Em uma verdadeira luta pela sobrevivência, pacientes da Santa Casa de Montes Claros, no Norte de Minas, relatam histórias carregadas de dor e angústia, diariamente. O maior hospital daquela região do Estado padece de falhas na hora de prestar socorro. Quem procura atendimento enfrenta um pronto-socorro sempre lotado, com longa espera por ajuda.

Um mês após o Hoje em Dia mostrar o drama dessas pessoas e a má aplicação dos recursos disponíveis na área da saúde na cidade, muito pouco ou quase nada mudou. Moradora de Engenheiro Dolabela, a 96 quilômetros de Montes Claros, Ana Ercília Brito, de 34 anos, estava nesta quinta-feira (30) no hospital. Ela levou o pai, o lavrador João Brito, de 55, que reclamava de dores renais. 

Eles tiveram que esperar nada menos do que dez horas por atendimento. Ana Ercília chegou ao pronto-socorro 7h, mas os médicos só chamaram João Brito às 17h. “Para mim, o grande problema da Santa Casa é mesmo a gestão. Os médicos até têm boa vontade, mas não há condições de trabalho para que eles possam acelerar o atendimento de tanta gente que precisa, como meu pai”, desabafou a mulher.

Drama semelhante enfrentou Geraldo Ferreira, de 45 anos, que estava com a mãe, Maria José Ferreira, de 84. No último sábado (25), ela sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Chegou à unidade de saúde na manhã daquele dia, mas, apesar de precisar de atendimento urgente, só foi socorrida no dia seguinte. “Agora o quadro é estável, mas temi pela vida dela”, disse.

Um mês depois

Em 1° de junho, o Hoje em Dia mostrou as cifras bilionárias indo pelo ralo na área da saúde devido à corrupção e mau uso de recursos públicos do Ministério da Saúde. De 2002 a março deste ano, a perda foi de R$ 4,6 bilhões. Auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) mostravam que a principal irregularidade era a aplicação dos recursos.

Montes Claros é um exemplo. Desde agosto de 2015, o sistema de saúde da cidade está sob gestão estadual e, a partir de então, o número de atendimentos de média complexidade no município caiu significativamente.

A Santa Casa foi a unidade que mais reduziu a realização de diversos procedimentos, no comparativo dos períodos analisados. Em 2014 foram 160,7 mil e, no ano passado, 130,8 mil.

O problema da Santa Casa de Montes Claros não se limita só aos pacientes em busca de socorro. Falta transparência para prestar contas à população. Em maio deste ano, antes da reportagem publicada, a instituição foi procurada por telefone e via e-mails, por mais de uma vez. Em nenhuma ocasião foi obtida resposta. Ontem, novamente foi procurada, mas até o fechamento desta edição não houve retorno.

A Secretaria Estadual de Saúde (SES) esclareceu que não há atrasos nos repasses à Santa Casa de Montes Claros. Acerca dos valores, a SES informou ao Hoje em Dia que foram repassados R$ 32.592.728,50 em 2015, e que existe uma ordem de pagamento de R$ 41.592.257,88 até 1º de julho.

Santa Casa de Montes Claros
ESTRUTURA – Santa Casa é o maior hospital do Norte de Minas

Entenda o caso

- Em 2013 e 2014, a Prefeitura de Montes Claros passou a repassar aos hospitais da cidade apenas valores referentes aos procedimentos realizados junto à população

- Desta forma, o índice da prestação do serviço cresceu até o cumprimento quase total do que foi contratado. Anteriormente, o Fundo Municipal de Sáude – composto por dinheiro público da União, Estado e Município – era repassado aos hospitais independentemente da execução e comprovação dos procedimentos

- Porém, desde agosto de 2015, o sistema de saúde do município do Norte de Minas está sob gestão estadual e, a partir de então, o número de atendimentos de média complexidade na cidade caiu consideravelmente

- Dados do Ministério da Saúde apontam que, no comparativo entre agosto a dezembro de 2013 em relação ao mesmo período de 2015, houve um decréscimo nos atendimentos em 21%

- Ainda em 2013 e 2014, o percentual de cumprimento dos contratos foi quase integral (98%) mas, no ano passado, caiu para 77%

- Conforme relatório da Secretaria Municipal de Saúde, desde que a prefeitura perdeu a gestão plena, cancelamentos de procedimentos e exames nos hospitais da cidade são frequentes. A alegação é a de que falta de pessoal ou equipamentos