Antes mesmo do anúncio que pode consagrar o Conjunto Moderno da Pampulha como Patrimônio Cultural da Humanidade, Belo Horizonte já se articula para colher os louros resultantes do título. Nesta semana, a Belotur se reúne com agências de turismo nacionais para colocar BH na rota das grandes operadoras e incrementar o potencial turístico da capital. Já está sendo confeccionado um novo mapa da cidade que vai ganhar ainda dezenas de Centros de Atendimento ao Turismo (Cats) operacionais. 

O parecer da Unesco, que sai em exatos 25 dias, deve representar uma mudança drástica na forma de se pensar o turismo em Belo Horizonte. Se as projeções de aumento do turismo forem confirmadas, é preciso que a cidade esteja preparada para atender à demanda. Esse deve ser o maior desafio em meio a um período de crise que resultou na redução do orçamento da Belotur em cerca de 25%.

Esse é um dos pontos abordados pelo presidente da Belotur, Leônidas Oliveira, que também é titular da Fundação Municipal de Cultura, em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia.

De que forma a crise econômica atual afeta o turismo de Belo Horizonte?

A crise econômica macro instituída no país, o aumento da inflação, com reflexo nas passagens e produtos, impactam também no turismo, que passa por um momento delicado. Sobretudo porque as pessoas normalmente viajam, tanto para negócios quanto para turismo, quando a situação econômica permite. Do contrário, isso resulta em uma baixa ocupação dos hotéis.

 

“Houveram cortes, relacionados com a queda orçamentária, mas foram mantidos projetos prioritários, que são indutores de turismo em Belo Horizonte”

A questão financeira também resultou em um encolhimento dos recursos disponibilizados para a área?

Houveram cortes diretamente relacionados com a queda orçamentária, não foi corte de uma pasta ou outra, ou de área específica. Foram cortes analisados de acordo com a queda de arrecadação do município. No caso da Belotur, foram mantidos projetos prioritários, que são indutores de turismo. Houve um enxugamento muito claro da máquina da Belotur, de forma a sobrar dinheiro de custeio, que é dinheiro de ação corrente para investimento no turismo. 

Que tipo de investimento?

Nós estamos fabricando um mapa turístico de Belo Horizonte bilíngue ampliado. A ideia é que ele seja em 3D, identificando pontos turísticos, inspirado em um modelo bem europeu de vender os atrativos da cidade, não só os culturais e de lazer, como também os atrativos de negócios. Esse mapa vai compor o guia turístico existente da cidade. Nós estamos trabalhando na confecção de pelo menos 50 mil mapas, e a previsão é que no segundo semestre eles já estejam circulando. Os Centros de Atendimento ao Turismo (Cats), que eram três, hoje vão se transformar em 40. Vamos viabilizar, em parceria com a Fundação Municipal de Cultura, que, na recepção de um museu ou de um centro cultural, ou de um centro de referência, vamos ter informações turísticas. Vamos unir uma coisa a outra.

O próprio belo-horizontino não conhece os atrativos da cidade. Como mudar esse cenário?
Educação. Nós estamos formando 250 professores que vão trabalhar o turismo, ensinar para as crianças como se faz turismo: o turismo local, trabalhar o interesse de ir para outras cidades, de conhecer o mundo, o seu bairro, o que a cidade tem. Esses 250 professores vão repassar isso para 10 mil alunos. A ideia é que isso chegue nos 200 mil alunos da rede municipal. Nós acreditamos muito na importância de educar as pessoas para o turismo cultural, despertar isso nas crianças é despertar isso também nos pais.

 

“Estamos formando 250 professores que vão trabalhar o turismo, ensinar para as crianças como se faz turismo. Nós acreditamos muito na importância de educar as pessoas para o turismo cultural. Despertar isso nas crianças é despertar isso também nos pais”

Atualmente, qual o evento que você considera como o mais importante para a cidade?

O evento que eu acredito que tem que ter uma força de investimento e de apoio da prefeitura muito grande é o Carnaval. O Carnaval de BH se transformou nos últimos anos no quarto maior do país, e mobiliza uma cadeia produtiva enorme. Esse ano foram R$ 50 milhões. Com um outro perfil, temos o Arraial de Belô que tinha dez atividades e era muito centrado na Praça da Estação, e hoje tem mais de 200 atividades, inclusive quadrilhas nos bairros. Esse é um dos papéis da Belotur, se envolver com a cidade e mostrar que não é só o Arraial de Belô, feito pela Belotur, que é um atrativo. Existe, por exemplo, um arraial de rua nos bairros e as pessoas vão para lá.

E como está o planejamento para o Carnaval do ano que vem?

O evento vai ser desenhado a partir de reuniões públicas com blocos e moradores, mas já temos os eixos que vão nortear o evento: participação popular, livre manifestação da cultura e infraestrutura. Essa última oferecida pela prefeitura para os blocos, mas sabendo que eles têm autonomia na liberdade de criação e de circulação no espaço público. A Belotur está pronta para apoiar todos os grupos que buscarem a ajuda da prefeitura com fornecimento de banheiros, gradis, segurança e condição de circulação. Neste ano foram mais de 200 com apoio da Belotur. Outros grupos querem manter o caráter autônomo. É muito bacana também, é lícito.

Leônidas Oliveira, presidente da BeloturLeônidas também é presidente da Fundação de Parques de Belo Horizonte

Toda essa perspectiva do turismo em BH deve mudar a partir do anúncio da Unesco sobre o Conjunto Moderno da Pampulha?

A Organização Mundial do Turismo (OMT) diz que há um incremento médio, isso não é regra, de 40% no turismo em cidades Patrimônio da Humanidade. A maioria dos turistas vem para Minas Gerais para conhecer o nosso patrimônio histórico barroco. E hoje as pesquisas demonstram que as pessoas chegam no aeroporto e vão direto para as cidades históricas, sem parar em BH. Isso deve mudar com um Patrimônio da Humanidade bem trabalhado, com marketing vigoroso. 

E a Pampulha hoje está preparada para esse eventual incremento no turismo?

Foram feitas intervenções na iluminação da orla, no entorno da Igrejinha, na praça, revitalização nos museus. Os equipamentos estão preparados para receber. Mas na Pampulha falta, e estamos trabalhando nisso, um transporte turístico – e isso é uma meta da Belotur – e implantação de vagas de estacionamento, que já existe um plano em andamento. Também é preciso ter banheiros públicos, que temos em todos os equipamentos, mas precisamos reabrir mais dois na orla. 

Como será esse transporte turístico?

Não pode ser um ônibus convencional, tem que ser um ônibus turístico. Já temos a proposta pronta e sendo trabalhada com a BHTrans. A ideia é que o ônibus fique na Pampulha e depois ele venha para o Centro também, até levar as pessoas daqui para lá. Outra ideia é que a Estação Pampulha do Move tenha um espaço destinado ao transporte turístico, e já fomos lá e analisamos o local. Vamos fazer um receptivo, vai ter um restaurante, uma área recreativa e possibilitar o acesso de quem vem da região metropolitana. Nós já temos o projeto e estamos estudando a implantação.

Há alguma obra prevista?

Dentro de um mês, já temos os recursos garantidos, o Veveco (Centro de Referência Turística Álvaro Hardy) vai passar por um grande processo de revitalização e vai ser a porta de chegada do Conjunto da Pampulha. E isso a gente entrega este ano.

O turista que vier para a Pampulha no final de julho, após a definição da Unesco, vai encontrar que tipo de estrutura na Pampulha?

Ele consegue encontrar banheiros, estacionamento, uma programação cultural revitalizada, o Centro de Atendimento ao Turismo revitalizado... O ônibus depende de licitação, por isso não acredito que em julho ainda esteja rodando. Mas estamos com um plano B que é deixar um ônibus normal circulado. Não é o ideal, é algo provisório até que chegue o turístico.

Com essa mudança da Pampulha você acha que Belo Horizonte entra de um vez por todas no mapa do turismo?

Isso já está acontecendo. A Belotur está trabalhando para que as operadoras comecem a vender os roteiros da capital e incluam BH no primeiro dia de viagem, ou ter um ou dois dias para Belo Horizonte. Temos uma reunião com as sete principais operadoras de turismo nacionais nesta semana para discutir o assunto. Isso é importantíssimo, porque não adianta você colocar ônibus ou outras coisas se você não investir em educação, informação, marketing vigoroso, planejamento e parceria.

Como conciliar um período de arrocho com uma previsão de crescimento no turismo, que requer investimento?

Planejamento. Os vácuos das crises são oportunidades para a gente planejar e executar as ações. Obviamente que dependemos de outros fatores de melhoria da economia nacional e mundial. Claro que há diminuição dos recursos, mas não há diminuição da criação. Pelo contrário, quando o recurso diminuiu, é preciso mais criatividade.

“Os vácuos das crises são oportunidades para a gente planejar e executar as ações. Obviamente que dependemos de outros fatores de melhoria da economia nacional e mundial. Mas não pode haver diminuição de criação”