No mesmo ano em que 70 mil veículos a mais passaram a circular nas ruas de Belo Horizonte, pelo menos 4 mil pessoas deixaram de utilizar o metrô da capital, diariamente. A média de passageiros em 2016, de 198 mil a cada 24 horas, foi a menor dos últimos cinco anos. 

Para especialistas, a queda comprova a ineficiência do sistema e a necessidade urgente de expansão da malha, o que esbarra na falta de recursos. Atualmente, são apenas 28,1 quilômetros ligando a estação Vilarinho, na região Norte da capital, ao Eldorado, em Contagem, na Grande BH.

Além da limitada extensão dos trilhos, que precariza o modal, a implantação do Move também contribuiu para o recuo de usuários. “O metrô é bem mais rápido, mas, além de não nos levar a todos os lugares, é menos confortável que o BRT”, afirma Rayane de Jesus Pereira, de 22 anos. Moradora do bairro Mantiqueira, em Venda Nova, Rayane precisa pegar um ônibus para chegar à estação mais próxima do metrô. O caminho é feito diariamente para que ela chegue ao estágio. 

“Acho o metrô rápido e confortável, mas ando mais de carro porque a linha de metrô é muito curta. Acaba sendo mais cômodo usar o carro”
José Rosa Santos
Metalúrgico

Justificativa

Além da implantação do BRT em BH, que dá mais opções aos usuários, a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) alega que a queda também é resultado da crise econômica e o aumento do desemprego. 

“A crise é sim um dos componentes, mas tem também uma transferência desses usuários para os carros particulares, em várias partes do país, por causa da ineficiência do transporte público”, afirma o consultor em transporte e trânsito Osias Batista Neto.

Expectativas

A novela do metrô em BH se arrasta há décadas. No papel, o plano é construir outras três linhas e ampliar a já existente. Segundo a Empresa Pública Trem Metropolitano de Belo Horizonte (Metrominas), ligada ao Governo do Estado e responsável pela formulação desses projetos, além da revitalização do atual traçado, será implantado um trecho de 1,5 quilômetro entre o Eldorado e o Novo Eldorado, em Contagem. Os projetos de engenharia estão prontos.

Também já foram finalizados os projetos da Linha 2, com 10,5 quilômetros, ligando o Barreiro à Nova Suíça, e da Linha 3, de 4,9 quilômetros subterrâneos, entre Lagoinha e Savassi. O órgão elabora projetos do trajeto de 20,5 quilômetros entre o Novo Eldorado e Betim. A previsão é que fique pronto no primeiro semestre de 2018.

Problema é que tais obras não têm data para ocorrer, avisa o Ministério das Cidades. Nem há verba para qualquer intervenção neste ano, como mostra documento no site da CBTU.

Trilhos do metrô de BH

Dados preliminares mostram, em 2017, uma média diária de 195,4 mil passageiros

“O metrô de Belo Horizonte liga lugar nenhum a nenhuma coisa. Eu praticamente não uso porque não passa nos locais que frequento”
Augusto Lamas Fortunato
Estudante

Sem regionalização, Metrominas será empresa fantasma e sem função, diz especialista

Além da falta de recursos, os investimentos na ampliação do metrô de BH esbarram em outra limitação: a burocracia. Não há sequer a definição de qual órgão ficará responsável pelo gerenciamento do sistema.

Atualmente, o metrô é administrado pela CBTU, ligada ao Ministério das Cidades. Porém, conforme a pasta federal, novas obras dependem da descentralização da companhia e da transferência das responsabilidades para a Metrominas, que assina os projetos de engenharia. “As tratativas estão em andamento e o governo federal estuda a estratégia para viabilizar a operação”, resumiu o ministério na nota enviada.

“Não vamos ter expansão de metrô se ficar na esfera federal. A Metrominas foi criada justamente para assumir esses projetos”, afirma o pesquisador da Fundação João Pinheiro e ex-diretor da Agência de Desenvolvimento da Região Metropolitana, José Osvaldo Lasmar.

Ele acredita que a regionalização do metrô é a solução. Porém, Lasmar defende que, durante um prazo, o governo federal continue arcando com os gastos.

“Com a regionalização, a Metrominas poderá ser um núcleo de inteligência para pensar melhor os investimentos a serem feitos. Caso contrário, vai ser uma empresa fantasma e sem função”, afirma Lasmar.

Metrô de BH

Estações do metrô de BH estão vazias

Metrominas afirma que mantém uma estrutura enxuta de servidores e ressalta a importância do diálogo com a União

20 anos de tratativas

Implantada em 1997, durante o governo Eduardo Azeredo, a Metrominas foi criada para operar o transporte de passageiros sobre trilhos da Grande BH. Logo nos primeiros anos começou o debate sobre a necessidade de regionalização do metrô de BH, mas sem conclusão.

Exemplo de estaduali-zação bem-sucedida é o metrô de Salvador, na Bahia. Lá, a mudança no gerenciamento do modal começou em 2013, por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP). Melhorias estão previstas até 2043.

Além Disso

Com as receitas em queda devido à redução de passageiros e cortes nos repasses federais, a CBTU teve que ajustar os contratos firmados com fornecedores. Segundo o presidente do Sindicato dos Metroviários, Romeu José Machado Neto, o órgão já sinalizou que irá reduzir o número de funcionários. Em nota, a CBTU explica que o quadro de pessoal é gerenciado pelo governo federal. Um Plano de Demissão Voluntária (PDV) está sendo negociado com a Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (SEST) em todo o país, ainda sem definição de data e desligamentos.

Metrô de BH