Compartilhar dados e se basear em informações. Essas são as premissas do delegado Rodrigo de Macedo Bustamante, há quase um ano à frente da Divisão Estadual de Fraudes, da Polícia Civil. Atualmente, ele coordena a criação do laboratório de combate a crimes cibernéticos em Minas e espera otimizar a resposta às vítimas desses delitos. E é lançando mão de dados que Rodrigo Bustamante também pretende chefiar o Departamento de Investigação de Crimes Patrimoniais (Depatri), cargo assumido por ele no início de abril. Nessa entrevista ao Hoje em Dia, ele comenta os desafios ocupando as duas funções, além de relembrar uma das maiores missões nos 16 anos na corporação: presidir o inquérito que apurou a tragédia de Fundão, em Mariana, na região Central do Estado.

Qual a expectativa em relação aos trabalhos do Depatri?

O departamento estará responsável por apurar ocorrências de roubo a banco e de carga, explosão de caixas eletrônicos, crimes rurais, dentre outros. É a parte operacional do Departamento de Operações Especiais (Deoesp), da Polícia Civil. Junto a outros órgãos que compõem a segurança pública mineira, e com a Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), temos a missão de trabalhar a inteligência policial para identificar e se antecipar às ações criminosas, desarticulando os grupos com prisões e, principalmente, apreendendo armas e explosivos, o que ajudará a reduzir esses crimes.

O departamento entra em operação, de fato, em 19 de maio. Qual o efetivo a ser empregado?

Ainda está sendo analisado. No segundo semestre, 450 novos investigadores serão formados, e podemos aproveitar alguns deles, mas expertise e experiência precisam ser levadas em conta. Nada impede também de trazermos policiais experientes para atuar no departamento.

“Se um cidadão for abordado na rua e não portar documentos, ele terá os dados rastreados por meio da impressão digital, que será coletada em aparelhos smartphones”

Os ataques a caixas eletrônicos em Minas ficaram mais violentos, até com mortes de agentes de segurança pública. Nesse sentido, qual o ganho se tem com o Depatri?

A especialização dos departamentos da Polícia Civil é um ganho tanto para a corporação quanto para toda a sociedade, e surge da evolução das demandas de crimes. Quando se especializa um departamento, há um trabalho específico para combater aquele determinado tipo de delito. Os policiais são mais bem treinados para isso e a resposta para a sociedade deve ser muito melhor.

Rodrigo Bustamante

O departamento também inova com a especialização nas investigações de crimes rurais?

Claro. Há muitos casos de roubo de gado e de maquinário e assalto a propriedades rurais. Viu-se a necessidade de se criar uma delegacia específica para apurar esses crimes.

Há novidades também na Divisão Estadual de Fraudes, também chefiada pelo senhor…

Teremos a divisão de crimes cibernéticos e consumidor. Um laboratório também está sendo desenvolvido para a investigação de crimes cibernéticos. O projeto apresentado à chefia, que abraçou a ideia, propõe criar em Minas um laboratório condizente com nossa grandeza e dar resposta para as vítimas desse tipo de delito da melhor maneira possível.

Como é a tecnologia que será usada no laboratório?

A mesma de ponta usada pela Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública), Ministério da Justiça e Polícia Federal. Levantamos os equipamentos com a tecnologia mais avançada que existe para termos mecanismos para investigar de maneira mais efetiva, excluindo toda possibilidade de falha em uma investigação.

Quando o laboratório entra em operação?

O projeto está sendo analisado e pretendemos que seja antes de 2019. Já temos a instalação física no terceiro andar do prédio da Divisão de Fraudes (no bairro Santa Efigênia, em BH). A aquisição dos softwares e do maquinário também está sendo analisada. A implantação custa dinheiro, e os valores estão sendo avaliados.

Uma outra novidade que está sendo discutida pela corporação é a identificação de pessoas nas ruas por meio da impressão digital. Como será esse procedimento?

Se um cidadão for abordado na rua e não portar documentos, ele terá os dados rastreados por meio da impressão digital, que será coletada em aparelhos smartphones. A partir daí, será possível saber se ele é realmente quem diz ser e se existe mandado de prisão contra ele. A iniciativa também possibilitará a coleta de digitais em locais de crimes.

Frequentemente a imprensa noticia vítimas de golpes que são velhos conhecidos. Mesmo com tanta tecnologia e acesso à informação, por que pessoas ainda caem na lábia de estelionatários?

A difusão da internet ampliou o leque de potenciais vítimas dos criminosos, que se aproveitam do anonimato proporcionado por alguns delitos. Em algumas plataformas virtuais há dificuldade para identificar o autor do crime. Porém, ele pode ser rastreado e descoberto em casos como clonagem de cartão de banco ou transferência bancária on-line. Existem usuários da internet que se preocupam com questões básicas de segurança, como atualizar o antivírus ou só fazer compras em sites conhecidos. Por outro lado, há quem, com o anseio de obter alguma vantagem financeira, clica em links tendenciosos, que levam a páginas falsas e acabam capturando dados pessoais do usuário. Muitas vezes, a culpa é da própria vítima que acredita estar sendo beneficiada com uma promoção imperdível, não verifica se a página na qual está inserindo informações pessoais tem o cadeado de segurança ou se o endereço do site começa com http.

Nesse vasto ambiente virtual, quais os crimes mais comuns?

Boletos e links de compras falsos, nos quais são inseridos dados pessoais. Pela internet, o criminoso tem um vasto campo para utilizar essas informações. O Facebook, por exemplo, chega a excluir postagens que chamam a atenção, como pedofilia e pornografia infantil. Mas há venda de notas falsas, carteira de habilitação e diploma do ensino médio, além de tráfico de drogas. A rede virtual é um balcão de negócios. A ideia que o bandido tem é que, com os acessos dos usuários, o negócio criminoso irá prosperar.

“A rede virtual é um balcão de negócios. A ideia que o bandido tem é que, com os acessos dos usuários, o negócio criminoso irá prosperar”

A competência de investigação de crimes contra a honra não é mais exclusiva da Divisão de Fraudes, passando para as delegacias distritais. A mudança representa melhorias?

Sim. Hoje, esse tipo de delito representa cerca de 80% da demanda da divisão. Porém, é um crime que depende de representação por parte da vítima. Muitas vezes, ela tem a vontade de representar criminalmente contra o autor. Porém, depois ela renuncia ao caso, não exerce o seu direito de formalizar a representação ou perde o prazo para isso ser feito. Fica, então, uma demanda parada em uma delegacia especializada onde o universo de crimes cibernéticos é bem amplo. Não deixa de ser grave, mas o crime contra a honra é de menor potencial ofensivo, e trazer esse tipo de atribuição para a divisão estadual é meio desproporcional. Dessa forma, distribuir entre as delegacias distritais foi uma melhoria na prestação dos nossos serviços à população.

Por que a vítima não dá continuidade à denúncia?

Na maioria dos casos, vítima e autor tinham um relacionamento amistoso antes de uma desavença entre eles. Quando ocorre um desentendimento, um começa a injuriar o outro. Porém, essas pessoas podem se entender posteriormente e ver que não há necessidade de prosseguir com a denúncia. Não há ilegalidade nessa conduta.

O senhor esteve à frente das investigações do rompimento da barragem em Mariana, em 2015. Ficou satisfeito com o resultado dos trabalhos?

Apuramos, concluímos o inquérito e o apresentamos ao Ministério Público. As pessoas que tinham poder decisório tinham conhecimento prévio da ruptura da barragem e nada fizeram para impedir a tragédia. A partir daí, elas foram responsabilizadas criminalmente por 19 homicídios dolosos e viraram réus no processo. Todo o nosso trabalho embasou a denúncia, o trabalho da Polícia Civil, que trabalhou unificada, foi muito bem feito. O meu trabalho não traz satisfação pessoal, mas sim profissional, e conseguiu elevar o nome da corporação a outro patamar.

Enfrentou alguma interferência durante as apurações?

Em nenhum momento houve qualquer barreira à investigação. Tivemos total autonomia e trabalhamos em parceria com vários órgãos, como a Polícia Federal, os Ministérios Públicos Federal e Estadual, a Assembleia Legislativa. Todas as informações foram divididas e compartilhadas. Ao final, apresentamos esse trabalho de excelência e não sofremos uma vírgula de crítica.