Minas Gerais foi o segundo Estado brasileiro que mais regenerou mata atlântica nos últimos 30 anos. Mas a recuperação ainda não foi suficiente para apagar a destruição registrada nessas três décadas. Desde 1985, o desmatamento consumiu 383.637 hectares do bioma, contra apenas 59.850 (cerca de 15%) recuperados, conforme a Fundação SOS Mata Atlântica. 

Em solo mineiro ainda há outros importantes biomas – cerrado e caatinga –, ambos em situação igualmente crítica. A necessidade de proteger essas áreas em todo o país virou tema da Campanha da Fraternidade deste ano. 

“De fato, estão em condição deplorável”, afirma o professor de ecologia Geraldo Wilson Fernandes, da UFMG, para quem o cenário tende a piorar.

Na última semana, o pesquisador percorreu o rio Doce, bastante afetado pelos rejeitos da Barragem da Samarco, em Mariana, em 2015. “A tragédia degradou ainda mais a mata atlântica e empresas continuam desmatando ao longo da bacia”, alertou Fernandes.

Em qualquer dos biomas, explica o professor, o desmate geralmente ocorre para atividades agrícolas, como plantações de soja, milho e eucalipto. Na tentativa de frear a destruição da área, o Instituto Estadual de Florestas (IEF) desenvolve ações em parceria com empresas, produtores e comunidades. A proposta é buscar alternativas sustentáveis de renda para quem precisa da terra para produzir. São distribuídas mudas nativas e frutíferas e os moradores conscientizados sobre características e importância do bioma.

Tais projetos, somados a características sociais e ambientais, explicam a vice-liderança mineira no ran-king dos que mais recuperaram o bioma no país, afirma Janaína Mendonça, chefe do Escritório Regional do IEF Nordeste. Na lista das dez cidades daqui que mais reabilitaram a mata atlântica nas últimas três décadas, estão seis dos vales do Jequitinhonha e Mucuri. As outras, do Norte. 

São áreas, conforme Janaína, que facilmente se recuperam em função do solo, clima e luz e da mudança de comportamento dos produtores. “Com a crise hídrica, eles perceberam a importância dos recursos florestais. Além disso, muitas pessoas deixaram a terra, que se recupera com mais facilidade, e a fiscalização pesada coibiu o desmatamento e favoreceu a regeneração”.

A recuperação só não tem índices mais altos porque de dez anos para cá máquinas passaram a ser utilizadas para desmatar. Segundo a chefe do IEF, uma área de onde apenas se retira a vegetação, mantendo as características do solo, se regenera mais facilmente. 

Lei é esperança para frear desmate do cerrado no país

A aprovação de uma lei na Câmara dos Deputados é a esperança de ambientalistas para frear o desmatamento do cerrado no país. Em Minas, conforme a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), há apenas 22% do bioma conhecido como ‘berço das águas’. No país, de acordo com o professor de ecologia Geraldo Wilson Fernandes, o cerrado perdeu mais de um milhão de metros quadrados de área em função do desmate.

A proposição de 2015 conhecida como “Lei do Cerrado” está parada no Congresso desde o ano passado. De autoria do deputado federal Sarney Filho, hoje ministro do Meio Ambiente, o projeto de lei enfrenta resistência da bancada ruralista, afirma o presidente da Fundação Mais Cerrado, Bruno Melo. 

Para hoje está prevista reunião do grupo Aliança Cerrado, que reúne instituições do governo e sociedade civil para iniciar a revisão da proposta. “Não conseguiremos mais viabilizar alguns pontos. Além disso, estudamos a criação de um fundo para o cerrado, que irá gerir a verba e dará condições para as entidades trabalharem nas ações de preservação. A lei sem o fundo não resolve nada”, explica.

O professor da UFMG Geraldo Wilson Fernandes acha viável a lei, mas defende mais rigor na fiscalização. “Em Minas, o bioma foi severamente devastado. No Triângulo já não tem mais nada. O grande problema é a plantação de eucalipto. Infelizmente, os quadros de fiscais tanto da Secretaria de Meio Ambiente quanto do Ibama não são suficientes”.

O pesquisador teme pela sobrevivência do bioma. “Setenta por cento da carga dos rios vêm do cerrado. Se ele não for preservado, vai mudar todo o cenário hídrico do país”. 

O especialista também reforça a importância da caatinga, que ocorre no Norte de Minas, bioma que possui espécies da flora que podem ajudar a combater doenças. 

Procurado, o Ibama informou que apenas faz fiscalizações pontuais ou por demanda de outros órgãos, como o Ministério Público. A Semad não retornou o pedido de entrevista até o fechamento desta edição.

Diretora de Conservação e Recuperação de Ecossistemas do Instituto Estadual de Florestas (IEF), Fernanda Teixeira afirma ser preciso levantar mais informações sobre a caatinga. O órgão fará um planejamento sistemático da biodiversidade desse bioma e do cerrado.

Plano em elaboração

Previsto na Lei da Mata Atlântica, promulgada em 2006 pelo governo federal, o primeiro Plano Municipal do bioma em Minas foi implantado ano passado, em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri. De acordo com a diretora de Conservação e Recuperação de Ecossistemas do Instituto Estadual de Florestas (IEF), Fernanda Teixeira, a expectativa é a de que o próximo documento seja elaborado ainda em 2017.

O plano irá contemplar o Corredor Ecológico Sossego–Caratinga, criado há três anos na região Leste do Estado. A área abrange sete municípios, interligando as Reservas Particulares de Patrimônio Natural (RPPNs) Feliciano Miguel Abdala, em Caratinga, e Mata do Sossego, em Simonésia. 

O documento, explica Fernanda, é forte aliado na conservação da mata atlântica. Por meio dele são implementadas ações que contribuem para a regeneração do bioma. O IEF auxilia as prefeituras na parte de capacitação e mobilização das pessoas envolvidas. “O protagonismo, no entanto, é do próprio município. É ele que coloca as estratégias em prática”, enfatiza a diretora do IEF.

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