A estudante Jamille Edaes, de 22 anos, que alega ter sofrido racismo durante uma parada de ônibus no município de Perdões, no Sul de Minas, prestou depoimento nesta terça-feira (11), em Lavras, na mesma região. A informação foi confirmada pela Polícia Civil, que não deu detalhes da conversa entre Jamille e o delegado.

Mas na saída da delegacia, a estudante conversou com a reportagem da TV Universitária de Lavras. Ela contou que entregou ao delegado endereços e telefones das testemunhas que poderão depor a seu favor.  Jamille disse ainda que apresentou conversas telefônicas e mensagens de whatsapp com propostas em dinheiro para ela desistir do caso. "Quem não deve, não teme. Se não aconteceu nada lá, como estão afirmando, por que me ofereceriam alguma coisa? Deixa rolar, deixa ir até o final", afirmou.

Questionada sobre a falta de imagens que comprovem que ela esteve no banheiro, Jamille disse que nenhum funcionário iria prestar depoimento contra a empresa onde trabalha. "Qual funcionário vai ficar contra a própria empresa?", questiona. 

Ao final da entrevista, ela disse que está segura e que não voltará atrás no que falou ao delegado. "Estou esperando tranquila. Tem saído muita coisa na imprensa, coisas que não falei, porque não dei entrevistas", concluiu. 

Assista a entrevista:

Créditos: TVU Lavras / repórter: Graziella Moreira / repórter cinematográfico: Jésus Rafael

Entenda

O caso ganhou repercussão depois que a denúncia ganhou as redes sociais. No Facebook, em um perfil atribuído à Jamille, foi publicada a história de que a filha da estudante teria sido foi vítima de uma tentativa de sequestro durante uma viagem de ônibus entre São Paulo e Belo Horizonte, no dia 26 de junho. Na parada em Perdões, após ir com a filha até o banheiro, ela teria visto uma mulher pegar a menina pela mão, mas achou que fosse uma brincadeira. Quando Jamille chamou pela menina, a suposta sequestradora teria gritado que era a verdadeira mãe da criança. O relato conta que Jamille teria mostrado o documento de identidade da filha e fotos da família no Facebook para provar que era a verdadeira mãe da criança. Jamille, que é negra, teria afirmado ter sido vítima de racismo.

Mais tarde Jamille negou a postagem, apesar do boletim de ocorrência feito por ela no dia seguinte ao caso, na Delegacia de Betim, onde mora, trazer as mesmas informações do post do Facebook. 

A versão do advogado

Na ocasião, o advogado Marcelo Machado conversou com a reportagem do Hoje em Dia e afirmou que Jamille teria sido interpelada três vezes por funcionários do estabecimento, questionando se ela seria mãe da menina. Uma teria dito: “você não é a mãe, porque ela é branca e você é de cor escura”. No banheiro, onde teria ido para trocar a fralda da menina, Jamille teria sofrido o principal embate.

“Foi ao banheiro, trocou a fralda da criança, e aparece uma terceira pessoa. A servidora do posto, que estava limpando lá, pegou essa criança e entregou para terceira pessoa. (A Jamille) disse “não, a criança é minha filha”. Ela (Jamille) se viu obrigada a se identificar como mãe da criança e mostrar: “Eu sou a mãe da criança”. A terceira pessoa disse: realmente, eu não sou a mãe”, contou o advogado.

Investigações

Funcionários da parada de ônibus Graal de Perdões já foram ouvidos pela Polícia Civil. De acordo com delegado Ailton Pereira, de Lavras, as testemunhas disseram não ter visto nada de anormal na tarde de segunda-feira (26/06), quando os supostos crimes teriam acontecido.

Foram ouvidos o gerente, o encarregado, a mulher que fica na portaria e o atendente de caixa. A polícia teve acesso também às imagens das câmeras de segurança do Graal que registraram a presença de Jamille e da filha no estabelecimento, mas nenhuma tentativa de sequestro ou tumulto.

Também devem prestar depoimentos o motorista do ônibus da Viação Cometa, utilizado por Jamille, e os policiais militares que estavam no Graal no mesmo momento em Jamille estava presente no local. As imagens das câmeras mostram que os dois homens, que estavam fardados, estiveram perto dela em vários momentos e não foram abordados por ela.

Nesta terça, o advogado de Jamille, Marcelo Machado, foi procurado várias vezes pela reportagem do Hoje em Dia, mas não atendeu ao telefone. 

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Com Cinthya Oliveira e Paula Bicalho