Em 1944, o pai de Lulu, um boiadeiro viajante que vivia em Divinópolis, na região Oeste de Minas, chegou à fazenda da família depois de mais uma jornada de trabalho. Encontrou as duas filhas mais velhas chorando por causa de uma travessura de Lulu, à época com 2 anos. A pequenina havia pegado todos os batons das irmãs e passado nos olhos, testa, nariz, pernas, braços... Uma verdadeira bagunça!

“Eu não me lembro do episódio, mas foi assim que aconteceu, conforme o que meus pais e minhas irmãs disseram”, conta a dona de casa Luzia da Conceição Amaral, de 74 anos, ou simplesmente Luzia do Batom, como é conhecida em Nova Serrana, também no Oeste do Estado, onde mora.

Assim que viu a traquinagem da caçula, o pai seguiu até a venda e comprou uma caixa de batons vermelhos para as irmãs e outra para a mãe, que dava um deles para Lulu toda vez que ela fazia birra. “Aquilo me acalmava”, diz dona Luzia. “Aos 6 anos de idade, eu já sabia passar o batom corretamente sem nem olhar no espelho”.

“Quando fui fazer uma cirurgia de vesícula, os médicos pediram para que eu não passasse batom. Depois do procedimento, eu fiquei passando mal e atribuí ao fato de estar sem batom. Passei e melhorei”
Luzia da Conceição Amaral
Dona de Casa

A simpática senhora afirma que, desde então, ela só usa a cor vermelha nos lábios. “Tem 72 anos que coloco o mesmo tom na boca. Às vezes em que passei um mais clarinho, as pessoas na rua me perguntaram se eu estava doente”.

Autoestima

Luzia do Batom é uma mulher que emana amor-próprio. “Se eu não ganhar nenhum sorriso ao sair de casa, pelo menos já ganhei o meu na frente do espelho”, afirma. Essa valorização, inclusive, a ajudou a lidar com as críticas que já ouviu.

“Já me pararam na rua para dizer que eu deveria usar um batom mais claro, uma vez que eu era uma pessoa de linha, que já foi professora e que o vermelho não era o certo. Respondi que aquele era o certo de acordo com o meu sentimento”, recorda.

Mas o julgamento de alguns é compensado pelos elogios que sempre recebe. “Ultimamente, jovens moças têm vindo na minha casa, trazidas pelas mães, e pedem para tirar uma foto comigo ou participar do meu ‘zap’. Elas me admiram”, diz envaidecida.

Apesar de gabar-se dos aplausos, dona Luzia não se considera vaidosa. “Por exemplo, nunca pintei os cabelos, exceto por uma vez, quando tinha 21 anos, que eu e minhas amigas colorimos os cabelos com papel de seda. O meu foi azul. No outro dia saiu”, ri.

Luzia do Batom

“Sou uma pessoa que se ama demais e que é muito grata a Deus”, afirma a idosa

Inseparável

Na coleção de batons vermelhos, a dona de casa conta com 35 unidades. Mas não se diz fiel a uma marca. “Preciso testar para ver se combina comigo”, explica. “Tenho batons nos lugares por onde eu passo, nas bolsas, na mesa da sala, no canto dos meus santinhos, no móvel da televisão”.

Casada há 48 anos, ela dorme ao lado do marido sempre com a boca pintada de vermelho. “A pessoa que me ajuda a cuidar da casa duas vezes por semana pergunta se eu não posso deixar o batom de lado na hora de dormir. É que a roupa de cama sempre suja”, conta rindo.

Apaixonada pelo próprio sorriso, dona Luzia só se queixa de uma coisa: não ter dinheiro para implantar alguns dentes que estão substituídos por pontes provisórias. “Nem pelo mais barato eu posso pagar”, lamenta. No entanto, permanece otimista por receber a ajuda de alguém.