No aniversário de um ano do título de Patrimônio Cultural da Humanidade, celebrado hoje pela Pampulha, não há muito o que se comemorar. Seguem paralisadas as promessas de reformas, obras de readequação e preservação da estrutura original. Os compromissos firmados foram fundamentais para o reconhecimento global pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Dentre as modificações recomendadas, que devem estar encaminhadas em até três anos, estão a demolição do prédio anexo ao Iate Tênis Clube, restauração da fachada da Casa do Baile e do paisagismo de Burle Marx na praça Dino Barbieri e o tratamento da água da Lagoa da Pampulha. Dessas quatro, somente a última foi cumprida.

Casa do Baile - Pampulha

Engenhosa construção do arquiteto Oscar Niemeyer é um dos espaços mais visitados na região

“O pior problema, para mim, é a qualidade das redes de esgoto. Os critérios que tinham atendido para que a lagoa estivesse limpa para esportes náuticos estão, aos poucos, sendo abandonados. Infelizmente, os próprios moradores deixam sujeira, principalmente nos finais de semana. Nas épocas de chuva, o lixo é arrastado para a água” 
Ariel Plaza
39 anos, engenheiro químico

Além disso, a reforma da Igrejinha se arrasta desde 2014, quando o edital para as obras foi publicado. Com início previsto para o primeiro semestre do próximo ano, as alterações, orçadas em R$ 1,4 milhão, já têm recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas, conforme a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap).

No entanto, o restauro ainda não ocorreu porque a Arquidiocese de BH agendou casamentos na capela até novembro de 2017. As obras no Museu de Arte da Pampulha também ficaram para o próximo ano, em agosto, e contarão com uma verba federal.

Entrave

Todas as intervenções estão dentro do prazo previsto e devem ser concluídas até o fim da atual gestão, diz o diretor do Conjunto Moderno da Pampulha, Gustavo Mendicino, da Fundação Municipal de Cultura de BH. Porém, o responsável pelo complexo admite que a demolição do prédio anexo ao Iate – construído em período posterior ao do conjunto – é ainda o principal entrave.

Museu de Arte da Pampulha

Ornamentado por vidros e espelhos, Museu de Arte foi erguido para abrigar um cassino

 

“No início, achei que iam ocorrer as reformas prometidas, mas depois vi que não existem muitas chances de demolirem a academia do Iate. Acho difícil. E a prefeitura teria que fazer muitas adequações, principalmente aqui na orla, porque precisa voltar ao paisagismo original. A lagoa está completamente suja, igual ao jeito que sempre esteve. É uma pena, porque a Pampulha é um dos poucos espaços de Belo Horizonte que conecta lazer e esporte” 
Júlia Machado
19 anos, estudante 

“É uma obra cara e envolve muitas pessoas. Nosso objetivo é conseguir conciliar da melhor maneira”. Por atrapalhar a visibilidade total do complexo, a área do clube foi desapropriada pela prefeitura em fevereiro do ano passado. A medida foi tomada para que o sítio pudesse pleitear o título da Unesco. Mas, desde então, as discussões entre a diretoria do Iate e a PBH, mediadas pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), estão paradas.

O projeto arquitetônico da reforma ainda não foi feito e o Iate afirma, em nota, que “aguarda, com alguma ansiedade, que administração municipal, Iepha (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais), Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e Ministério Público retomem os estudos e negociações iniciadas em 2016”. 

Igrejinha da Pampulha infiltração

Forro da Igrejinha apresenta infiltrações

“A única coisa que melhorou bastante foi a limpeza da lagoa, a água está com mais qualidade e mais clara. Para mim, isso foi bem significativo, só não sei se continuam cuidando dela. Eles também tiraram a pichação da Igrejinha. Mas aqui, onde fico com minha barraquinha, não sinto muita melhora porque o parque está fechado e deu uma reduzida no comércio”
Bruno Barbosa Canela
62 anos, comerciante

Negociação

Conforme Mendicino, o projeto deve ficar pronto nos próximos meses. No anexo, o Iate mantém uma academia e um salão de eventos, importantes fontes de renda para o clube. “A prefeitura pode contribuir para que um outro terreno seja entregue ao Iate? Pode. Está na base da negociação, desde que isso se justifique para um bem coletivo”.

Visitas ao complexo turístico da capital crescem após chancela internacional

O reconhecimento internacional aumentou em quase 20% as visitas ao complexo. Os dados são da Fundação Municipal de Cultura. O número se refere às visitas à Casa Kubitschek, ao Museu de Arte da Pampulha e à Casa do Baile, entre janeiro e maio deste ano. Foram 67.132 contra 56.167 do mesmo período de 2016, antes do título.

Na semana passada, o jornalista Kevin Furtado, de 26 anos, esteve no local. O paranaense aproveitou as férias para conhecer o cartão-postal. Na opinião dele, o conjunto moderno está “bastante integrado” à vida dos moradores de BH. 

Apesar disso, Kevin sente que faltam espaços de lazer na região. “A Pampulha é um bom lugar para caminhar, correr e praticar esportes, mas faltam incentivos para isso”, diz.

Há duas situações que podem comprometer o título: a perda das características originais do patrimônio e a falta de intervenções solicitadas pela Unesco

Manutenção

Para verificar a conservação e as obras de adequação, a Unesco pede que os países enviem relatórios anuais ao comitê mundial. O documento deve reportar o estado de preservação dos sítios. Caso isso não ocorra, é necessária uma justificativa para que o local não perca a chancela, explica a coordenadora interina de Cultura da Unesco no Brasil, Rebeca Otero.

Em casos extremos, locais degradados podem compor a lista de patrimônios em perigo. Os espaços são acompanhados de perto pela Unesco, inclusive com a realização de visitas técnicas. No fim do ano, o Brasil deverá enviar um relatório para a organização. Rebeca descarta, porém, a possibilidade de a Pampulha integrar essa lista de risco. 

“Por enquanto, a Pampulha está bem. Faz só um ano que foi transformada em sítio cultural. Há um trabalho do país na questão da preservação. Estamos acompanhando”, diz.