Reduzir as filas para exames, consultas com especialistas e cirurgias eletivas não passa apenas por aumentar a oferta e melhorar o atendimento na atenção primária. Mas, sobretudo, pela mudança no modelo. Segundo o consultor em saúde pública Eugênio Vilaça Mendes existe uma “demanda irracional” por estes serviços e entre 60% a 70% das pessoas que estão nas filas não necessitam deste tipo de assistência.

"Nos Estados Unidos, foi desenvolvida uma pirâmide de risco que se aplica a todas as doenças crônicas, como câncer, diabetes, hipertensão e Aids. Por este trabalho, constatou-se que 75% das pessoas que têm doenças crônicas são de baixo risco, ou seja, não se beneficiam da atenção especializada. Eles devem ficar na atenção primária. Uma pessoa que tem hipertensão leve, por exemplo, em geral não precisa de medicamento, tem que perder peso, se exercitar e se alimentar bem”, destaca.

Como exemplo no Brasil, ele cita o caso de um levantamento do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. “Foi feito um protocolo para cirurgia de coluna e constataram que só 40% das pessoas referidas ao hospital para esse procedimento têm realmente indicação. Se lá é assim, imagina nos outros lugares. A maioria dos que estão na fila não deveriam estar e acabam tomando o lugar de quem de fato necessita”.

A superintendente de atenção primária à saúde da Secretaria de Estado de Saúde, Maria Tourci, doutora em saúde pública, concorda e acrescenta outro aspecto. “Nosso modelo ainda é muito focado na produção de procedimentos e na internação hospitalar, e isso é um problema”, diz. Ela explica que, neste seguimento, os prestadores são remunerados pelo volume de procedimentos (exames, consultas, cirurgias) realizados, o que acaba gerando excessos.
Tourci a afirma que o governo de Minas está elaborando um projeto piloto para o Centro de Especialidades Médicas de BH. “Estamos estudando formas diferentes de pagamento do serviço, no formato de linhas de cuidado. Ele deve servir de modelo para o resto do Estado”, diz.

Desejo

“A medicina saiu do campo das necessidades para o campo dos desejos”, diz o diretor-geral do Hospital Alberto Cavalcanti, Cláudio Antônio de Souza. Segundo ele, a junção da exigência do cidadão com a insegurança do profissional, que busca cada vez mais por certeza, resulta na demanda maior por exames e procedimentos médicos e, consequentemente, numa medicina mais cara e insustentável.

Segundo ele, a mudança para um modelo calcado na atenção primária tem sido aconselhada no mundo inteiro. “Estudo do Banco Mundial, de 2009, alertou o presidente dos Estados Unidos que a conta da saúde do país não fecharia se não fossem tomadas providências. Os Estados Unidos tinham resultados semelhantes aos do Chile e da Espanha, porém, com custo seis vezes maior. Foi aí que começaram a remodelar seu sistema”.