Enchentes, árvores afetadas por pragas, poluição da Lagoa da Pampulha e combate à febre maculosa, só para citar alguns exemplos. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belo Horizonte garante que acompanha de perto os problemas da capital. Mas, por maior que seja o esforço da gestão, parte do trabalho esbarra na falta de recursos, diz o secretário da pasta, Mário Werneck. Na última semana, ele concedeu entrevista exclusiva ao Hoje em Dia.

Levando em conta que Belo Horizonte está em situação de emergência por causa das chuvas, do ponto de vista do meio ambiente, existe uma solução para reduzir os impactos dos temporais na cidade?
Esse problema não é apenas de Belo Horizonte. É um problema das capitais brasileiras. Porque tivemos a lamentável ideia de adensamento do solo a partir dos anos 70 como sensação de progresso e ocupação dos espaços. Muitos desses espaços difíceis de serem ocupados, que são as encostas. Os rios metropolitanos, em Belo Horizonte temos vários deles, se tornaram não existentes do ponto de vista do ser humano, de visualizá-los. Como foram todos tampados, viraram as famosas avenidas sanitárias dos anos 70. Isso trouxe grandes problemas para Belo Horizonte e para todas as cidades. Quando chove em São Paulo, por exemplo, é um Deus nos acuda.

Mas isso é reversível?
É reversível desde que o governo federal consiga recursos de cunho internacional. Para resolver os problemas de uma cidade como Belo Horizonte, os valores são exorbitantes. Como vai tirar uma avenida que está ali, voltar os rios, alargar as galerias? Então, isso tem que ser feito a longo prazo. Você não pode resolver isso em quatro anos por mais boa vontade que se tenha. Por mais que o prefeito trabalhe, nós não podemos colocar nas costas dele uma carga de mais de cem anos.

O Plano Diretor que está para ser votado na Câmara Municipal, traz alguma mudança que possa amenizar os danos causados pelos temporais?
Nós temos lutado bastante na nossa secretaria tentando mostrar para os empreendedores que determinados projetos são inviáveis. Por exemplo, a gente tem o “Minha Casa, Minha Vida”, mas você não pode colocá-lo em uma área de encosta ou ao lado de um rio que ainda exista. É muito complicado. A gente tem que passar a entender que o Plano Diretor, por maior possibilidade de melhorar o parcelamento do solo, não pode impedir o que já está aí. E o que já está aí é muito ruim. Nós temos centenas de áreas de risco. O prefeito praticamente não dorme quando o céu escurece, porque ele herdou problemas de mais de 50 anos.

E as árvores? Assim que chove, muitas começam a cair em Belo Horizonte. Tem algo previsto para minimizar isso?
Acabei de editar uma publicação no Diário Oficial do Município (DOM), onde coloco uma espécie de quadro em que o técnico especificará e colocará “um sim”, ou “um não”, em todas as condições adversas fitossanitárias. Ou seja, o técnico quando for avaliar uma árvore vai ter em mãos o laudo. Ele vai assinar o documento e nós vamos colocar um “de acordo” para a árvore ser mantida ou sacrificada.

É complementar a uma deliberação normativa publicada recentemente... 
São duas coisas diferentes. A deliberação especificou a forma como vamos trabalhar. Mas, teríamos que ter o impresso para especificar os defeitos que a árvore tem. Agora, temos um laudo oficial.

E o inventário das árvores? Como está? 
Nós temos um inventário com 300 mil árvores em logradouro público. A estimativa é que existam 500 mil nessas áreas. Somando com as de parques, temos 1,2 milhão em Belo Horizonte. Tentaremos dar prosseguimento ao trabalho, mas a gente tem uma gama significativa de estudos onde podemos submeter à poda ou à supressão.

O que aponta esse trabalho?
Mapeamos a origem da árvore, tipologia, metragem, localização. Agora, com base no inventário, principalmente na região Centro-Sul que é a mais adensada, nós procederemos a poda e a supressão daquelas que precisam ser vistas de forma mais especial. O inventário está parado. Nós estamos tentando fazer uma nova licitação, levantando recursos porque o valor disso é altíssimo. Para fazer o inventário temos que ter R$ 5 milhões em mãos.

Mário Werneck

Já dá para traçar um diagnóstico de quantas árvores precisarão ser cortadas? 
Isso é relativo. Mas nós temos um levantamento de 2 mil árvores que devem ser monitoradas por causa de besouro metálico, mosca-branca, problemas na copa, na raiz. Essas, que estamos dando prioridade, estão principalmente nas regiões Centro-Sul e Pampulha. 

E como estão os trabalhos de combate ao besouro metálico? Ainda temos um surto?
A gente não pode falar que deixou de ter um surto porque é um problema que se alastrou, mas foi estabilizado. Há muito tempo não cai uma árvore com besouro ou mosca-branca. Já cortamos 1.800 por causa do besouro.

E sobre a febre maculosa? Como estão os trabalhos de manejo das capivaras? 
Excelentes. Hoje, nós temos em torno de 15% das 75 capivaras já esterilizadas, o equivalente a 12. Temos estrutura montada na Pampulha, com trabalho de veterinário e toda uma equipe de especialistas. Estamos com controle do carrapato usando carrapaticida, monitorando as áreas de risco e isso é uma das grandes vitórias dessa gestão. Tanto é verdade que você não tem visto esse problema.

Quando o processo de esterilização das capivaras deve terminar?
A gente acredita que em julho. Mas, nosso prazo definido no acordo com o Ministério Público é outubro. Mas, a gente acha, não garante, que até julho já terá sido finalizado. 

O manejo deve ser estendido para outros animais que circulam? 
Tem que ser olhado sob o ponto de vista do que foi pedido pelo Ministério Público. Acho que isso deveria ter uma participação maior do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) porque os animais são silvestres. Belo Horizonte está fazendo o que pode por um problema que ela não criou. As capivaras não são de Belo Horizonte, mas estamos trabalhando de forma muito profissional. 

É possível afirmar que não há risco contrair febre maculosa em Belo Horizonte?
Se eu entrar em um carro de um motorista de táxi e perguntar: ‘você vai bater o carro?’. Ele vai dizer que a princípio não, mas claro que pode acontecer da gente sair e vier um veículo na contramão e bater de frente. Então, por exemplo, se uma pessoa sai de Santa Luzia ou Lagoa Santa (na região metropolitana), em cima de um cavalo, para na Lagoa da Pampulha e nesse cavalo tiver um carrapato-estrela, não podemos ter esse controle. O que estamos fazendo é monitorar uma região que nos pertence.

Então o alerta continua?
Continua e nunca vai parar. Nós vivemos em um país tropical de muitas matas.

Como estão os trabalhos de recuperação da Lagoa da Pampulha, que recentemente alcançou a chamada classe 3, que aponta melhoria na qualidade da água?
Ainda está nesse nível. Os recursos que deveriam ser utilizados deveriam vir internacionalmente, do Banco Mundial. O que conseguimos já foi muito interessante. A Copasa está nos ajudando muito. Já está liberada para a prática de esportes náuticos, mas um grande problema é a presença dos jacarés. 

Quantos jacarés estão na lagoa e o que tem sido feito?
Foram aprovados no Comam (Conselho Municipal do Meio Ambiente) recursos de R$ 80 mil para que a gente pudesse fazer o trabalho de monitoramento para alavancar informações da população de jacarés.

Mas temos ao menos uma noção de quantos animais estão na lagoa?
Não, porque, por exemplo, na Ilha do Amor (um terreno isolado das margens da lagoa), onde está tudo coberto de mato, os jacarés ficam fora e dentro da água.