atento às promessas de campanha dos candidatos a prefeito. “Não vi nada de destaque sobre ciclovia”, diz.

Propostas

O candidato Délio Malheiros (PSD) promete dar continuidade à expansão das ciclovias iniciada pelo prefeito Marcio Lacerda, que ampliou de 22 para os atuais 87,4 quilômetros. A proposta de Rodrigo Pacheco (PMDB) é investir no transporte de massa, retirando carros das ruas e abrindo espaço para pedestre e ciclistas, dentro do programa Cidade Integrada.

Em busca de informações que possam contribuir para a melhoria das ciclovias, a BH em Ciclo colhe opiniões por meio da pesquisa “Descobrindo como BH pedala” no site bhemciclo.org ou na página da associação no Facebook

 

A prioridade de Alexandre Kalil (PHS) será avaliar o estado das ciclovias existentes para checar as condições estruturais, de utilização e superposição com estacionamentos de automóveis. Também serão avaliados os bicicletários. “Somente depois poderemos estudar projetos de ampliação. Antes de tudo, precisamos fazer funcionar o que já existe, e que recebe críticas dos próprios usuários”.

João Leite (PSDB) propõe o programa Vou de Bike, “com a reestruturação do sistema de ciclovias e ciclofaixas”. Ele pretende cumprir a meta da BHTrans. O petista Reginaldo Lopes disse ao Hoje em Dia que vai “investir na implementação de ciclovias”. Segundo Marcelo Álvaro Antônio (PR), “após mapeamento, serão feitos debates em torno do planejamento cicloviário”. Eros Biondini (Pros) destaca a necessidade de expansão das ciclovias, apesar da topografia irregular da cidade.

Sargento Rodrigues (PDT) informa que quer executar uma “política pública forte de incentivo ao uso da bicicleta como meio de transporte”, uma vez que ela é mais usada em BH para lazer. Maria da Consolação (PSOL) quer se reunir com os ciclistas para “aprofundar as propostas que sejam viáveis”.

Vanessa Portugal (PSTU) disse que “as ciclovias fazem parte de um projeto de mobilidade urbana e de planejamento para interligar os meios de transporte”.

Luís Tibé (PTdoB) também promete “ouvir os ciclistas para construir com eles um modelo sustentável. “Nossa proposta é integrar as ciclovias ao transporte

Dúvida

Aníbal Manoel de Souza, de 45 anos, que trabalha como separador de materiais, e o soldador Wendell Galdino de Carvalho, de 41, passam todos os dias pela ciclovia da avenida Vilarinho, em Venda Nova. Os dois, no entanto, não têm certeza de qual é a faixa exclusiva para bicicletas.

“Não tem sinalização, então gera dúvida. Eu acho que é a parte do piso mais claro, que é mais larga”, aponta Wendell. “Para mim, é a faixa pintada de vermelho, embora não haja placas confirmando isso”, opina Aníbal.

Ambos pedalam cerca de 30 quilômetros diariamente e esperam que novas rotas sejam criadas pela capital. “Odeio pegar ônibus lotado e a bicicleta é a melhor alternativa para aliviar o trânsito”, destaca o soldador.

Ciclovias
ROTA SAVASSI – Ciclistas de BH afirmam que há mais estrutura na região Centro-Sul 

Adesão à bicicleta para aliviar o trânsito passa pela conexão com outros meios de transporte

O incentivo ao uso da bicicleta como alternativa para fugir do trânsito pesado faz parte dos programas de mobilidade executados em grandes cidades europeias, sobretudo na França e Alemanha, e dos Estados Unidos. Para que as pessoas deixem os carros nas garagens, no entanto, é preciso muito mais do que a ampliação das ciclovias.

A avaliação é do engenheiro civil Márcio Aguiar, mestre em transportes e coordenador dos cursos de engenharia da Universidade Fumec. “É preciso que haja conexão entre as ciclovias e o sistema de transporte público. Ou seja, que as pessoas consigam chegar às estações de ônibus e de metrô de bicicleta, possam deixá-la nesses locais ou levá-la dentro do coletivo para seguir viagem depois”, diz o especialista.

A ampliação do mapa cicloviário de Belo Horizonte é fundamental. Mas ele aponta outras necessidades. “A ciclovia não pode começar aqui e terminar ali na frente. Tem que ter continuidade. Também é preciso melhorar o traçado e garantir a segurança dos ciclistas”.

Obstáculos

A secretária Keila Cristina Caetano, de 28 anos, mora no bairro Santa Cecília, na região do Barreiro, e trabalha no Centro da capital. Ela usa a bicicleta apenas como lazer, pelo menos três vezes por semana.

“Se tivesse como ir até o trabalho, eu iria pedalando, porque gasto muito tempo de ônibus. Mas não arrisco pedalar no meio da rua, não me sinto segura”, afirma.

Para o metalúrgico Saulo Diniz Oliva, de 50, o maior obstáculo na ciclovia da avenida Levindo Coelho, no Barreiro, são os pedestres, uma vez que as faixas são usadas tanto por ciclistas quanto por quem faz caminhadas e corridas. “É perigoso alguém se machucar”, ressalta.

Segundo Márcio Aguiar, o ideal é que o espaço para os ciclistas seja segregado. “Que sejam ciclovias, criadas em parte das calçadas ou dos canteiros centrais, ou ciclofaixas, quando um pedaço da faixa de rolamento para veículos é transformada em exclusiva para quem pedala”, explica o mestre em transportes.

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