A falta de água em BH também está relacionada à diminuição da ocorrência de rios voadores, nos últimos três anos, de acordo com ambientalistas. O fenômeno é caracterizado pela formação de grandes nuvens de umidade na Amazônia, que são transportadas pelos ventos até o Centro-Oeste, Sul e Sudeste brasileiros, causando as chuvas. Com o aumento do desmatamento da floresta e as mudanças climáticas, os rios simplesmente não seguem viagem, causando a escassez hídrica.

No ano passado, foram registradas apenas 13 ocorrências do fenômeno na capital. Em 2013, 23, e, no anterior, 20. Em 2015, a situação parece pior. Nos últimos três meses, foram apenas três ocorrências. O levantamento é do Projeto Rios Voadores em parceria com o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) que, nesta semana, realiza uma formação com 700 educadores da rede pública de ensino em Minas Gerais.

 

Os chamados rios voadores contribuem para a falta d'água em BH

 

Funcionamento

A diminuição da quantidade de árvores na Amazônia impede o fluxo de umidade para outras regiões, segundo a coordenadora do projeto, Margi Moss.

“Uma única árvore de médio porte joga 300 litros de água na atmosfera por dia. Aquelas imensas jogam mil litros. É uma caixa d’água que deixa de ser fornecida. Se você multiplica por 600 bilhões de árvores que existem na floresta, a quantidade do recurso é exorbitante”, explica.

De agosto de 2013 a janeiro de 2014, os alertas de desmatamento na Amazônia Legal registraram aumento de 90,5%, de acordo com dados do Sistema de Detecção de Mapeamento em Tempo Real (Deter) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A área destruída subiu de 1.162,7 quilômetros quadrados (km²) para 2.215,5 km².

Não por acaso, 2014 ficou entre os cinco anos mais secos na capital mineira, em mais de 100 anos de medições do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Em janeiro deste ano, o mês mais seco na cidade no último século, nenhum rio voador foi registrado.

“Esses rios circulam sobre as nossas cabeças e muita gente não sabe. Nos últimos três anos, as ocorrências reduziram pela metade. Isso impactou negativamente as precipitações”, destaca o fundador do projeto, Gérard Moss.

Outro fenômeno que tem dificultado as chuvas, alerta Gérard, são os bolsões de ar quente criados pela poluição e desmatamento em BH, que impedem a chegada dos rios voadores.

Formação de professores visa incluir tema em projetos de ciências e geografia
Este ano, as escolas da rede pública de ensino de Belo Horizonte irão contar com conteúdos sobre os rios voadores, em projetos transversais às disciplinas, como ciências e geografia. Desde a última quarta-feira, 700 professores participam de uma formação do Projeto Rios Voadores.

Além dos docentes de BH, professores de Contagem, Betim e Mário Campos foram contemplados com a formação, que tem como objetivo difundir a importância da Floresta Amazônica e o papel dela no regime de chuvas de outras regiões do Brasil.

“Os rios voadores serão inseridos como projetos em sala de aula, nas oficinas das escolas integrada e aberta e, de alguma forma, os professores das diversas disciplinas vão desenvolver trabalhos relacionados ao tema”, explica a coordenadora do Núcleo Cidade Meio Ambiente da Secretaria Municipal de Educação (Semed), Elizabeth Alvarenga Martins.

As oficinas do projeto já passaram por 11 cidades ao longo da rota dos rios voadores e formou mais de dois mil educadores. “Procuramos passar o conhecimento sobre o que é o fenômeno e como isso pode ser traduzido para a linguagem do aluno”, destaca o professor formador, Caio Augusto Magalhães.

Difusores

Professor da escola integrada da rede municipal de BH, Tristão José Macedo pretende levar para os alunos o que aprendeu na formação. “Dá para fazer um trabalho com as crianças no sentido de fazê-las refletir sobre a falta de água e como o planeta se organiza para ter vida”, afirmou.

Nas aulas de ciências, Cilene do Carmo Batista, professora da rede municipal, também irá abordar a temática. “Vamos orientar os alunos para que eles sejam multiplicadores desse conhecimento”.

O projeto, patrocinado pela Petrobras, faz parte do Brasil das Águas que, desde 2013, chama a atenção para a preservação das águas doces do país.