Análises preliminares da Polícia Civil de Minas não encontraram indícios de que tenha havido tentativa de sequestro da menina Manuela, de 1 ano e cinco meses,  em uma parada de ônibus no Sul de Minas, conforme relato e queixa policial feitos pela mãe da criança, a estudante Jamille Edaes, que também alega que houve racismo durante o episódio. Segundo Jamille, uma mulher branca de aproximadamente 30 anos tentou roubar sua filha na saída do banheiro em uma parada de ônibus em Perdões, no Sul de Minas, durante uma viagem entre São Paulo e Belo Horizonte na última segunda-feira (26). Como Jamille é negra e a filha é branca, a maioria das pessoas teria ficado ao lado da suposta sequestradora, segundo o relato. 

De acordo com o delegado Ailton Pereira, da Delegacia de Lavras, onde foi aberto inquérito para apurar o caso, a Polícia Civil não encontrou nenhum indício de que tenha havido uma tentativa de sequestro na parada de ônibus em Perdões. As imagens das câmeras de segurança da parada Graal foram entregues para a perícia e todos os passos de Jamille e da filha dentro do estabelecimento estão sendo verificados. A perícia ainda não foi concluída, mas, até o momento, a Polícia Civil não encontrou uma imagem que comprove o relato de Jamille.

“Ela entra no estabelecimento e compra um salgado. Sai e depois volta para comprar um suco, sempre com a menina por perto. Não há nenhuma imagem que mostre que ela tenha ido ao banheiro. Ela volta ao ônibus tranquilamente”, afirma o delegado. “Não há nenhuma cena que mostre uma mulher tentando roubar a criança”, aponta.

Na postagem feita pela estudante de 22 anos no Facebook na última segunda-feira (26) – com mais de 125 mil compartilhamentos –, ela diz que uma mulher teria abordado a criança na saída do banheiro.

“Entrei no banheiro com minha filha que tem apenas 1 ano e 5 meses, e na saída uma moça bonita com aparentemente uns 30 anos deu a mão a ela. Eu achei que ela estava brincando então não me importei muito, quando do nada essa moça começou a gritar : solta a minha filha. Eu fiquei meio que sem reação, meu primeiro impulso foi pegar a #Manuela no colo e tentar sair de perto. Ela veio atrás gritando e tentando puxar a minha filha do meu colo. Ninguém fazia absolutamente nada”, relatou Jamille pela rede social.

Próximos passos

Pereira disse que vai ouvir funcionários da parada de ônibus Graal e a própria Jamille, que fez a denúncia na Delegacia de Betim, cidade onde mora. A Polícia Civil está investigando os crimes de subtração de menor de idade, injúria e constrangimento ilegal. Caso o relato de Jamille não seja comprovado nas investigações, ela poderá responder por comunicação falsa de crime, cuja pena é de um a seis meses de detenção ou multa.

O gerente de marketing local do Graal, Emílio Vasconcelos, afirma que Jamille só teve um rápido contato com um funcionário do estabelecimento. "Ela teve uma conversa muito rápida com o caixa. Como a menina estava correndo, teve um momento em que a mãe falou com o caixa: 'Cerca ela para mim'. O caixa ajudou a não deixar a menina sair. A moça agradeceu e saiu. Foi o único contato com um funcionário durante os 20 minutos em que esteve no local", garante o gerente.

Segundo ele, foram entregues para a Polícia Civil duas horas de gravações das câmeras de segurança - são 16 no total - para comprovar que não houve edição sobre os 20 minutos em que Jamille esteve no local, das 14h40 às 14h59. "As imagens mostram que ela anda pelo nosso self-service, demora para escolher o que comer, enquanto a criança brinca pelo local. Depois ela paga, sai e espera pelo ônibus na plataforma. Não  há nenhuma imagem que mostre ela conversando com alguém", diz Vasconcelos, que garante que a jovem não foi ao banheiro.

O gerente diz ainda que, após a conclusão da investigação, o Graal deve acionar Jamille judicialmente. Especialmente porque, na manhã desta quinta-feira (29), a estudante esteve no programa "Fátima Bernardes", da Rede Globo, e afirmou ter sido alvo de racismo por parte de uma funcionária da parada de ônibus. "Vamos exigir uma retratação pública", afirma o gerente. 

Jamille e o marido, Roberto Edaes, foram procurados pela reportagem para comentar  as investigações, mas não atenderam aos telefones. A representante legal de Jamille afirmou que existe uma testemunha que presenciou a tentativa de sequestro da criança e a injúria racial. A injúria teria sido promovida por uma funcionária do Graal.

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Entenda o caso

No Facebook, Jamille relatou que a filha, Manuela, foi vítima de uma tentativa de sequestro durante uma viagem de ônibus na segunda-feira (26) entre São Paulo e Belo Horizonte. No Graal de Perdões, após ir com a filha até o banheiro, ela viu uma mulher pegar a menina pela mão, mas achou que fosse uma brincadeira. Quando Jamille chamou pela menina, a suposta sequestradora teria gritado que era a verdadeira mãe da criança e apresentado uma certidão de nascimento falsa, possivelmente de outra criança – o documento seria de uma menina chamada Jéssica, de 1 ano e 8 meses.

Jamille conta que teve de mostrar o documento de identidade da filha e fotos da família no Facebook para provar que era a verdadeira mãe da criança. “Corri, chorei, pedi a ajuda e todos falando: ela não é sua filha, ela é branca, ela não se parece com você. Pelo amor de Deus, como assim? Minha filha não é minha filha porque eu sou negra? O pai dela é branco e ela realmente se parece mais com ele que comigo. Me seguraram, quiseram me bater, falaram que eu estava sequestrando uma criança”, escreveu Jamille. Ela afirma ter chamado a polícia, mas o motorista do ônibus em que viajava teria dito que não iria esperar pelos militares para o registro do boletim de ocorrência porque tinha horário a cumprir. Mãe e filha seguiram viagem, enquanto a suposta sequestradora ficou em Perdões.