Sancionada em 2002, a Lei de Libras obriga órgãos públicos e instituições de saúde a disponibilizar intérpretes para prestar uma boa assistência aos portadores de deficiência auditiva. Mesmo assim, as 2,7 milhões de pessoas com surdez profunda (grau mais elevado) no Brasil sofrem diariamente com a inacessibilidade. Para esse público ser atendido em qualquer tipo de empresa, uma plataforma em desenvolvimento promete dar suporte on-line e em tempo real aos deficientes.

A ideia foi do universitário Felipe Barros, de 31 anos, do 7º período de sistemas de informação da PUC Minas. Por ser surdo e mudo, ele conhece os problemas enfrentados por quem nunca ouviu e pôde levar a experiência pessoal para o universo tecnológico. 

“Para mim, (ganhar o prêmio) é a prova de que um surdo é capaz de enfrentar as dificuldades e superá-las. Receber esse prêmio é um reconhecimento para toda  a comunidade surda” (Felipe Barros, criador da plataforma Signum)

Assim nasceu a Signum, uma iniciativa tecnológica que pretende quebrar a barreira da comunicação entre surdos e ouvintes. Considerada inovadora, a proposta foi premiada no Lemonade, programa mineiro de pré-aceleração de startups.

A plataforma poderá ser disponibilizada em empresas públicas ou privadas. Quando o deficiente auditivo chegar a um local não preparado para atendê-lo presencialmente por libras, ele poderá acessar o sistema através de um computador, celular ou tablet. A tecnologia, semelhante ao Skype e com imagem, irá disponibilizar um tradutor que intermediará a comunicação entre o surdo e o funcionário da instituição.

Investimento

O projeto tem apoio das aceleradoras de startups Techmall e Lemonade e de um investidor. Mas Felipe ainda busca mais parceiros para verba: são necessários R$ 150 mil para colocar a ideia no mercado. 

“Brigamos muito, até na Justiça, para que escolas aceitassem o Felipe. Ele foi alfabetizado em casa, com muita criatividade e intuição, pois não havia profissionais nos ajudando” (Cleusangela Barros, mãe e sócia de Felipe Barros)

A intenção é oferecer o serviço pago inicialmente para organizações que têm atendimento ao público, mas não têm intérpretes de libras.

“No Brasil, há cerca de 948 mil empresas de médio e grande portes, que são obrigadas por lei a promover acessibilidade comunicativa, mas não fazem isso. Os bancos, por exemplo, precisam de dois tradutores por agência. Inicialmente, pretendemos oferecer o produto nesse espaço em Belo Horizonte, só para então expandir para outras empresas e para todo o Brasil”, afirma Felipe, que conversou com a reportagem por e-mail, contando com a ajuda da mãe, Cleusangela Barros. 

Bancária aposentada, ela foi convidada pelo filho para trabalhar na administração e divulgação da startup, aproveitando o conhecimento adquirido em cursos de tecnologia assistida e gestão de programas sociais. “Agora posso emprestar os meus ouvidos ao Felipe com frequência maior, já que antes dispunha de pouco tempo”, disse. 

Superação

Felipe Barros tinha quase 2 anos quando ficou surdo devido a complicações de uma meningite. A família, que morava no interior da Bahia, se mudou para BH com o objetivo de a criança ter mais oportunidades no desenvolvimento. “Na época, não havia intérpretes e não conhecíamos libras. Mas o Felipe é inteligente, curioso, persistente e isso facilitou sua trajetória escolar”, conta Cleusangela. 

O maior obstáculo para os surdos profundos – nível mais elevado no grau de deficiência auditiva – é não compreender a língua portuguesa perfeitamente. A leitura não acontece de maneira tão clara quanto para pessoas que podem ouvir. “A maior dificuldade enfrentada é aprender português, pois, na vida social ou no mercado, é fundamental saber ler e escrever. A maioria dos surdos tem poucos conhecimentos por causa da dificuldade para ler jornais e livros”, afirma Felipe, que pretende seguir carreira como desenvolvedor na área de tecnologia. 

Em boa parte da vida escolar e na faculdade, o rapaz contou com a ajuda de um tradutor. “Se não tem intérprete, necessito de outra pessoa para ajudar. No meu caso, minha mãe ajuda. Nós, surdos, escrevemos o português usando muitas vezes a estrutura de libras. Os professores que são treinados conseguem entender isso, mas as outras pessoas não”, frisa Felipe.