Já se passou quase um ano e a dona de casa Cleuza Maria Pereira, de 66 anos, aguarda por um exame de colonoscopia pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Enquanto isso, convive com a dúvida de uma possível doença no intestino.

Ainda assim, ela acha o sistema bom. “Demora, mas a gente consegue”, diz. Cleuza frequenta o posto de saúde do bairro Urucuia, no Barreiro, onde, segundo ela, é bem atendida. Tanto que abandonou um plano particular e hoje só conta com a assistência pública. “Não era melhor que o SUS, então desisti”.

São antagonismos que a população enfrenta cotidianamente ao acessar a saúde pública. Caminhos tortuosos – embora muitas vezes eficazes – que o Hoje em Dia mostra em uma série de reportagens, a partir deste domingo, em busca por respostas sobre o que precisa ser feito para desatar esses nós.

Para Cleuza, o principal problema no sistema é a demora no agendamento de consultas especializadas e exames mais elaborados. Essa falta de agilidade e o quadro insuficiente de médicos são os aspectos que mais impactam na insatisfação do usuário, aponta pesquisa Datafolha, realizada a pedido do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Cerca de três em cada dez brasileiros aguardam atendimento, principalmente para consultas médicas, exames e cirurgias, mostra o levantamento, divulgado há dois meses.
 
Contraponto
 
Na atenção básica, porta de entrada do sistema, o atendimento evoluiu bastante nos últimos anos, avaliam gestores, médicos e consultores da área da saúde. Mais de 60% da população brasileira é alcançada. Essa assistência primária abrange não só a prevenção, mas também diagnóstico, tratamento, reabilitação e manutenção da saúde.

Nesse patamar, dizem os especialistas, com procedimentos menos complexos e mais baratos, mais de 80% dos problemas de saúde podem ser resolvidos. Apesar de todos reconhecerem faltar investimentos, qualificação e estrutura, é aqui onde a saúde é mais ampla e satisfatória.

Os entraves se agravam mesmo é no atendimento secundário, na atenção especializada, na média e alta complexidades. Justamente na fase em que Cleuza se encontra é que as dificuldades gritam, transformando muitos problemas de saúde inicialmente simples em urgentes.O mesmo ocorre, por exemplo, quando o paciente tenta agendar uma cirurgia.
 
Leitura diferente

Para o Ministério da Saúde, a leitura que o Conselho Federal de Medicina faz dos dados da pesquisa de opinião sobre a saúde é “inadequada”, por julgar notas entre 5 e 7 como reprovação dos serviços prestados. No entendimento do órgão, para os usuários que efetivamente utilizaram o SUS nos últimos dois anos, a aprovação é de 74%.

Belo Horizonte entendeu conceito e se tornou pioneira

“Eu sou uma entusiasmada com o SUS”. A declaração é da médica gastroenterologista Érica Ferreira Alvarenga, atuante na saúde pública desde 1996. Desde então, ela viu enormes avanços no sistema, nascido junto com a Constituição de 1988 para ser universal, equânime e integral.

Na visão dela, o maior êxito na estruturação do sistema foi a priorização da atenção básica, que passou a ser a porta de entrada para toda a rede.

Dessa forma, o cidadão precisa passar primeiro pelo posto de saúde, o médico com formação generalista, para, então, caso necessário, ser encaminhado a algum especialista. “É assim que funciona em países como Canadá, Inglaterra, Itália e França”, cita a médica.

Segundo Érica, Belo Horizonte, Campinas (SP) e Juazeiro (BA) são as cidades brasileiras que saíram na frente nesse modelo e se tornaram referências. “São Paulo, por exemplo, ainda não estruturou assim sua rede, e a porta de entrada é prioritariamente nos hospitais. Isso torna o atendimento mais caro e, consequentemente, menos eficiente. A vantagem é que eles têm muito dinheiro. Assim como nos Estados Unidos, que agora já estão revendo seu sistema”.

Ainda na avaliação da médica, o SUS é um modelo excelente, porém, ainda com grandes desafios pela frente.
 
Além Disso


A gestão do SUS, bem como o financiamento da saúde, são compartilhados entre os três entes federados. A União estabelece as diretrizes das políticas de saúde, enquanto Estados e municípios são responsáveis pela execução dos serviços e por toda organização da rede de assistência à saúde da população. Segundo a Constituição Federal, a União deve aplicar na saúde o mesmo valor destinado ao orçamento no ano anterior, mais a variação nominal do PIB. Já os Estados e o DF devem investir 12% da receita própria, enquanto os municípios precisam aplicar o mínimo de 15%.

 

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