A estudante Vitória Alves Freitas, de 9 anos, não tinha o costume de ler. Os colegas dela, Erick Gabriel Barreto Moreira dos Santos, de 7 anos, e Marcos Paulo Paulene, de 9, não gostavam nem mesmo de ouvir em falar em leitura. Hoje, porém, a realidade dessas crianças é bem diferente. Vitória leu 50 livros neste semestre. Erick e Marcos perderam a conta, mas sabem que podem ter chegado à marca de 44 exemplares. A mudança ocorreu após a chegada do projeto “Ler é Viver” à Escola Estadual Sarah Kubitschek, no bairro São Geraldo, em Belo Horizonte, onde estudam. Parte dos mais de 50 mil alunos beneficiados pela iniciativa, o trio é prova de que o incentivo à leitura pode transformar vidas.

Vitória, por exemplo, avançou nos estudos. E não foi só em português. “Melhorei em tudo. Acho que ler ajuda a me concentrar mais”, diz a garota, que tem o hábito da leitura entre os preferidos. “Gosto de ler por causa das aventuras e para aprender novas palavras e saber os significados”, afirma. Fascinada por esse mundo, a menina tem contagiado a família. “Antes eu lia, mas não era tanto”, confessa a irmã dela, Laura Freitas, de 19 anos. “Percebo que a Vitória conversa melhor em casa e está mais ativa”, emenda a jovem.

A introdução dos livros na rotina de Erick também repercutiu no lar. Aos 36 anos, a mãe do estudante, a assistente técnica de educação básica Alexia Barreto, acabou comprando pela primeira vez na vida um livro para ela. “Nunca tinha me sentado para ler, mas percebi que é interessante. Estou sempre lendo agora. Troco livros com uma colega e, se vou viajar, sempre levo um na bagagem”, conta Alexia. 

Influência da família

Sonhando ser escritor no futuro, Marcos já treina para o ofício desde agora. “Faço uns livrinhos. Pego folhas de caderno e escrevo histórias”, afirma. A ideia, claro, surgiu após receber incentivo para ler. Além do projeto, a família tem tido papel crucial no despertar do garoto para a literatura. “Minha mãe me mostrou que também lia na infância. Então, comecei a me interessar pela história dela e a ler do mesmo jeito”, explica Marcos. 

Vendo hoje como a educação faz falta, a avó do estudante, Zilda Pereira Hermes, é “embaixadora” da leitura. Ela só foi para a escola aos 9 anos, não completou os estudos e diz não ter aprendido a ler bem. “O que eu não tive, quis passar para ele para que, no futuro, consiga um emprego melhor”.

O projeto

Iniciativa do Instituto Gil Nogueira, o “Ler é Viver” completou dez anos em 2016. Mais de 1 milhão de livros foram lidos e interpretados pelos participantes, que têm de 6 a 11 anos e são de 18 escolas públicas de BH, três de Congonhas e uma de Conselheiro Lafaiete, além de dois projetos sociais. Cada turma recebe 50 livros infantis por semestre. Os exemplares são emprestados e, ao fim de cada campanha, os alunos são premiados de acordo com o número de livros lidos.